Nem parecia uma tarde de primavera. O calor forte misturava-se com a brisa do mar ali perto e talvez, àquela hora, caísse melhor um cochilo na rede lá fora. Mas não. Sarah foi até a estante e apanhou o livro que comprara dois meses antes. Ele se conservara intacto, silencioso e paciente, naquele mesmo canto da casa, à espera de alguém que não tardaria a trazê-lo à vida. E esse dia, finalmente, chegara. Ela fora decidida e escolheu justo ele – e nenhum outro, entre tantos meticulosamente enfileirados. Leu o que vinha escrito nas orelhas e concluiu que era mesmo aquele tipo de leitura que sua alma lhe implorava naquele instante.
“Insaciável é a sede da palavra”, soprava em seus ouvidos, logo de cara, no texto de apresentação, o crítico literário Alfredo Bosi. Sarah gostou. E foi adiante: “Quem tem ouvidos, ouça – é a palavra que resta dizer ao leitor desta obra (…)”, ele, por fim, recomendava. Ela não teve qualquer dúvida: era ele mesmo!
Nas quatro semanas seguintes, Sarah sorveu com sofreguidão cada uma das palavras impressas em 352 páginas que foram para ela um chamamento à introspecção. Lia à tarde, quando tinha alguma folga na universidade. E à noite, deitada na cama em seu quarto. Outras horas, se impacientava a ponto de buscar o balanço da rede. Por dentro, ela própria sentia-se, por vezes, balançada. E instigada em seguir adiante, a não parar, a acompanhar atentamente cada nova reflexão. E, principalmente, fazer as suas próprias, e, custasse o que custasse, ir até o fim só para ver no que aquilo tudo iria dar – nada tão diferente, afinal, daquilo que acontecia, a cada página virada, com Scherezade, a mitológica personagem das Mil e Uma Noites que, agora, também era objeto central e fio condutor da história que prendia sua espiração.
— Não, decididamente não é uma leitura fácil e exige certo esforço e muita introspecção – descobriria, aos poucos, aquela ávida leitora. — Mas o livro prende pelo encantamento da linguagem, que tem leveza, delicadeza e uma teia de mistérios…
O caso de amor entre a professora cearense Sarah Diva Ipiranga e Vozes do Deserto começou algumas mais de duas décadas antes do livro ser publicado, em 2004, pela Record, carro-chefe de um dos principais grupos editoriais do Brasil. Lá pelos idos da década de 1980, Sarah assistiu, um belo dia, na faculdade, a uma palestra da escritora Nélida Piñon, que foi a Fortaleza como convidada do célebre Encontros Marcados, que a IBM promovia para levar escritores importantes às universidades brasileiras. A moça ficou encantada com a conversa gostosa e fluente da filha de galegos nascida no bairro carioca de Vila Isabel. Anos mais da tarde, voltaria a vê-la em uma outra palestra, desta vez em Belo Horizonte, onde Sarah foi morar. Pronto: estava consumada a sedução.
Anos mais tarde, ao saber que a escritora estaria na Bienal do Livro, em Fortaleza, onde voltou a morar, Sarah – agora já formada, lecionando Literatura Comparada na Universidade Estadual do Ceará e mãe – resolveu que não perderia a oportunidade de ouvi-la mais uma vez. Passou, antes, no estande da Livraria Feira do Livro e comprou o seu exemplar – um dos 40 que seriam vendidos naqueles dias. Como invariavelmente acontece quando sai pelo País afora – e também fora dele, já que foi se tornando, com o passar dos tempos, um dos autores brasileiros mais conhecidos e premiados no mundo – para divulgar seus livros e falar de literatura, seu assunto predileto, Nélida foi, pouco a pouco, com seu jeito doce e amável, cativando um leitor aqui, outro acolá.
