Por diferença de 408.570 votos, capital vota em Haddad, mas interior define reeleição de Tarcísio em São Paulo

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Mais do que uma disputa entre dois candidatos, o mapa eleitoral de São Paulo revelou dois comportamentos territoriais distintos. Foto Montagem JL

Fernando Haddad encostou na capital paulista, mas a vantagem obtida por Tarcísio de Freitas no restante do Estado compensou a diferença registrada na maior cidade brasileira; resultado expõe a divisão territorial do eleitorado paulista

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

A reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo de São Paulo no primeiro turno deste domingo (4) foi marcada por uma divisão territorial clara: Fernando Haddad (PT) encostou na capital paulista, com uma diferença de 408.570 votos, mas Tarcísio construiu no conjunto dos demais municípios uma votação suficiente para superar a vantagem obtida pelo adversário na cidade de São Paulo. Com 100% das urnas apuradas, Tarcísio recebeu 14.491.874 votos, equivalentes a 62,65% dos votos válidos, enquanto Haddad somou 8.423.656 votos, ou 36,42%.

A capital concentrou 9.135.407 eleitores aptos a votar, 26,7% de todo o eleitorado paulista. Mesmo com esse peso, a votação da cidade não foi suficiente para alterar o resultado estadual. A diferença registrada na capital entre Haddad e Tarcísio foi de 408.570 votos, segundo a totalização utilizada nesta análise. O resultado mostra que a vantagem obtida pelo governador nos demais municípios teve peso decisivo na composição do resultado final.

A dimensão dessa diferença aparece quando se observa o resultado de outras regiões. Na Baixada Santista, por exemplo, Tarcísio venceu nos nove municípios e acumulou 586.256 votos, contra 358.057 de Haddad, uma diferença regional de 228.199 votos. O resultado da região, sozinho, corresponde a mais da metade da vantagem registrada por Haddad na capital.

O mapa eleitoral paulista, portanto, revela uma disputa que não pode ser explicada apenas pelo comportamento do eleitorado da capital. São Paulo possui 645 municípios e mais de 34 milhões de eleitores. Os dez municípios mais populosos eleitoralmente, entre eles a capital, Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo, Osasco, Santo André, São José dos Campos, Sorocaba, Ribeirão Preto e Santos, concentram 42,8% do eleitorado estadual. Os outros municípios, somados, representam a maior parte do eleitorado.

O resultado também chama atenção pela magnitude da diferença estadual. Tarcísio terminou a apuração com 6.068.218 votos a mais que Haddad. Em termos percentuais, foram 62,65% contra 36,42% dos votos válidos. Os demais candidatos ficaram abaixo de 1% cada: Vivian Mendes (UP), 0,35%; Vera Lúcia (PSTU), 0,33%; e Carlos Machado (PCB), 0,25%.

Outro número relevante está nos votos que não foram destinados a nenhum dos candidatos. Em todo o Estado, foram registrados 1.348.262 votos brancos, correspondentes a 5,11%, e 1.915.481 votos nulos, equivalentes a 7,26%. Somados, os dois grupos chegaram a 3.263.743 votos. A abstenção alcançou 7.687.443 eleitores, 22,56% do eleitorado. Esses votos, entretanto, não são considerados na definição do vencedor, mas representam 10.954.186 votos que nenhum dos candidatos levou. O TSE esclarece que votos brancos e nulos não são transferidos para nenhum candidato e ficam fora do cálculo dos votos válidos.

Na capital, os números de brancos e nulos também ajudam a dimensionar o comportamento eleitoral, mas não podem ser tratados como votos potencialmente destinados a Haddad ou Tarcísio. Um eleitor que votou branco ou nulo não pode ser contabilizado como eleitor de um dos dois candidatos. A interpretação correta é que esses votos reduziram o universo de votos válidos utilizado para calcular a votação dos concorrentes.

O contraste entre capital e interior também desmonta uma leitura simplificada da eleição como uma disputa exclusivamente concentrada na cidade de São Paulo. Tarcísio não precisava vencer a capital para obter a maioria estadual. A estratégia eleitoral apoiada por uma ampla coligação partidária garantiu presença política em diferentes regiões do Estado. A coligação do governador reuniu Republicanos, PL, MDB, Democrata, Avante, PSD, PRD, Solidariedade, União Brasil e PP, entre outras legendas.

Haddad, por sua vez, disputou a eleição por uma coligação formada pela Federação Brasil da Esperança, PT, PCdoB e PV, além de PSOL, Rede, PDT e PSB, tendo Márcio França (PSB) como candidato a vice. A escolha de França levou para a chapa uma liderança com trajetória política no litoral paulista e experiência como governador do Estado.

O resultado de 2026 também mantém uma característica observada na eleição estadual anterior. Em 2022, Tarcísio derrotou Haddad no segundo turno e obteve 55,27% dos votos contra 44,73% do petista. Quatro anos depois, a disputa terminou no primeiro turno, com uma diferença percentual muito maior.

A fotografia eleitoral deixa, portanto, uma questão central para a política paulista: por que a capital, onde Haddad obteve vantagem, apresentou comportamento diferente de grande parte dos municípios do Estado? A resposta passa por fatores que precisam ser examinados por região, incluindo composição demográfica, renda, atividade econômica, avaliação do governo estadual, influência de prefeitos e vereadores, alianças partidárias, presença de lideranças locais e desempenho das campanhas.

Os dados disponíveis não permitem atribuir o resultado a um único fator. O que a apuração demonstra objetivamente é que a vantagem de Haddad na capital foi superada pela diferença acumulada por Tarcísio nos demais municípios. Em uma eleição para governador, portanto, o peso político da capital é grande, mas o resultado é definido pelo conjunto dos 645 municípios paulistas.

A eleição de 2026 deixa ainda um dado político relevante para as próximas disputas: Tarcísio foi reeleito com 14,49 milhões de votos e tornou-se apenas o terceiro governador paulista a conquistar a reeleição desde a criação da possibilidade constitucional de um segundo mandato. Antes dele, conseguiram o mesmo feito Mário Covas e Geraldo Alckmin.

Mais do que uma disputa entre dois candidatos, o mapa eleitoral de São Paulo revelou dois comportamentos territoriais distintos. A capital escolheu majoritariamente Haddad; o conjunto do Estado deu a Tarcísio uma vantagem muito maior. A matemática da eleição mostra que foi essa diferença territorial, e não o resultado isolado da capital, que determinou quem permanecerá no Palácio dos Bandeirantes.

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