Mensagens revelam encontro de ex-assessora de Carlos Bolsonaro com investigados antes de depoimentos sobre rachadinha

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Já a investigação sobre Carlos Bolsonaro teve trajetória própria. O MP-RJ abriu o procedimento em 2019 depois de reportagens apontarem indícios de que parte dos salários pagos a assessores poderia retornar ao grupo político, prática conhecida como rachadinha. Foito duvulgação redes sociais

Conversas obtidas pelo ICL Notícias indicam que Luciana Almeida, ex-assessora de Carlos Bolsonaro, marcou encontro com integrantes da família Hudson poucos dias antes de eles prestarem depoimento ao Ministério Público do Rio

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Mensagens atribuídas à ex-assessora de Carlos Bolsonaro (PL-RJ) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro mostram que Luciana Paula Garcia da Silva Almeida marcou um encontro com integrantes da família Hudson em um escritório de advocacia poucos dias antes de três deles prestarem depoimento ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) em uma investigação sobre suspeitas de rachadinha e funcionários que teriam recebido salários públicos sem exercer efetivamente as funções para as quais foram nomeados.

A conversa ocorreu em novembro de 2019, quando o MP-RJ investigava possíveis irregularidades no gabinete de Carlos Bolsonaro. Segundo o material divulgado pelo ICL Notícias, em 4 de novembro daquele ano Luciana encaminhou a Guilherme Hudson um endereço no Centro do Rio e informou que “estaremos lá”. No dia seguinte, após uma tentativa de contato telefônico, Hudson enviou à ex-assessora cópias das requisições do Ministério Público para os depoimentos de seu filho, Guilherme de Siqueira Hudson, e das noras Ananda Hudson e Monique Hudson.

Os três haviam sido chamados pelos promotores para explicar sua atuação como assessores parlamentares. A investigação questionava se eles efetivamente trabalhavam no gabinete de Carlos Bolsonaro ou se integravam uma estrutura de funcionários que recebiam remuneração pública sem cumprir as atribuições dos cargos.

O endereço compartilhado por Luciana correspondia ao escritório do advogado Jefferson Gomes, que posteriormente confirmou ter atendido os três investigados. Em manifestação ao ICL Notícias, Gomes afirmou que prestou serviços jurídicos ao filho e às noras de Hudson durante a investigação, mas disse desconhecer as mensagens mencionadas e afirmou que não poderia fornecer informações sobre o conteúdo de sua atuação profissional em razão do sigilo entre advogado e cliente.

O encontro, por si só, não comprova que tenha havido combinação de versões ou interferência nos depoimentos prestados ao Ministério Público. A sequência temporal, entretanto, é um elemento que pode ser analisado pelos investigadores para determinar qual foi o objetivo da reunião e se houve orientação conjunta antes dos interrogatórios.

A família Hudson já estava no radar das autoridades antes desses episódios. Guilherme de Siqueira Hudson, filho do coronel reformado Guilherme dos Santos Hudson, ocupou durante anos o cargo de chefe de gabinete de Carlos Bolsonaro. Segundo informações reunidas na investigação, ele permaneceu nomeado entre 2008 e 2018 e recebeu, em valores atualizados, aproximadamente R$ 2,3 milhões durante o período.

Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores foi a ausência de registros compatíveis com a rotina esperada de um chefe de gabinete na Câmara. Segundo o material divulgado, Hudson não possuía sequer crachá funcional e mantinha residência em Resende, no interior do Rio de Janeiro, cidade onde também mantinha atividade profissional como advogado.

Ananda Hudson, mulher de Guilherme, também trabalhou no gabinete de Carlos Bolsonaro. Ela foi nomeada em 2009 e permaneceu no cargo até 2010. Durante parte desse período, frequentava um curso superior em Resende.

Monique Hudson, por sua vez, permaneceu vinculada ao gabinete até 2014. Também tinha residência em Resende e cursava Letras na mesma instituição frequentada por Ananda. Relatos de colegas de faculdade reunidos anteriormente por jornalistas indicaram que Monique tinha presença regular nas aulas e não era conhecida naquele ambiente como funcionária da Câmara do Rio.