Sarah – que já chegou a estar numa mesa, anos antes, ao lado dela – foi só uma delas. E pode-se dizer que sabe muito sobre ela. Mas, ao fixar os olhos, algum tempo depois, no último parágrafo do capítulo 64 de Vozes do Deserto, que encerra a obra, não fazia idéia do trabalho que deu e do longo trajeto percorrido até ali pelo livro. Até chegar a suas mãos daquele jeitinho – impresso num papel chamado Chamois-Fine, fabricado pela Ripasa, de peso mediano, ou 80 gramas por metro quadrado, no jargão técnico das gráficas e papeleiras, que, por vezes, dava vontade de esfregar os dedos e cheirar – fora um longo caminho. Uma verdadeira corrida de obstáculos, resistência e obstinação – a bem da verdade, nesse caso bem menor, se comparado à maioria dos outros 20 mil novos títulos que chegam anualmente ao mercado. Afinal, não dá para comparar as chances iniciais de uma obra que já chega amparada pela combinação de algumas marcas de sucesso e com ampla aceitação no negócio do livro. No caso, uma autora, como Nélida Cuiñas Piñon (vencedora, entre outros, do Prêmio Príncipe das Astúrias, um dos mais cobiçados da literatura mundial, e primeira mulher a presidir a vestuta Academia Brasileira de Letras), e uma editora, como a Record, dona de um catálogo de 6 mil de títulos, um formidável sistema de distribuição e uma polpuda fatia do mercado nacional.
Nem por isso, no entanto, o sucesso de qualquer um dos cerca de 60 títulos lançados todo mês pelos 11 selos do grupo está assegurado. E muito menos que esse caminho seja só de flores – aliás, muito pelo contrário, já que só uma minúscula parcela de livros publicados a cada no Brasil e no resto do mundo será bem sucedida. Seja qual for o livro – e o Brasil publica 45 mil por ano entre títulos novos e reedições, perfazendo uma montanha de 351 milhões de exemplares, de acordo com a última pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Snel (Sindicato Nacional de Editores de Livros) – ele terá que vencer um percurso e tanto.
Desde o momento em que ainda não passa de uma simples – embora, muitas vezes, genial – idéia na cabeça do escritor até chegar às mãos do leitor – que, no fundo, no fundo é sua grande razão de ser! – ele vive uma verdadeira odisséia. Passa de mão em mão e muita gente dentro e fora das editoras, birôs, gráficas, distribuidoras e livrarias despende uma boa energia e muitas horas de trabalho intelectual e físico. Só então ele vai ganhar a forma final e convencional, impressa em papel – suporte mais usual e admirado por milhões de leitores no mundo todo e considerado a maior invenção do último milênio, e que continuará por muito tempo, apesar da chegada de novos e respeitáveis suportes, a servir como grande ponte entre autores e leitores.
Primeiro, como acontece com tudo, o livro é uma idéia. Que pode ou não vingar (muitos, ainda que brilhantes, jamais sairão em vida das gavetas de seus autores, algo que começa a mudar na era da internet e dos blogs). Não foi diferente com Vozes do Deserto, que viria a ser eleito, em 2005, Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano no Brasil e já vendeu, até aqui, 10 mil exemplares e foi traduzi em vários países. A história toda brotou na cabeça de Nélida muito tempo antes.
— Há algum tempo eu queria fazer um romance – ela lembra. E queria que esse romance tivesse como essência principal a arte da fabulação. Então, comecei a pensar no que eu desejava fazer. Me dei conta que o mais representativo da imaginação está no mundo, mas queria eleger uma geografia ao longo da história que ensejou o esplendor da imaginação. Pensei no Oriente Médio! Naquela região, surgiram três religiões, todas elas baseadas em um deus único e abstrato. Para mim, me pareceu que esse feito era uma prova excelente da imaginação humana. Após definir o cenário do romance, Nélida iniciou o processo de pesquisa. Ela já havia lido algumas obras sobre o tema, mas foi só em 1998 – ou seja, seis anos antes da obra chegar às livrarias – que ela pôde entregar-se de corpo e alma a ele. Foi a maior pesquisa que já fez para um único livro.
