A RUA QUE PERDEU O SEU ENCANTO

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"Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar..."

Em dezembro de 1992, após ser vítima de roubo violento com uso de armas de fogo, ocorrido em minha residência, onde morava com minha família, decidi sair daquele local e procurar um lugar mais tranquilo e seguro para poder criar os meus filhos.

Depois de tantas andanças por aqui e por ali, finalmente o lugar tão sonhado foi encontrado por minha esposa que, na empolgação do sonho, me pediu que largasse o meu trabalho em Jaboticabal e voltasse correndo para Campinas, porque não podíamos perder o tão sonhado paraíso.

Voltei e dei início ao negócio, juntando um pouquinho daqui, outro tiquinho dali, vendendo umas coisinhas de lá e, de pouco a pouco, arranjamos quase que a totalidade do valor a ser pago pelo imóvel e aí fechamos o negócio.

Àquela propriedade abrigava em seu contexto exatamente lembranças que eu e minha mulher trazíamos do nosso tempo de criança, vivido em uma pequenina cidade, Ilicínea, no sul de Minas Gerais.

A rua da frente da nossa casa ainda era de terra batida, sendo que, na lateral, aos fundos, terminava uma rua asfaltada do condomínio Cândido Ferreira.

Paralelo à nossa rua, lá nos fundos, corria o então Ribeirão dos Pires, afluente do Rio Atibaia, curso ribeirinho de águas doces onde a Sanasa lança os resíduos da limpeza de seus filtros.

Na nossa rua não existia o tempo e tampouco a hora. A qualquer momento que estivéssemos por ali, contemplando sua tranquilidade, podíamos observar centenas de pessoas caminhando, jovens, velhos, mulheres e crianças andando de bicicleta, além de cavaleiros e charreteiros que faziam daquele espaço de liberdade e encanto natural um espaço de integração entre o homem e a natureza, onde podia ser visto livremente, jacus, ouriços, gambás, ouvindo o canto dos pintassilgos, sabiás, bem-te-vis, sanhaços, corruíras, azulões, trinca-ferros, além do grunhido das maritacas e de outras espécies raras que hoje já integram listas de possíveis de extinção.

Quando Campinas despertava na sua adolescência, a nossa rua servia como caminho para o transporte de produtos agrícolas e de animais através da Maria Fumaça, da região da Fazenda das Cabras, no Distrito de Joaquim Egídio, até o Mercadão Central.

Encerrado esse período, a nossa rua virou o corredor de bonde, ligando os Distritos de Joaquim Egídio e Sousas à metrópole Campinas, transportando os seus moradores.

Foi-se embora também o bonde. Contudo, a nossa rua não perdeu o seu encanto. Ela passou a ser um espaço de descontração, prática de esportes, caminhadas, corridas, cavalgadas e observação dos encantos da natureza, onde a estupidez dos humanos ainda não havia alcançado.

Como diz o ditado popular:

“Não há mal que não se cure
e nem bem que tanto dure”,

de repente, hasteando a bandeira do progresso, resolveram colocar um fim ao bucolismo da nossa rua e, como moeda de troca de natureza essencialmente política, projetaram a sua pavimentação asfáltica, com custo zero para os proprietários, em um típico ato de renúncia de receita.

Tentando mitigar os efeitos do respectivo projeto, objetivando salvar pelo menos parte dos encantos da nossa rua, encaminhamos mensagem ao nosso Vice-Prefeito, sugerindo que, em lugar da pavimentação asfáltica, que impermeabiliza o solo e pode provocar o transbordo do Córrego dos Pires, fosse então usado o piso intertravado permeável, conforme o que foi feito entre o Distrito de Joaquim Egídio e a Rodovia D. Pedro I, estabelecendo como Contribuição de Melhorias parte do custo da obra para os proprietários, a ser financiado, preservando, desse modo, parte do bucolismo da nossa rua, sem apagar de vez a sua história, até mesmo porque quem apaga a história perde de vez a memória.

Agora, com o apagar da história e a perda da memória, foi-se embora o seu encanto, nos restando apenas um canto:

“Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar…”

Jamir Menali – Advogado
Procurador da CNSPM

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