Nova ofensiva energética de Trump faz preços dispararem, reduz transporte e deixa capital sob apagões imprevisíveis de 12 horas

O endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos desde o final de janeiro mergulhou Cuba naquela que já é considerada a crise mais severa de sua história recente. Em Havana e no interior da ilha, os quase 11 milhões de habitantes enfrentam um cenário de “estrangulamento” econômico, marcado por apagões que superam 12 horas diárias, inflação galopante de itens básicos como arroz e óleo, e uma redução drástica nos serviços públicos e na oferta da cesta básica alimentar subsidiada.
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A ofensiva de Washington, que classifica o país como uma “ameaça extraordinária” devido a alianças com Rússia e China, atinge diretamente o cotidiano de famílias que hoje priorizam a busca imediata por alimento em meio à escassez crítica de combustível.
A rotina na capital cubana perdeu totalmente a previsibilidade. Se antes os cortes de energia eram programados em turnos de cinco horas, hoje moradores relatam que é impossível saber quando a luz retornará. O impacto é sistêmico: sem eletricidade, as bombas de água param de funcionar, caixas eletrônicos ficam inoperantes e cartórios interrompem os serviços legais.
No interior do país, a situação é ainda mais dramática, obrigando famílias a comprarem apenas o que será consumido no momento para evitar que a comida estrague. O setor de transportes opera com menos da metade da capacidade, com linhas de ônibus nacionais reduzidas a apenas duas viagens semanais e trens circulando a cada oito dias.
Especialistas e moradores locais traçam um paralelo sombrio com o “período especial” da década de 1990. Para o economista Feliz Jorge Thompson Brown, de 71 anos, o momento atual é mais cruel e desafiador do que o enfrentado após a queda da União Soviética, tanto material quanto espiritualmente. Ele observa que o Estado hoje carece de meios para manter a distribuição integral de alimentos e medicamentos gratuitos que sustentou a ilha por décadas.
O setor da saúde também sente o golpe; com a dificuldade extrema de locomoção dos profissionais e a falta de insumos, muitas consultas foram canceladas e apenas atendimentos de emergência têm sido priorizados.
Apesar do cenário de asfixia econômica, o setor educacional e cultural resiste como um dos últimos pilares de normalidade. Escolas de ensino fundamental mantêm as atividades por estarem localizadas estrategicamente próximas às residências dos alunos, e centros culturais estatais continuam oferecendo aulas de música e artes gratuitamente para crianças, como ocorre com o jovem Robin, de 9 anos, em Havana.
Para os moradores ouvidos pela apuração, a estratégia de “mudança de regime” pretendida pela Casa Branca parece surtir um efeito colateral de sobrevivência: em vez de mobilização política, a insatisfação tem se convertido no desejo de emigrar ou no esforço exaustivo de garantir a próxima refeição.