— Fiz pesquisas dos três mundos: árabe, judaico e cristão. Li histórias e poesia da região. Li o Alcorão três vezes. Municieime de um saber específico. Mesmo assim, não foi nada fácil, recorda ela, transpor anos e anos de estudo e pesquisa ao romance.
— Não tive problemas em acumular saberes – confessa, com naturalidade, a escritora. — Porém, foi difícil narrar tudo isso. Era preciso dissolver o conhecimento ao longo da história, para que ele não pesasse e não se tornasse um elemento erudito. Algo que vai contra a índole narrativa.
Vencida a primeira etapa, era chega a hora de, então, escrever o livro. Isso não demorou mais do que alguns meses para Nélida, uma autora experiente, que já publicou outras 15 obras em 35 anos de carreira. Mas foi, sem dúvida, um trabalho de ourives. Trancada na sua casa na Lagoa, no Rio, ela escreveu e reescreveu a mesma história nada menos do que sete vezes. Mas isso não incomoda Nélida, que já se habituou a fazer isso e diz que a prática já faz parte da sua vida.
— Por melhor que o texto seja – teoriza a escritora – ele pede que você o reconsidere. Vou refazendo, aumentando, cortando, dando ênfase a um determinado personagem.
Mais uma etapa está vencida. Agora, é hora do livro ir para a editora. Para os novatos, esta é a parte mais difícil da história. Alguns editores chegam a estimar que para cada livro que publicam outros 50 permanecem na fila e, muito provavelmente, jamais sairão de lá. Alguns porque perdem a vez; outros, sequer serão lidos – e, assim, obras mesmos geniais, como a história é pródiga em mostrar, acabam ficando para trás no meio do caminho.
No caso de autores que têm um nome conhecido ou mantém uma boa relação com uma editora – caso de Nélida Piñon, um dos nomes mais importantes no catálogo da editora carioca – isso tudo fica muito mais fácil. Ainda que, em função de fatores que podem ir desde um momento não oportuno para lançar determinados temas – porque não é hora ou porque ele já foi exageradamente tratado – até uma momentânea falta de recursos ou simples necessidade de mais tempo para planejar melhor o lançamento, não exista, nem nesses casos, certeza absoluta de publicação num prazo curto.
Nélida Piñon entregou os originais do seu livro nas mãos da gerente editorial da Record, Ana Paula Costa, no final de 2003. Ela gostou logo que leu as primeiras páginas do manuscrito. Consultou seus superiores e decidiu que iria, sim, publicá-lo. Por um ano inteiro, o texto passou por mãos e mesas de diversos profissionais dentro e fora da Record. Primeiro, foi para a revisão para uma primeira boa olhada em detalhes como a continuidade da história e checar datas e estilo. Em seguida, a prova foi parar outra vez nas mãos de Nélida, que cuidou de incorporar sugestões e dar mais uma olhada no manuscrito.
Mais tarde, ainda seriam feitas outras duas leituras, desta vez com maior preocupação com gramática e a ortografia. Em média, são feitas três revisões, contabiliza Ana Paula, que também dá a ordem para a expedição do número de identidade do futuro livro. É o International Standard Book Number, popularmente conhecido como o ISBN, uma espécie de RG da obra – ou passaporte, já que vale no mundo inteiro. Mas isso só depois que o contrato é assinado entre autor e editora. Vozes do Deserto, por exemplo, ganhou o enigmático ISBN 85-01-06922-1. Antes disso, lá mesmo na seção de catalogação do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, que funciona no 18º andar de um tradicional edifício no calçadão da Rua da Ajuda, no centro velho do Rio, já recebera outros dois carimbos ao ser catalogado na fonte dentro da categoria Romance Brasileiro: CDD 869.93 e o CDU 821.134.3 (81)-3.
