Mendonça abre crise no STF, mas caso também atinge Flávio: Novos valores repassados por Vorcaro abrem outra frente de investigação

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Há ainda uma negociação de R$ 134 milhões, referente ao acordo financeiro mais amplo para a produção do filme. Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF)

Relatório teria identificado mais US$ 1,6 milhão, aproximadamente R$ 8,5 milhões, transferidos em setembro de 2025, depois do período que Flávio havia indicado como limite dos pagamentos. Mendonça precisa ser afastado das investigações do caso Master para evitar crise no STF.

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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (1º) a retirada do sigilo de documentos da investigação sobre o Banco Master que reúne mensagens, registros e outros elementos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro e que apontam para uma relação próxima entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. A divulgação dos documentos abriu uma nova frente de crise dentro do Supremo e colocou sob escrutínio não apenas a conduta de Moraes, mas também a forma como Mendonça, relator do caso, conduz a investigação.

Outro elemento revelado pelas mensagens é a tentativa de Vorcaro de utilizar sua proximidade com autoridades para obter informações ou interferir no andamento das investigações que poderiam atingir seus interesses. Relatórios da PF apontam mensagens nas quais o banqueiro teria pedido a Moraes que atuasse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. As mensagens, segundo a investigação, também fazem referência a informações sobre a Operação Compliance Zero.

A maneira como essas mensagens foram recuperadas também se tornou parte relevante da apuração. Segundo a PF, Vorcaro utilizava um método que dificultava a recuperação das conversas: escrevia textos em bloco de notas, fazia capturas de tela e enviava as imagens pelo WhatsApp utilizando o recurso de visualização única. A perícia realizada no aparelho apreendido durante a prisão do banqueiro identificou registros de arquivos, PDFs temporários, histórico de utilização e milhares de logs que permitiram reconstruir a sequência das comunicações.

Até que ponto o conteúdo recuperado pode ser considerado íntegro, completo e contextualizado?

Até o momento, não há evidência pública que permita afirmar que as mensagens tenham sido “plantadas” pela Polícia Federal. A própria PF apresentou uma metodologia de recuperação dos dados, que deverá ser submetida ao contraditório e à análise das defesas.

A controvérsia, entretanto, não termina na autenticidade do material. A condução do inquérito por Mendonça provocou tensão entre o ministro e integrantes da Polícia Federal. O ministro determinou novas providências envolvendo menções a Moraes, Andrei Rodrigues e Paulo Gonet, enquanto a PGR também foi chamada a se manifestar sobre o conteúdo.

Reportagens publicadas nesta terça-feira também apontaram que Mendonça teria encaminhado pessoalmente um despacho impresso à Polícia Federal, fora do procedimento eletrônico habitual, episódio que aumentou as dúvidas sobre o relacionamento entre o gabinete do ministro, a PF e a PGR. O episódio ainda precisa ser confrontado com os documentos oficiais do processo e com a manifestação do próprio gabinete de Mendonça.

A questão da suspeição

A situação ganhou ainda mais relevância porque o próprio histórico do caso Banco Master mostra que a discussão sobre eventual impedimento ou suspeição de ministros não é nova. Dias Toffoli, que inicialmente relatava o caso, deixou a relatoria em fevereiro de 2026 depois que vieram a público informações sobre relações financeiras envolvendo uma empresa de sua família e fundos relacionados a Vorcaro. O STF havia declarado anteriormente não existir suspeição ou impedimento, mas Toffoli posteriormente deixou a relatoria.

A comparação com Mendonça, a pergunta que precisa ser respondida é objetiva: se a existência de relações ou circunstâncias envolvendo Toffoli justificou a transferência da relatoria, quais critérios jurídicos devem ser aplicados quando surgem elementos envolvendo outros integrantes da própria Corte? A resposta não pode ser política. Precisa estar nos códigos, no Regimento Interno do STF e nos precedentes do próprio tribunal.

Mendonça e Flávio Bolsonaro

Outro ponto que merece acompanhamento é a situação do senador Flávio Bolsonaro (PL) dentro do próprio caso Banco Master. Em julho, Mendonça autorizou a abertura de investigação relacionada a repasses destinados ao filme “Dark Horse”, projeto relacionado à imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A decisão ocorreu após manifestação da PGR no sentido de que havia elementos suficientes para a abertura formal do inquérito.

A hipótese política

A divulgação das mensagens acontece em um momento particularmente delicado, porque Alexandre de Moraes foi o relator dos processos relacionados à tentativa de golpe de Estado e à responsabilização de Jair Bolsonaro. Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos de prisão no processo relacionado à trama golpista, e sua defesa continua utilizando os instrumentos processuais disponíveis para tentar modificar os efeitos da condenação.

Politicamente, portanto, qualquer crise que comprometa a credibilidade de Moraes poderá produzir consequências que ultrapassam o próprio Banco Master.

É possível formular uma hipótese política: caso a validade das decisões de Moraes venha a ser questionada em razão de eventual suspeição, impedimento ou irregularidade processual comprovada, as defesas de investigados e condenados poderão tentar utilizar esses fatos para pedir a revisão de decisões anteriores.

O que precisa ser investigado agora

O episódio abre uma série de perguntas que podem definir os próximos capítulos da crise:

  1. Quem autorizou e supervisionou a extração dos dados do celular de Vorcaro?
  2. Qual foi a cadeia de custódia do aparelho desde a apreensão até a elaboração dos relatórios?
  3. Os arquivos originais e os metadados estão disponíveis integralmente para as defesas?
  4. Existem mensagens anteriores ou posteriores às divulgadas que mudem o contexto das conversas?
  5. Quem identificou os contatos entre Vorcaro e Moraes?
  6. Houve alguma determinação de Moraes em processos envolvendo diretamente o Banco Master depois dos contatos com Vorcaro?
  7. Houve alguma decisão judicial que tenha beneficiado direta ou indiretamente o Banco Master ou Vorcaro?
  8. Qual foi exatamente a participação de Fábio Faria (PP) na aproximação entre Vorcaro e Moraes?
  9. A investigação envolvendo Flávio Bolsonaro avançou depois da abertura autorizada por Mendonça e quais diligências foram efetivamente realizadas?
  10. Por que Mendonça determinou determinadas providências diretamente à PF e qual foi a participação da PGR?
  11. O plenário do STF deverá decidir se a investigação envolvendo integrantes da própria Corte pode prosseguir na forma atualmente conduzida?

A crise do Banco Master, portanto, deixou de ser apenas uma investigação sobre um banco e seus negócios. Ela passou a testar os limites entre Judiciário, Polícia Federal, Ministério Público, interesses econômicos e poder político em um ano eleitoral. E quanto mais autoridades aparecem nos documentos, maior precisa ser o rigor na apuração. Afinal, quando o assunto é a credibilidade da Justiça, a prova precisa falar mais alto que a narrativa.

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