Depoimento à Polícia Federal coloca governador do DF no centro das articulações da tentativa de venda do banco ao BRB
O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou à Polícia Federal que manteve conversas diretas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a tentativa de venda do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB), operação bilionária barrada pelo Banco Central e hoje sob investigação no Supremo Tribunal Federal. O depoimento, prestado em dezembro, marca a primeira menção direta a um agente político de alto escalão no inquérito que apura suspeitas de crimes financeiros envolvendo o negócio.
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Segundo o relato, Vorcaro disse ter tratado do tema “algumas vezes” com Ibaneis em encontros institucionais e confirmou que o governador já esteve pessoalmente em sua residência, assim como ele próprio visitou a casa do chefe do Executivo do DF. O banqueiro não detalhou o conteúdo das conversas, mas confirmou que a proposta de aquisição esteve em pauta. Procurado, Ibaneis negou ter discutido o assunto e afirmou que esteve apenas uma vez na casa do empresário, em um almoço informal.

Bastidores do poder e rastreamento financeiro
A tentativa de venda do Banco Master ao BRB foi anunciada em março do ano passado como uma operação estratégica para ampliar a atuação do banco estatal do DF. À época, o governo local estimava que a transação poderia elevar a distribuição anual de dividendos para cerca de R$ 1 bilhão. O tom era de celebração. Nos meses seguintes, porém, o discurso oficial passou a oscilar conforme cresciam os questionamentos técnicos e jurídicos sobre o negócio.
A operação avançou inicialmente sem autorização da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o que levou a uma intervenção judicial exigindo aval dos deputados. Em setembro, o Banco Central vetou a compra. Pouco depois, vieram à tona indícios de que o Master teria repassado ao BRB carteiras de crédito consideradas inexistentes ou de alto risco, em um volume estimado em R$ 12,2 bilhões.
O impacto financeiro para o banco público é estimado em cerca de R$ 4 bilhões. Após a liquidação do Master, o governo do DF passou a estudar aportes para cobrir prejuízos e evitar um abalo maior na instituição. Nesse contexto, houve mudança na presidência do BRB, atribuída oficialmente à necessidade de apuração rigorosa dos fatos.
Depoimentos colhidos no inquérito indicam que o governador foi informado sobre o andamento das operações entre o BRB e o Master. Ao longo do ano, declarações públicas de Ibaneis e da vice-governadora Celina Leão passaram de entusiasmo a cautela, acompanhando o agravamento da crise e o avanço das investigações.
O caso expõe uma rede de relações entre o sistema financeiro e o núcleo político do Distrito Federal, levantando dúvidas sobre o grau de conhecimento e participação das autoridades nas decisões que antecederam a tentativa de compra. Embora Ibaneis não figure formalmente como investigado, sua citação direta no inquérito amplia a pressão por esclarecimentos e coloca o episódio no radar do debate político nacional.
Com o processo sob análise do Supremo e investigações em curso na Polícia Federal e no Ministério Público, o desfecho do caso pode ter desdobramentos que vão além do sistema financeiro, atingindo diretamente o coração do poder no Distrito Federal.