Número para cá, burocracia para lá, o livro agora começava a ganhar rosto. A capista Evelyn Grumach, que assina boa parte das capas dos livros da Record, resolveu que usaria uma ilustração feita a bico de pena e uma arte bem limpa, dando mais destaque ao nome da autora. Encomendou o trabalho a Sarkis Katchadourian, que costuma prestar esse tipo de serviço terceirizado para a editora. Ao mesmo tempo, a designer Evelyn Grumach entrava em campo para desenhar no computador – afinal, hoje em dia, praticamente todo o processo é informatizado, bastante diferente do que acontecia alguns anos atrás – o projeto gráfico do livro. Pensou em tudo: nas fontes e nos tamanhos que usaria nos títulos e no próprio corpo do texto, onde colocaria a dedicatória que Nélida escreveu para a mãe, Carmen Piñon, na folha de rosto, na ficha técnica e na própria disposição das outras páginas, dividas em dezenas de capítulos. Acabou optando pela tipologia Caslon 540, no corpo 11/16. No caso de Vozes do Deserto – sim, seria este mesmo o título do livro, conforme pensou Nélida algum tempo antes – não haveria fotografias ou outras ilustrações no miolo – e isso facilita, claro, muito as coisas. Uma foto seria utilizada – da autora, feita pela fotógrafa Cristiana Isidoro – para ilustrar a quarta capa, em vez do tradicional texto de apresentação.
Não, o livro ainda não estava pronto. Só depois que a capa e miolo ficaram prontos, e foram devidamente aprovados pelos vários responsáveis por cada um dos responsáveis pelos processos, recebeu o sinal verde para mudar de fase. Entraria, finalmente, numa nova etapa: a impressão propriamente dita. Com textos e imagens mais uma vez revisados e aprovados, o projeto vai chegar ao Departamento de Produção Gráfica – no caso da Record, ela possui uma divisão própria com essa finalidade, o Sistema Poligráfico Cameron, inaugurado com 1989 e com capacidade para imprimir cem livros de 200 páginas por minuto.
Mas não dá conta de toda a demanda. Por isso, também imprime, como fazem praticamente todas as outras 500 editoras em atividade no País, parte dos seus títulos – algo como 560 por ano, fora as mais de 600 reedições – em gráficas terceirizadas. Na Record, quem faz a ligação entre a área editorial e a industrial e agora vai cuidar do livro de Nélida é o gerente de Produção, José Jardim.
Assim que chegou às suas mãos, José redistribuiu o trabalho entre duas equipes do departamento – uma passou a cuidar da capa e a outra da parte de dentro, o chamado miolo. Pela primeira vez, desde que chegou à editora, o futuro livro Vozes do Deserto começaria a tomar jeito e a ganhar forma – a mais próxima possível da que em breve seria nas prateleiras de qualquer uma das mais de 3.000 livrarias do espalhados pelo território nacional.
— Está pronto o boneco – anunciou, por fim, José Jardim.
Até ali as provas da capa vinham sendo feitas em impressoras a jato de tinta. Para não haver diferenças de tonalidade na hora da impressão definitiva, José pediu que fosse feita uma prova de cor da capa do que em pouco tempo viria a ser o 16º livro de Nélida. A editora Ana Paula e Evelyn, a designer, aprovaram. O arquivo estava pronto para ir para a gráfica. Mais uma etapa fora vencida.
Mas ainda havia chão pela frente. Depois de impressa, a capa, em geral, ainda recebe algum tipo de acabamento, que, muitas vezes, acontece fora da gráfica. A prática é comum, já que é preciso destacar o livro no ponto-de-venda num universo de milhares de outros lançamentos. José Jardim, enquanto confere o resultado obtido com o tom acinzentado aplicado à capa de Vozes do Deserto, dá uma aula sobre o assunto:
— A capa recebe uma camada de plástico que pode ser fosco ou brilhante. A tendência do mercado tem sido colocar um diferencial na capa, como uma película metálica no título, mais conhecida por hot stamping, ou aplicar verniz ou relevo.
