Uma história esquecida de luta por melhores condições de trabalho na Marinha Brasileira no início do século XX, que até foi contada em música nos anos 70, mas censurada. Cerca de um século depois a história é resgatada pelo projeto Memória: João Cândido e a luta pelos direitos humanos, uma exposição itinerante promovida pela Fundação Banco do Brasil, com patrocínio da Petrobras, que aporta a partir desta terça-feira, dia 16, no Espaço Cultural do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, localizado no 1º Andar do Edifício Sede, Rua Barão de Jaguara, 901. A entrada é franca.
O brasileiro João Cândido Felisberto, o Almirante Negro – eternizado no samba O Mestre-sala dos Mares, de João Bosco e Aldir Blanc – foi um dos líderes de um importante movimento pelos direitos humanos, conhecido como Revolta da Chibata. A luta teve como palco a Baía de Guanabara (RJ), onde os encouraçados Minas Gerais, São Paulo e Deodoro e o cruzador Bahia, estavam ancorados para a posse do Marechal Hermes da Fonseca na Presidência da República, em 1910. Cerca de 2.000 marinheiros, a maioria negros, sob liderança de João Cândido e Francisco Dias Martins, foram habilidosos na condução das embarcações e de suas reivindicações. As péssimas condições de trabalho nos navios e o código disciplinar em vigor, que previa a aplicação de castigos corporais, foram as principais causas da Revolta da Chibata.
Temas como escravidão, monocultura e latifúndio, ligados à sociedade da época, e com reflexos no Brasil de hoje, voltam a ser discutidos por meio do estudo da vida e lutas de João Cândido neste projeto. Composta por 16 painéis ilustrados, a exposição foi idealizada em 2008 pela Fundação Banco do Brasil em parceria com a Associação Cultural do Arquivo Nacional. Além da exposição, que já percorreu diversos municípios brasileiros, o projeto inclui uma página na internet sobre a vida e a obra de João Cândido, a produção de documentário e de livro fotobiográfico, que foram disponibilizados em bibliotecas públicas do país, além de um kit pedagógico, com almanaque histórico e guia do professor, distribuído em escolas.
O movimento que parou o Rio de Janeiro em 1910 teve um triste fim. Como não foram atendidos, os revoltosos ameaçaram bombardear a cidade, caso suas reivindicações não fossem atendidas. Com a votação, pelo Congresso Nacional, da abolição da chibata e a concessão da anistia, os marinheiros encerraram a revolta. O governo e as autoridades militares, no entanto, não cumpriram o acordo, prenderam e castigaram os marujos, que se rebelaram novamente. A reação do governo foi bárbara: o massacre dos rebeldes na Ilha das Cobras. Os que não morreram foram presos e enviados para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no Acre.
João Cândido sobreviveu, foi expulso da corporação e internado em um hospital para loucos. Tuberculoso, foi solto alguns anos depois. Durante o resto de sua vida, trabalhou como vendedor de peixes no mercado do Rio de Janeiro, onde morreu, sem patente e na miséria, em 1969, aos 89 anos de idade. Em 2008, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei 7198/02, sancionado pela Presidência da República, que concedeu anistia post mortem a João Cândido Felisberto e aos demais participantes do movimento.
Para o presidente do TRT da 15ª Região, desembargador Renato Buratto, a exposição sobre João Candido no Espaço Cultural acontece em um momento muito oportuno. “A Justiça do Trabalho atua como agente pacificador de conflitos e distribuidor da justiça social. Nada mais propício do que resgatar este importante e centenário movimento pelos direitos humanos, em um período muito precioso para nós, em que a Justiça do Trabalho comemora 70 anos e o TRT da 15ª Região, por sua vez, celebra Jubileu de Prata”, assinala.
Serviço: projeto Memória – João Cândido e a luta pelos direitos humanos
Quando: Vernissage dia 16 de agosto, às 17 horas. Até 16 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 12 às 18 horas.
Sábados: das 10 às 18 horas; Domingos: das 14 às 18 horas.
Local: Espaço Cultural do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, localizado no 1º Andar do Edifício Sede, Rua Barão de Jaguará, 901
Entrada Franca.