Uma investigação que atravessou diferentes gabinetes da família Bolsonaro

O caso da família Hudson não se limita à investigação envolvendo Carlos Bolsonaro. O coronel Guilherme dos Santos Hudson também apareceu em uma apuração relacionada ao gabinete de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. Naquele procedimento, o nome do coronel surgiu em investigação sobre suspeitas de peculato e lavagem de dinheiro a partir de informações produzidas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A apuração, contudo, sofreu mudanças depois que o Superior Tribunal de Justiça anulou provas obtidas por meio de quebras de sigilo. O procedimento envolvendo Hudson acabou arquivado naquele contexto.

Já a investigação sobre Carlos Bolsonaro teve trajetória própria. O MP-RJ abriu o procedimento em 2019 depois de reportagens apontarem indícios de que parte dos salários pagos a assessores poderia retornar ao grupo político, prática conhecida como rachadinha. Em 2024, o Ministério Público apresentou denúncia contra o então chefe de gabinete de Carlos e outros seis assessores. A ação penal avançou posteriormente, enquanto o caso específico envolvendo os integrantes da família Hudson seguiu outro caminho processual.

A investigação contra Carlos Bolsonaro chegou a ficar paralisada por quase dois anos, mas foi retomada em 2026. O procedimento permanece sob sigilo.

Ex-assessora também apareceu em investigação da Polícia Federal

Luciana Almeida também aparece em outro episódio relacionado ao entorno político da família Bolsonaro. Segundo documentos mencionados pelo ICL Notícias, ela teria procurado Alexandre Ramagem, então diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em busca de informações relacionadas a investigações envolvendo Jair Bolsonaro e seus filhos no final de 2022.

A conexão ganha relevância porque coloca a ex-assessora em diferentes episódios nos quais integrantes do círculo político da família Bolsonaro buscavam informações ou mantinham contatos durante períodos de forte pressão investigativa.

Isso não significa, porém, que as duas situações tenham necessariamente relação entre si. A existência de contatos ou reuniões não é suficiente para estabelecer uma atuação coordenada ou ilícita. Para isso, seriam necessários elementos adicionais que demonstrem finalidade, conteúdo e eventual consequência desses encontros.

O que as mensagens podem esclarecer

A principal questão investigativa agora é determinar o motivo da reunião marcada por Luciana com os integrantes da família Hudson antes dos depoimentos ao MP-RJ. Há uma diferença importante entre reunir-se com um advogado para receber orientação jurídica, o que é legítimo, e eventualmente combinar versões ou interferir na produção de provas, hipótese que dependeria de evidências específicas. O próprio advogado Jefferson Gomes confirmou que atendeu os três investigados em seu escritório durante o curso da investigação. Ele, contudo, negou conhecimento das mensagens divulgadas.

Outro ponto que poderá ser esclarecido é se a reunião envolveu apenas os investigados e sua defesa ou se houve participação de pessoas ligadas ao gabinete de Carlos Bolsonaro. Essa informação pode ser relevante para reconstruir a cronologia da preparação dos depoimentos. Em julho de 2026, em uma ação na área cível, o Ministério Público do Rio pediu que sete ex-assessores de Carlos Bolsonaro devolvessem cerca de R$ 1,9 milhão aos cofres públicos, valor que a Promotoria atribui a supostos desvios relacionados ao funcionamento do gabinete.

A investigação, portanto, permanece aberta e envolve diferentes frentes. As novas mensagens acrescentam um elemento cronológico à apuração, mas não permitem, isoladamente, concluir que houve combinação de depoimentos ou qualquer crime.

O que está documentado é que uma ex-assessora de Carlos Bolsonaro manteve contato com integrantes da família Hudson e marcou um encontro em escritório de advocacia uma semana antes dos depoimentos ao Ministério Público. A partir desse fato, cabe às autoridades verificar quem participou da reunião, qual foi seu conteúdo e se houve alguma orientação que ultrapassasse os limites da assistência jurídica.

Até que esses pontos sejam esclarecidos, eventuais responsabilidades individuais continuam dependendo da investigação e das provas produzidas no processo.

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