Isso pode demorar entre dois e quatro dias, mas é um recurso cada vez mais utilizado e que acaba se tornando um diferencial importante. O objetivo, dizem os entendidos, é “enobrecer” a capa e, assim, fazer de tudo para chamar a atenção dos consumidores – afinal, dois em cada dez compradores levam isso em conta na hora de comprar. Finalizadas a capa e as matrizes de impressão, agora o processo é mais rápido. Um livro como o de Nélida – pouco mais de 300 páginas e tiragem de 3 mil exemplares na primeira edição – não leva mais do que três horas para ficar pronto, da impressão ao acabamento.
Em pouco tempo, os funcionários do Departamento de Produção Gráfica – que haviam cuidado da escolha e compra do papel e controlado orçamentos e todo o cronograma do projeto – começarão a dar ordens para acondicionar tudo em caixas de sete exemplares e mandar entregar no gigantesco depósito da editora, que ocupa uma área de 8 mil metros quadrados em Bonsucesso, no Rio. Agora, o quase livro vai ganhar a companhia de algumas centenas de milhares de exemplares de milhares de títulos – só uma pequena amostra do que o espera pela frente, no verdadeiro cipoal de obras, autores, editores, gêneros e temáticas com quem, em pouco tempo, terá que disputar, palmo a palmo, a prateleira das livrarias a preferência de Sua Excelência, o Leitor.
Dois meses antes, uma outra turma já havia entrado em ação. Ali mesmo em Bonsucesso, a gerente de Imprensa e Divulgação, Gabriela Máximo, começava a dar as cartas. Um dos jornalistas da sua equipe leu os originais, conversou com quem preparou os originais ou editou a obra, tomou um depoimento de Nélida e preparou a notícia – ou release, como se diz no jargão das redações – para ser enviada à imprensa. Os principais jornalistas de cultura do País vão receber, antes que o livro chegue às livrarias e a editora convide para um coquetel de lançamento e autógrafos, um exemplar do livro. Junto, seguirá o texto com todas as informações possíveis, desde o tema abordado e o que a autora tem a dizer sobre a obra até dados técnicos como formato, número de páginas e preço de capa. Se o livro não ficar pronto a tempo, o jeito será mandar só o miolo. Ou, então, as folhas impressas ainda soltas. Não pode é deixar de informar os jornalistas.
— As pessoas precisam saber que o livro existe e uma forma eficiente disso acontecer é sair na imprensa – pontifica Gabriela, que faz circular 55 releases todo mês sobre obras que chegarão ao mercado pela Record, BestSeller, BestBolso, Nova Era, Galera Record, Galerinha e Civilização Brasileira, os outros selos do grupo.
Um novo livro de Nélida Piñon é sempre notícia e a Record sabe muito bem disso. Dessa vez, com Vozes do Deserto, não foi diferente. Nesse caso, a editora também mandou publicar alguns anúncios em jornais para dar maior visibilidade ao lançamento e prestigiar a autora, uma das mais badaladas da casa. Bem longe dali, em outro canto do Brasil, numa pequena livraria do Nordeste, dois olhos atentos acompanham o noticiário dos jornais. E, assim, a idéia de convidar a escritora para aparecer e ser homenageada na edição seguinte da Bienal do Livro do Ceará – que naquele ano teria como tema justamente o mote As Mil e Uma Histórias – não tardou a bater na porta da organização.
A engrenagem que torna possível livros, autores e leitores se encontrarem em momentos de pura magia começava, enfim, a mover-se.
Enquanto tudo isso acontecia, um outro batalhão se preparava para entrar numa verdadeira guerra. A não muitos metros de distância de Ana Paula e José Jardim, era a vez de outro capitão da esquadra – que atende pelo nome de Ilson, sem o W, Pelegrineli – iniciar um novo embate. Para isso, já vinha anotando informações, números e maquinando suas próprias táticas. Afinal, Vozes do Deserto – que um dia fora uma idéia, depois um manuscrito, um original e, mais tarde, um projeto editorial e até um miolo composto de cadernos costurados entre si – agora já era um produto. E, como tal, requer planos de marketing, cronogramas, estratégias de distribuição e negócios, muitos negócios, que é para pagar o investimento inicial feito pela editora.
