Produtora responsável pela cinebiografia afirma ter utilizado financiamento privado, mas autoridades apuram possível ligação com contrato público de R$ 108 milhões firmado pela Prefeitura de São Paulo

diferenças nos custos cobrados por ponto de internet instalado e a capacidade operacional da entidade para executar
o projeto. Foto Reprodução
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A cinebiografia “Dark Horse”, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, declarou um custo de pelo menos R$ 75,1 milhões, segundo laudo pericial anexado a um inquérito conduzido pela Polícia Civil de São Paulo. O documento foi produzido por peritos contratados pela defesa da empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora Go UP Entertainment e também responsável pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização que mantém contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo.
Segundo o laudo, o orçamento total da produção alcançou US$ 13,39 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 75,1 milhões. Desse montante, cerca de R$ 54 milhões teriam sido gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil. O valor chamou a atenção dos investigadores porque o filme foi integralmente produzido em território nacional.
O documento sustenta que os recursos utilizados são de origem privada e menciona a existência de contratos de investimento, extratos bancários e registros financeiros. Entretanto, os documentos que comprovariam os aportes não foram anexados ao laudo. A justificativa apresentada é que os contratos possuem cláusulas de confidencialidade e estariam protegidos por dispositivos relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A ausência de documentos comprobatórios transformou a origem dos recursos em um dos principais focos das investigações conduzidas pela Polícia Civil, pelo Ministério Público e pela Controladoria Geral do Município de São Paulo.
CONTRATO PÚBLICO E SUSPEITAS DE DESVIO
As apurações analisam eventual ligação entre a produção cinematográfica e um contrato de R$ 108 milhões firmado em junho de 2024 entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil. O acordo previa a implantação de pontos de acesso gratuito à internet em regiões periféricas da capital paulista.
Os órgãos de controle investigam se parte dos recursos vinculados ao contrato teria sido desviada para financiar a produção do filme. Entre os pontos analisados estão a apresentação de documentos fiscais considerados irregulares na prestação de contas, diferenças nos custos cobrados por ponto de internet instalado e a capacidade operacional da entidade para executar o projeto.
A investigação também observa o histórico das organizações ligadas à empresária. Antes de assumir o contrato milionário, o Instituto Conhecer Brasil não possuía experiência conhecida na implantação de redes públicas de internet. Da mesma forma, a Go UP Entertainment não havia produzido obras cinematográficas de grande porte antes do desenvolvimento de “Dark Horse”.
Outro elemento que passou a integrar as investigações envolve a origem dos recursos privados apontados pela defesa. O laudo identifica como financiador da produção o Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos e ligado ao advogado Paulo Calixto. O fundo é citado em apurações que buscam identificar a origem dos aportes utilizados no projeto.
Relatórios e mensagens divulgadas pela imprensa também indicam a existência de interlocuções envolvendo integrantes do grupo político bolsonarista durante o processo de financiamento da obra. Esses elementos estão sendo analisados pelos investigadores para verificar eventual participação de terceiros na estrutura financeira do projeto.
O filme foi concebido como uma narrativa sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, incluindo episódios como a campanha presidencial de 2018 e o atentado sofrido durante aquele período eleitoral. Inicialmente previsto para estrear antes das eleições de 2026, o lançamento poderá ser adiado enquanto prosseguem as investigações.
Até o momento, não há decisão judicial que conclua pela existência de desvio de recursos públicos para a produção do filme. A defesa de Karina Ferreira da Gama sustenta que todo o financiamento foi realizado com recursos privados e nega irregularidades.
As investigações seguem em andamento e buscam esclarecer a origem dos valores utilizados na produção, a regularidade das operações financeiras e a eventual relação entre os recursos empregados no filme e os contratos mantidos pelas entidades ligadas à empresária junto ao poder público.




