18.5 C
Campinas
sábado, junho 20, 2026
spot_img

Mercadante: “Precisamos de uma frente ampla para enfrentar a crise e sustentar a democracia”

Data:

À frente da Fundação Perseu Abramo, o economista Aloizio Mercadante prega o diálogo para proteger a população na crise. “Estamos abertos a dialogar com quem tiver interesse, na academia e fundações partidárias, para buscar respostas”, disse em entrevista ao “Valor Econômico”

O presidente da Fundação Perseu Abramo (FPA), Aloizio Mercadante, avalia que o Brasil encontra-se em um momento de fragilidade inédita, enfrentando quatro crises que se retroalimentam: a da saúde pública, a econômica, a financeira (que virá a seguir) e a política. Para ele, o principal vetor é a instabilidade constante provocada por Bolsonaro, “um presidente com comportamento insano”, para quem fez uma rima: “O terraplanista sanitário cada vez mais solitário”. O economista, ex-ministro da Educação e da Casa Civil no governo Dilma Rousseff, disse ao “Valor Econômico” que o país precisa de uma frente ampla para superar a crise política, econômica e agora de saúde pública.

Mercadante ressalva que a preocupação com a falta de comando nacional impera no Congresso. Embora evite falar sobre um eventual impeachment, admite não saber como as instituições vão equacionar o fator Bolsonaro. “A precariedade deste governo está ficando absolutamente transparente. E não é só a oposição e a esquerda que reconhecem isso. Há setores liberais indignados com essas atitudes do presidente”, aponta.

“Uma coisa que aprendi na vida pública é que quando você cai num buraco, a primeira coisa que tem que fazer é largar a pá e parar de cavar. A sensação que eu tenho, do Bolsonaro, é que ele largou a pá e pegou uma retroescavadeira”, disse ao “Valor”.

Mercadante avalia positivamente o diálogo entre partidos de esquerda e de centro e da oposição com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), na formulação de ações como o seguro de R$ 600 para os trabalhadores informais e a distribuição de alimentos da merenda escolar a quase 39 milhões de crianças e adolescentes da rede pública de ensino, aprovadas pelos parlamentares.

Em tom moderado, ressalta a necessidade de se manter o diálogo em curso com “liberais e conservadores” para enfrentar a Covid-19, e afirma que a paternidade de projetos, nesta crise, é algo irrelevante, pois as construções precisam ser coletivas, algo que o governo federal parece não assimilar.

“Estamos abertos a dialogar com quem tiver interesse, na academia e fundações partidárias, para buscar respostas. No fundo, é o seguinte: precisamos de uma frente ampla para enfrentar essa crise e sustentar a democracia no Brasil. E precisamos de uma frente de esquerda para mobilizar e defender os setores populares, os direitos, e pensar eleitoralmente o futuro. São níveis de articulação que precisam se complementar”, afirma.

Muitas das propostas de políticas públicas para o enfrentamento da pandemia e suas consequências brotaram da FPA, criada pelo PT em 1996 para pesquisa e formação política, e que no momento se dedica integralmente à formulação de políticas públicas e saídas para a crise do coronavírus.

O foco da FPA, que Mercadante comandará por quatro anos, é discutir saídas emergenciais para a crise médica e, depois, propor alternativas de recuperação econômica. “Estamos estudando 24 horas por dia, fazendo videoconferências, e oferecendo alternativas ao país. Não é simplesmente ficar fazendo discurso e disputa política. A disputa política sempre vai existir, mas neste momento o que está em jogo é a vida e sobrevivência das pessoas, de empresas e de instituições”, avalia.

O PT oferece auxílio de seu corpo técnico inclusive para debater saídas com o atual governo, diz o economista, para quem os caminhos para mitigar os efeitos da catástrofe mundial provocada pelo coronavírus são claros e evocam os períodos após as duas grandes crises do Século 20: o “Crash” da Bolsa em 1929 e a Segunda Guerra Mundial. “É New Deal agora e, na saída [quando se iniciar o processo de recuperação econômica], Plano Marshall”, apregoa.

