Após fala de Jair Bolsonaro sobre ‘conexão romântica’, Trump desconversa ao ser questionado sobre aliado acusado de tentativa de golpe no Brasil
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) revelou nesta terça-feira (15) uma admiração quase “romântica” por Donald Trump, mas não encontrou do outro lado o mesmo entusiasmo. Durante entrevista ao site Poder360, Bolsonaro afirmou ser “apaixonado” pelo ex-presidente dos Estados Unidos e disse ter sido tratado como “um irmão” por Trump enquanto ambos comandavam suas respectivas nações.
“Eu gosto dele, eu sou apaixonado por ele, pelo povo americano, pela política americana, pelo país que é os Estados Unidos. Ele sempre me tratou como um irmão”, declarou Bolsonaro, em tom confessional, reafirmando sua afinidade ideológica com o líder republicano.
Horas depois, no entanto, Trump mostrou que prefere manter distância do aliado brasileiro — hoje alvo de investigações da Procuradoria-Geral da República por suspeita de envolvimento em tentativa de golpe de Estado e organização criminosa. Questionado por repórteres na Casa Branca sobre a situação de Bolsonaro, Trump respondeu de forma evasiva, destacando que está “focado em questões dos Estados Unidos” e que “não comenta processos de outros países”. Veja, não é que ele seja meu amigo. Ele é alguém que eu conheço.”
A reação contida expõe a diferença de prioridade entre os dois ex-presidentes: enquanto Bolsonaro ainda aposta no trumpismo como símbolo de identidade política e tenta colar sua imagem à do republicano para manter o apoio da base radical, Trump está concentrado em sua própria estratégia para voltar à Casa Branca em meio a múltiplos processos judiciais e forte polarização interna.
Assessores próximos a Trump, segundo veículos americanos, enxergam pouca vantagem prática em reforçar publicamente laços com Bolsonaro neste momento — especialmente devido ao peso das investigações que atingem o brasileiro e que poderiam respingar na campanha republicana caso Trump fosse visto como defensor explícito de um aliado sob suspeita de conspirar contra a democracia.
Durante seu governo, Bolsonaro se alinhou a Trump em temas como ataques a organismos multilaterais, defesa de pautas ultraconservadoras e desconfiança em relação a eleições — posturas que acabaram criando um vínculo simbólico entre os dois no imaginário da extrema direita global.
No entanto, desde a derrota de ambos — Trump em 2020 e Bolsonaro em 2022 —, a relação prática parece ter se enfraquecido. Enquanto o brasileiro enfrenta restrições legais que podem torná-lo inelegível, Trump tenta costurar alianças internas nos EUA e conquistar eleitores moderados, o que inclui se afastar de figuras que possam representar riscos adicionais à sua imagem.
Para analistas, a fala calorosa de Bolsonaro mostra sua dependência de símbolos externos para manter viva sua narrativa de outsider global — mas a resposta fria de Trump indica que o ex-presidente americano, desta vez, não está disposto a pagar o preço político de bancar um “irmão” enrolado com a Justiça em outro continente.