A área que Ilson comanda – a Gerência Comercial – tem acesso com antecedência ao cronograma de lançamentos da editora. Por isso, ele sabe, muito bem, exatamente quando cada um dos novos livros vai ficar pronto na gráfica – e daí até sua chegada aos pontos de venda não pode levar mais do que 15 dias. A distribuição começa, na verdade, uma semana antes da sua chegada aos pontos-de-venda e é feita de forma com que as livrarias recebam mais ou menos no mesmo dia. Mas essa pré-venda do livro começou mesmo um mês antes, colocando em campo algo em torno de 40 pessoas, com muita vontade de vender.
— Precisa captar o produto, informar o mercado sobre ele, distribuir, depois repor – Ilson dá a voz de comando.
Longe dali, Anastácio Bezerra Pontes se prepara para entrar no jogo. Há 23 anos no ramo e a milhares de quilômetros de distância, Anastácio tem pela frente a missão de fazer esses livros entrarem no Ceará. E ele não nega fogo: a cada fim de mês faz as contas e constata que 2 mil exemplares, em média, somados todos os títulos oferecidos pelo grupo onde trabalha desde 2004, quando deixou para trás 19 anos de Editora Vozes, conseguiram cumprir sua meta. Entre eles, está, claro, o mais recente lançamento de Nélida – hoje em dia as livrarias costumam encomendar só quatro ou cinco exemplares dos lançamentos que chamam a atenção e, se o livro tem saída, aí sim, reforçam o pedido.
Foi o que fez Mileide Flores, a dona da Livraria Feira do Livro, uma pequena e charmosa loja instalada no bairro do Montese, no rumo de Maranguape, a cinco quilômetros do centro de Fortaleza.
— O giro do livro é muito lento e ninguém mais faz como antigamente, quando, às vezes, pedia 20 exemplares de um lançamento – explica ela, da nova geração de uma família cearense que tem o negócio do livro no sangue. — O frete até aqui é muito caro, proporcionalmente há menos consumidores em potencial e não dá pra correr certos riscos.
Ela própria uma admiradora de Nélida Piñon, Mileide ficou com alguns exemplares do Vozes do Deserto, que o caminhão da Transportadora LDB levou longos oito dias para fazer chegar ao lá. Antes, precisou vencer todo tipo de obstáculo: buracos, curvas, tráfego lento, rodovias mal sinalizadas, hoteizinhos de beira de estrada sem muita higiene e, pior, o risco maior de acidentes e assaltos em certos trechos. Mas 2.805 quilômetros e quase 200 horas depois, a história imaginada em algum lugar do passado por Nélida Piñon estava lá, empacotada numa das 70 caixas que seriam, primeiro, descarregadas na Livraria Ao Livro Técnico, que distribui os livros do grupo editorial no estado.
Sã e salva, e agora à espera dos futuros leitores. Por uma obra do destino – mas, sobretudo, após horas e horas de inspiração, transpiração, dedicação, energia e um incalculável investimento pessoal de uma infindável legião defendida por mãos, cabeças e corações de homens e mulheres de diferentes credos, raças e sonhos nos mais diferentes pontos do País – esta admirável epopéia parece estar chegando ao fim. Logo o livro chegará às mãos de gente como a professora universitária Sarah Ipiranga, que lerá este e outras duas dezenas de obras ao longo do ano.
Mas, não. Na verdade, este é só o fim de um ciclo, ou de um dos capítulos desta, felizmente, interminável história. Esse mesmo livro ainda irá a feiras, saraus, bancas em universidades e, quem sabe, ainda não vai parar, depois de lido, em algum sebo, fazendo, assim, girar mais uma vez a roda da vida. E vai fazer começar tudo de novo. Com um pouco mais de sorte – já que uma parte ínfima da montanha de livros produzidos anualmente no Brasil, que faz dele o oitavo maior produtor do planeta, tem esse destino – talvez vá parar em alguma das 6 mil bibliotecas públicas espalhadas pelo território nacional.
