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terça-feira, fevereiro 24, 2026
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O mercado de livros porta a porta continua faturando

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A estudante Kelly Cristina Pereira de Oliveira Lissoni conheceu o vendedor Ivan Netzker Gama no ano passado, quando ele bateu à porta de sua casa, em Campinas, interior de São Paulo. Depois de ouvir o homem dizer que vendia livros, a menina, de dez anos, insistiu para que a mãe o deixasse entrar. Naquele dia, Kelly falou a ele sobre a sua paixão pela leitura. Lembrou dos livros que já havia lido, dos que tinha vontade de ler, da sua dificuldade em encontrar obras em braille e também dos altos custos cobrados por livros nesse formato. Deficiente visual, Kelly fez Gama prometer que, quando voltasse, traria uma bíblia em Braille para lhe vender. Mas a menina não precisou pagar pelo livro. Alguns meses depois, em São Paulo, ela recebeu o Gênesis e os Salmos da Bíblia no formato braille e o Novo Testamento em MP3 das mãos do mesmo vendedor. Dali em diante, a cada três meses, ela receberia, em casa, um novo livro até completar os 38 volumes das escrituras sagradas. O presente, oferecido pela Sociedade Bíblica do Brasil, foi entregue no evento em comemoração aos 21 anos da Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), entidade que congrega o setor porta a porta que vende e divulga livros em domicílio.

A exemplo de Kelly, autora da redação que conta a história da visita inesperada, e uma das vencedoras do concurso “O amigo do meu melhor amigo”, organizado pela entidade, a maior parte dos brasileiros não imagina que ainda exista uma legião de caixeiros-viajantes vendendo livros de porta em porta pelo Brasil adentro. Nas pequenas cidades, principalmente nas regiões mais carentes do País, onde não existem livrarias ou bibliotecas, esse tipo de venda tem papel ainda mais relevante no acesso das pessoas aos livros. De acordo com a Pesquisa do Setor Porta a Porta, divulgada em novembro do ano passado, em 2007, o setor faturou, por meio dos associados da entidade, R$ 650 milhões.

Com base em informação de que, do setor porta a porta, 70% são associados da ABDL, a entidade estimou, partindo da premissa de que os não-associados têm perfil similar aos associados, um faturamento global de R$ 930 milhões no ano passado. O setor vendeu, no período, cerca de 65 milhões de livros. Estima-se que o porta a porta tenha mobilizado, em 2007, quase três mil pessoas, exceto no ramo de vendas. É que um mesmo vendedor de livros pode ter mais de um fornecedor, inclusive de diferentes ramos. Portanto, de acordo com a ABDL, não faz sentido somar as quantidades de vendedores por conta da superposição. Separadamente, o levantamento mostrou que os editores do segmento contam com 1.292 vendedores empregados, os atacadistas com 2.738 e os crediaristas com 5.476.

Ivan Netzker Gama, responsável por visitar a garota Kelly, é um desses vendedores. Morador em Mauá, na região metropolitana de São Paulo, ele inicia sua jornada na venda de livros porta a porta todos os dias às oito da manhã, quando se reúne com outros vendedores na sede da Espaço Editorial. O trabalho só vai terminar cerca de 12 horas mais tarde, quando ele já terá visitado cerca de 20 casas. Gama começou a trabalhar no ramo há 22 anos, por indicação da mulher, que viu o anúncio de uma vaga no jornal. No primeiro dia, não gostou do trabalho. Chegou a pedir para deixar o cargo, mas por insistência do gerente, foi ficando. Anos depois, a editora fechou as portas e ele chegou a se aventurar em um negócio próprio, no mesmo ramo, antes de entrar para a Espaço Editorial, onde trabalha há nove anos. “Eu não gostava de livros e ainda não gosto muito de ler, mas aos poucos foi despertando o interesse. A gente precisa ler para poder mostrar para os clientes que conhece o produto”, explica o vendedor, que estudou até o Ensino Médio.

Com vendedores trabalhando para diferentes fornecedores, há diversas formas de atuação no segmento porta a porta. Muitos profissionais trabalham por conta própria e organizam suas agendas de visitas. Na empresa onde Gama trabalha, há diversas equipes atuando juntas. Para cada uma delas, um supervisor fica responsável por acompanhar cada grupo de vendedores, que visita casas em diferentes cidades da Grande São Paulo e até no interior do estado. Apesar dos tempos de violência e insegurança, Gama diz que é sempre muito bem recebido por onde passa oferecendo livros. “O que mais marca nesse trabalho são as amizades que nós fazemos. Eu sempre tento uma aproximação com o cliente em vez de só bater na casa dele. Tem gente que me convida para almoçar e até liga depois convidado para festas e casamentos”, conta.

De acordo com o presidente da ABDL, Luís Antonio Torelli, o segmento do livro porta a porta é fundamental para o fomento à leitura no Brasil. “Nada foi descoberto que substitua esses homens e mulheres que atravessam o País divulgando o hábito de ler”, afirma. O presidente diz que os resultados da Pesquisa do Setor Porta a Porta já permitem à entidade traçar planos estratégicos para o setor quanto à sua eficiência e lucratividade. De acordo com Torelli, a ABDL está desenvolvendo, juntamente com o Ministério do Trabalho e Emprego, um programa para formar vendedores de livros porta a porta. Além de preparar novos profissionais para a atividade, o programa vai capacitar vendedores que já atuam no setor.

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