Após o golpe contra Dilma Rousseff, a Fundação Perseu Abramo criou Núcleos de Acompanhamento de Políticas Públicas (Napps) para cada área de governo. O mais recente é o Observatório da Coronacrise, destinado a elaborar propostas alternativas de políticas públicas a partir do estudo da experiência internacional e de boas práticas que estão sendo feitas por secretarias estaduais.

Os dois núcleos com maior demanda atual são os de saúde e economia. No Napps de economia, mais de 50 profissionais se reúnem diariamente para debater medidas aplicáveis e necessárias ao Brasil hoje. Além do auxílio emergencial aos informais e mais vulneráveis e à distribuição da merenda escolar mesmo aos que estão sem aulas, há outros dois eixos de ação defendidos pela FPA.

Um deles é a criação de uma política agressiva de capital de giro, de R$ 300 bilhões, coordenada pelo Banco Central, aos setores econômicos impactados pela quarentena, com carência de 24 meses, 60 meses para pagar e juros da Selic mais 0,5% de taxa de administração. A outra frente é o programa “Ninguém demite ninguém”, em que o Estado complementa os salários dos trabalhadores, para evitar demissões em massa. O custo mensal do programa seria de R$ 34 bilhões.

Mercadante passou os últimos 26 de seus 66 anos acompanhando a realidade social das favelas de Heliópolis, em São Paulo. Ele vê com apreensão o calendário apresentado pelo ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, que prevê o pagamento aos trabalhadores informais e vulneráveis somente a partir de 16 de abril, e oferece ajuda para acelerar o processo: “Estamos totalmente disponíveis para ajudar nisso, na parte técnica. Nossa responsabilidade é essa, solidariedade, e salvar vidas. Precisa fazer online, com agilidade, na ponta”, ressalta.

Mercadante explica que a maioria das pessoas tem WhatsApp nas periferias, e um comunicado geral sobre cadastro pode ser distribuído rapidamente pelo governo.  Além do Cadastro Único e dos dados do Bolsa Família, o governo tem como fazer um rápido cruzamento de dados do Relatório Anual de Informações Sociais (Rais) com cadastros de MEI, checando o volume de trabalhadores informais e autônomos, ensina Mercadante, que foi deputado federal por dois mandatos, senador da República e ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Casa Civil e da Educação durante os governos Dilma Rousseff.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe esse Artigo:

spot_img

Últimas Notícias

Artigos Relacionados
Relacionados

Planalto comemora avanço de Lula nas pesquisas, mas adota discurso de cautela para 2026

Aliados avaliam que crescimento do presidente nas intenções de...

Pesquisa Apex/Futura mostra Lula à frente de Flávio Bolsonaro em cenários de primeiro e segundo turno

Levantamento nacional aponta melhora na avaliação do governo federal...

Flávio Bolsonaro não emplaca no Nordeste, onde o presidente Lula foi vitorioso em vários estados. na eleição de 2022

Especialistas apontam que acordos regionais, mas não garantem engajamento...

Lula participa da Cúpula do G7 na França em meio a tensões comerciais com EUA e União Europeia

Presidente brasileiro chega ao encontro das maiores economias industrializadas...
Jornal Local
Política de Privacidade

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) já está em vigor no Brasil. Além de definir regras e deveres para quem usa dados pessoais, a LGPD também provê novos direitos para você, titular de dados pessoais.

O Blog Jornalocal tem o compromisso com a transparência, a privacidade e a segurança dos dados de seus clientes durante todo o processo de interação com nosso site.

Os dados cadastrais dos clientes não são divulgados para terceiros, exceto quando necessários para o processo de entrega, para cobrança ou participação em promoções solicitadas pelos clientes. Seus dados pessoais são peça fundamental para que o pedido chegue em segurança na sua casa, de acordo com o prazo de entrega estipulado.

O Blog Jornalocal usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Confira nossa política de privacidade: https://jornalocal.com.br/termos/#privacidade