Emendas de Flávio Bolsonaro chegam a entidade (ONG) considerada inexistente e empresas investigadas pela PF

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Polícia Federal investiga se recursos destinados a entidades ligadas aos irmãos Brazão foram desviados. Em relatório citado pelo G1, o Tribunal de Contas da União também apontou indícios de desvio relacionados ao dinheiro destinado ao projeto. Foto Divulgação PF

Mais de R$ 300 milhões foram reservados para emendas indicadas pelo senador desde 2020; levantamento rastreou pagamentos a entidade classificada pela Receita como “inexistente de fato”, empresas investigadas pela PF e instituto ligado a emenda negociada com condenado no caso Marielle

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

Emendas parlamentares indicadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, foram utilizadas por órgãos públicos para realizar pagamentos a uma entidade classificada pela Receita Federal como “inexistente de fato”, a empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de fraude em licitações e a um instituto que recebeu recursos após uma negociação entre uma assessora do parlamentar e Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Levantamento publicado pelo UOL nesta quinta-feira (1º) rastreou empresas e entidades contratadas pelos órgãos que receberam recursos indicados por Flávio e identificou diferentes situações envolvendo recursos destinados pelo senador desde 2020. No período, mais de R$ 300 milhões foram reservados para emendas indicadas por Flávio Bolsonaro.

Instituto classificado como “inexistente de fato”

Um dos casos envolve o Instituto de Medicina e Projeto (IMP), que recebeu R$ 666 mil em agosto de 2025, dentro dos R$ 3,1 milhões destinados por Flávio para atenção básica de saúde de Mesquita (RJ), município administrado pelo PL. Em junho de 2026, a Receita Federal classificou o instituto como “inexistente de fato” e registrou, em documento oficial, razões que, segundo o órgão, indicariam que a empresa teria sido constituída para a prática de fraude fiscal, inclusive em benefício de terceiros. O IMP também é alvo de apuração do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro desde 2024. Segundo documentos consultados pelo UOL, a Prefeitura de Mesquita firmou contratos superiores a R$ 580 milhões com o instituto entre 2019 e o final de 2024.

A investigação do TCE-RJ apontou problemas na contratação do instituto para administrar serviços de saúde em Mesquita. Segundo o levantamento do UOL, o tribunal identificou ausência de estudos técnicos prévios e indícios de conluio na concorrência vencida pelo IMP. Um dos documentos relacionados ao instituto também teria sido assinado por uma pessoa que já havia morrido em 2017. A entidade não apresentou defesa escrita no processo administrativo aberto pela Prefeitura de Mesquita, segundo informou o município. A prefeitura também determinou que o IMP ficasse impedido de firmar novos contratos com a cidade durante dois anos.

Empresas investigadas pela Polícia Federal

O levantamento também encontrou recursos de emendas de Flávio Bolsonaro utilizados em pagamentos a empresas que estão sob investigação da Polícia Federal em uma apuração envolvendo suspeitas de combinação de contratos públicos para fornecimento de equipamentos de proteção balística. A Glágio do Brasil recebeu R$ 569 mil entre maio e junho, em convênios que tinham entre as fontes de recursos emendas indicadas por Flávio. A Inbra-Tecnologia recebeu R$ 1,1 milhão no mesmo convênio, e uma nota de empenho do Ministério da Justiça relaciona uma emenda do senador à aquisição de 342 capacetes balísticos fornecidos pela empresa.

As duas empresas foram alcançadas pela Operação Perfídia, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2023. Segundo a PF, a investigação apura suspeitas de divisão de contratos públicos de equipamentos de proteção balística, com possível alternância de vitórias em licitações conforme o tamanho dos equipamentos e a região do país. As investigações continuam sob sigilo. A Glágio e o grupo Inbra não responderam aos pedidos de posicionamento feitos pelo UOL, segundo a reportagem.

A emenda negociada com Robson Calixto

Outro episódio envolve o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), que recebeu R$ 199.999,79 para o projeto esportivo “Jogadores do Futuro”, na Taquara, Zona Oeste do Rio. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que a negociação da emenda ocorreu em 2023 entre Maria de Fátima Bezerra Castro, então assessora de Flávio Bolsonaro, e Robson Calixto, conhecido como “Peixe”. Calixto foi condenado pelo STF a nove anos de prisão por organização criminosa armada no processo relacionado ao assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Segundo as investigações, ele atuava como interlocutor dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, também condenados pelo crime.

De acordo com as mensagens obtidas pela PF, Calixto procurou a assessora para tratar da liberação do recurso, e a interlocução resultou na destinação da emenda ao projeto esportivo. A Polícia Federal investiga se recursos destinados a entidades ligadas aos irmãos Brazão foram desviados. Em relatório citado pelo G1, o Tribunal de Contas da União também apontou indícios de desvio relacionados ao dinheiro destinado ao projeto. Flávio Bolsonaro afirma que as emendas seguiram os critérios legais e que a execução dos recursos é responsabilidade das entidades e dos órgãos beneficiários.

Mais R$ 4 milhões no projeto do Vasco

O levantamento do UOL identificou ainda uma emenda de R$ 4 milhões, destinada em 2025 a um projeto esportivo ligado ao Vasco da Gama, que entrou na mira da Controladoria-Geral da União. Segundo a apuração, R$ 684 mil, equivalentes a 93% das despesas registradas no projeto, foram destinados a uma única microempresa para aquisição de materiais esportivos. O caso se soma aos demais episódios identificados no rastreamento das emendas do senador.

Em outro caso, uma emenda destinada por Flávio ao município de Resende resultou em nove pagamentos à empresa Valle Sul, que totalizaram R$ 6,61 milhões, para obras de revitalização do aeroporto municipal. Reportagem da revista piauí, citada pelo UOL, registrou que máquinas da empresa foram vistas trabalhando dentro de uma propriedade particular pertencente a Renato Araújo, identificado como amigo do senador.

O argumento de Flávio Bolsonaro

Procurado pelo UOL, Flávio Bolsonaro afirmou que seu gabinete não indica as empresas que executam os serviços financiados pelas emendas. Segundo a manifestação enviada pelo senador, cabe aos órgãos beneficiários tomar as decisões relativas às contratações, de acordo com a legislação e os procedimentos administrativos aplicáveis. A Prefeitura de Mesquita apresentou argumento semelhante ao afirmar que os recursos destinados à saúde são transferidos ao Fundo Municipal de Saúde e que cabe ao município decidir como executar os serviços.

O levantamento mostra, portanto, uma cadeia que começa na indicação parlamentar dos recursos e termina em entidades e empresas contratadas pelos órgãos públicos responsáveis pela execução. Em alguns casos, os beneficiários são alvo de investigações ou decisões de órgãos de controle; em outro, a Polícia Federal encontrou mensagens que registram a negociação de uma emenda entre uma assessora do senador e um condenado no caso Marielle. Os fatos são objeto de apurações distintas e envolvem responsabilidades diferentes, mas todos aparecem no rastreamento realizado sobre a utilização de recursos provenientes de emendas indicadas por Flávio Bolsonaro.

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