Alta do ICMS, estrutura de distribuição e margens da revenda explicam por que reduções na origem não chegam ao consumidor
Os preços da gasolina e do etanol continuam elevados em Campinas no início de 2026, mesmo em um cenário de maior estabilidade econômica e sem choques internacionais relevantes sobre o mercado de petróleo. Dados oficiais mostram que, embora os valores praticados na origem tenham apresentado recuos ou estabilidade, o impacto não se refletiu de forma proporcional nas bombas, mantendo a pressão sobre o orçamento de motoristas e trabalhadores que dependem do carro no dia a dia.
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O descompasso entre o preço na refinaria e o valor final pago pelo consumidor está associado a um conjunto de fatores estruturais que vão além da política de preços da Petrobras. Impostos, custos logísticos, modelo de distribuição e margens comerciais ao longo da cadeia ajudam a explicar por que o combustível permanece caro, mesmo quando há redução no primeiro elo do sistema.

Aumento do ICMS pesa no preço final
Desde janeiro, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) incidente sobre os combustíveis passou por reajuste. O modelo atual de cobrança, com valor fixo por litro, faz com que qualquer aumento seja automaticamente repassado ao consumidor, independentemente de oscilações no preço da refinaria. Em São Paulo, o imposto estadual representa uma parcela significativa do valor final da gasolina e do etanol, reduzindo o espaço para quedas perceptíveis nas bombas, mesmo quando outros custos permanecem estáveis.
Preço na refinaria é fração do valor na bomba
O litro da gasolina vendido pela Petrobras às distribuidoras sai da refinaria por um valor que corresponde a menos da metade do preço cobrado nos postos. A partir daí, o combustível recebe a adição obrigatória de etanol, além de tributos federais e estaduais, custos de transporte, armazenagem e margens das distribuidoras e revendas. No caso do etanol, que não é produzido pela Petrobras, o produto sai das usinas e percorre caminho semelhante até chegar ao consumidor, com acréscimos sucessivos ao longo da cadeia.
Distribuição privatizada e lógica de mercado
Após a privatização da BR Distribuidora, hoje Vibra Energia, o setor de distribuição passou a operar integralmente sob lógica privada de mercado. As distribuidoras negociam preços com os postos de forma regionalizada, considerando volume, logística e rentabilidade. Não há obrigação de repasse integral de eventuais reduções ocorridas na refinaria, o que contribui para a manutenção de margens mesmo em períodos de estabilidade ou queda na origem. Esse modelo também se reflete no mercado de gás de cozinha, em que o valor praticado na refinaria é muito inferior ao preço pago pelo consumidor final.
A BR Distribuidora (atual Vibra Energia) foi privatizada pela Petrobras em um processo que começou em julho de 2019, com a venda de controle acionário, e foi concluído em 2021, quando a Petrobras deixou de ser sócia, resultando na mudança de nome e reposicionamento da empresa no mercado de energia.
Na prática, o resultado desse arranjo é sentido diretamente pela população. Em Campinas, motoristas seguem pesquisando preços, ajustando rotas e reduzindo deslocamentos para tentar equilibrar o orçamento mensal. O cenário reforça a percepção de que o custo do combustível deixou de ser determinado apenas pelo valor do petróleo ou pela política da estatal, passando a refletir principalmente decisões tributárias e a estrutura privada de distribuição e revenda.
Preço da Petrobras
Gasolina
- Refinaria Petrobras: ~R$ 2,67/l — preço médio de gasolina A (sem impostos), valor real de venda para distribuidores no início de 2026.
- Distribuidor (antes de revenda): ~R$ 5,26/l — preço médio que as distribuidoras registraram ao vender para os postos, incluindo algumas margens intermediárias.
- Revenda ao consumidor: ~R$ 6,29/l — preço médio na bomba (gasolina C) calculado a partir dos levantamentos da ANP no período.
Etanol
- Distribuidor: ~R$ 2,96/l — preço médio de etanol hidratado vendido ao distribuidor antes do repasse ao varejo.
- Revenda ao consumidor: ~R$ 4,53/l — preço médio de etanol hidratado observado nos postos em início de 2026.




