
Documentos enviados ao STF mostram acordo de honorários condicionado ao resultado de processos que poderiam envolver R$ 8,5 bilhões em precatórios; mensagens também registram pedidos de hospedagens e ingressos atribuídos a integrantes do grupo citado como “Turma do KN”
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Por Sandra Venancio – Jornal Local
Arquivos extraídos pela Polícia Federal do material apreendido nas investigações envolvendo o Banco Master e enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) mostram um contrato de honorários advocatícios que poderia chegar a R$ 427 milhões em caso de êxito em processos relacionados a aproximadamente R$ 8,5 bilhões em precatórios. O documento envolve o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, ligado à advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). As informações foram reveladas pelo Metrópoles e posteriormente confirmadas por outros veículos.
O contrato estabelecia honorários de 5% sobre valores que viessem a ser recebidos pelo Banco Master em 12 processos relacionados a indenizações decorrentes de políticas de controle de preços do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). O banco aparecia como credor ou cessionário dos créditos. Segundo os documentos divulgados, o pagamento dos honorários estaria condicionado ao êxito das ações e deveria ocorrer em até cinco dias após a obtenção dos valores.
O interesse financeiro envolvido nos processos é expressivo. Os documentos apontam para aproximadamente R$ 8,5 bilhões em precatórios que poderiam ser liberados caso as ações fossem favoráveis aos interesses do banco. O contrato, portanto, vinculava a remuneração do escritório ao resultado econômico dos processos, embora os documentos divulgados não comprovem que o valor de R$ 427 milhões tenha sido efetivamente pago.
As mensagens e a “Turma do KN”
Nas conversas recuperadas do celular de Daniel Vorcaro, assessores e interlocutores utilizavam a expressão “Turma do KN” em referências ao desembargador Newton Ramos e à advogada Camilla Ramos. As reportagens associam a sigla “KN” ao ministro Kassio Nunes Marques, do STF.
Uma das mensagens atribuídas a Camilla Ramos comemora um voto de Nunes Marques em um julgamento relacionado à tese jurídica das indenizações. Na conversa, ela classificou o voto como “um excelente voto do Min. Nunes Marques”, destacando a distinção feita pelo ministro sobre os critérios de indenização previstos nos títulos judiciais.
As mensagens também registram pedidos de benefícios e serviços atribuídos a Newton Ramos e, segundo os interlocutores, ao próprio ministro. Em uma das conversas, uma assessora pergunta a Vorcaro se poderia colocar na conta dele uma diária no Hotel Fasano Itaim para Nunes Marques. A resposta atribuída ao banqueiro foi: “Pode botar na minha conta”.
Outro diálogo menciona nomes para um camarote durante o Carnaval. Um assessor pergunta a Vorcaro se poderia encaminhar para a lista seis nomes enviados pela chamada “Turma do KN”. As mensagens também fazem referência a hospedagens, eventos e outras despesas relacionadas a pessoas próximas ao grupo.
O material divulgado pela imprensa inclui ainda referências a uma hospedagem durante o Carnaval de 2025 e a benefícios de viagem. Reportagem da Folha, baseada nas informações divulgadas pelo Metrópoles, relata que mensagens identificavam um ministro pelo codinome “KN” e apontavam para o custeio de hospedagem por Vorcaro.
O que diz Kassio Nunes Marques
Kassio Nunes Marques nega ter mantido relação pessoal ou comercial com Daniel Vorcaro e afirma que nunca pediu qualquer benefício ao ex-banqueiro. Em nota, sua assessoria declarou que o ministro “nunca votou a favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master, nunca trocou mensagens com o banqueiro e nem pediu nada a ele”.
Sobre o julgamento envolvendo a tese das indenizações, a defesa afirma que Nunes Marques inicialmente apareceu como impedido porque havia participado do caso quando era vice-presidente do TRF-1. Posteriormente, segundo a explicação apresentada pelo ministro, ele concluiu que tecnicamente não havia impedimento porque se tratava de uma tese de aplicação ampla e solicitou a correção do registro antes de votar.
A assessoria também sustenta que o processo comemorado nas mensagens não era uma ação do Banco Master, mas um julgamento cuja tese poderia alcançar diversas empresas. O ministro afirma que nunca votou a favor do Banco Master.
Newton Ramos, por sua vez, confirmou a relação profissional de sua mulher com o Banco Master, mas negou ter julgado processos de interesse da instituição. As informações divulgadas também registram que ele admitiu relação pessoal com Vorcaro.
Os documentos da investigação, portanto, colocam lado a lado três elementos que ainda precisam ser analisados pelas autoridades: um contrato de êxito de até R$ 427 milhões, processos com potencial econômico de aproximadamente R$ 8,5 bilhões e mensagens que mencionam Nunes Marques e registram benefícios atribuídos a pessoas relacionadas à chamada “Turma do KN”. As mensagens e o contrato constituem elementos da investigação, mas não demonstram, isoladamente, que o ministro tenha recebido valores, determinado decisões judiciais ou atuado para beneficiar o Banco Master. O próprio Nunes Marques nega essas acusações.