Se isso acontecer – e ele, então, vier a ser lido e relido tantas e tantas vezes até gastar algumas de suas páginas e se esfarelar com o tempo, sonho de consumo maior de todo mundo que está por trás de cada um dos elos dessa admirável cadeia produtiva do livro – terá sido dado um novo empurrão na roda da história, esta mesma que, 500 anos depois da invenção do livro, continua a se ancorar nele para fazer o mundo mudar. Mas calma aí: ainda não é o fim da história! Ela recomeçará e ganhará vida nova ainda outras vezes. Em cada vez que qualquer indivíduo alfabetizado e apto a decodificar uma porção de sinais impressos e dar a eles algum sentido, abrir o livro – este ou qualquer um dos 200 mil disponíveis no catálogo nacional – e deixar se levar pelo encantamento e a magia das palavras lá contidas.
O passo a passo do livro em 10 pontos
1. O escritor tem a idéia, pesquisa e imagina uma forma de botar isso no papel ou no computador. Revisa algumas vezes e só quando está seguro quanto à qualidade do texto, manda o manuscrito para a editora.
2. Se a editora compra a idéia (o que não é tão fácil assim!), já é meio caminho andado. As chances de quem já tem livros publicados, um tato de leitores ou é famoso são bem maiores. Boa parte sequer chega às editoras. Uma outra parte jamais será lida e uma terceira será devolvida.
3. Se os originais são aceitos, logo vai ganhar um número de identidade internacional (o ISBN) e alguns outros com sua catalogação, de acordo com o gênero em que a futura obra foi enquadrada.
4. Logo vai virar projeto editorial e dar início a uma longa caminhada, começando por duas ou três revisões para ver estilo e continuidade. Ainda haverá mexidas do editor ou do preparador de originais e novos ajustes do autor. Só mais tarde voltará para as correções de gramática e ortografia.
5. O designer dirá como deve ser o livro: cores, tipologia, capa, número de páginas, papel e se terá fotografias ou alguma ilustração. Se a resposta for sim, começa aí um trabalhão daqueles.
6. Algum tempo depois ele começa, finalmente, a ganhar a feição mais parecida possível com a que terá em breve. É quando vira um boneco, após uma juntada da capa e do miolo pré-impressos.
7. A produção editorial e gráfica cuida dos prazos, cronograma e informações que serão fundamentais para decidir o preço que ele será vendido, quem deve comprá-lo e as estratégias a serem adotadas pelo marketing.
8. Enquanto o marketing prepara as notícias para a imprensa, distribui exemplares para jornalistas e, às vezes, cria anúncios, a área comercial, sabendo antes disso tudo, põe seu pessoal para fazer a pré-venda. Às vezes, isso pode aumentar tiragem (2 ou 3 mil exemplares na 1ª edição, dependendo do livro).
9. Quando está tudo certo, os arquivos são mandados, enfim, para a gráfica, na maioria dos casos terceirizada. Agora, já não demora tanto. Impressos e acabados, os exemplares são encaixotados e vão para o depósito.
10. Dali, se forem vendidos, são mandados para uma distribuidora ou direto para a livraria, para onde geralmente vão de caminhão (em alguns casos, de avião; em alguns locais, só de barco). Mas seu futuro ainda não está garantido: a maioria dos livros é vendida em consignação. Ou seja, se não tem saída, depois de algum tempo é devolvido e trocado por outro, que ocupará o seu lugar.
Acabou? Não! O mais importante ainda está por vir: é quando o livro é aberto pelo leitor em alguma parte do universo e tem seu conteúdo por ele devorado. Só aí ele passa a existir. (Agência Brasil Que Lê)




