Moradores da Penha denunciam massacre e levam corpos à Praça São Lucas; governo do estado confirma operação mais letal da história do Rio, com vítimas ainda sem identificação
POR SANDRA VENANCIO
O número de mortos após a megaoperação policial no Complexo da Penha e no Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, subiu para 134 nesta quarta-feira (29), segundo relatos de moradores e fontes locais. A ação, considerada a mais letal da história do estado, deixou a região em estado de choque e provocou protestos contra a violência das forças de segurança.
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Durante a madrugada, dezenas de moradores desceram dos morros carregando corpos até a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas — uma das principais vias da Penha. A cena, descrita por testemunhas como “devastadora”, refletiu a tentativa da comunidade de organizar o reconhecimento das vítimas, diante da ausência de informações oficiais e do medo que se espalhou após os confrontos.
Segundo o governo do Rio de Janeiro, 60 suspeitos e 4 policiais foram mortos na operação, mas moradores afirmam que o número é muito maior. Corpos foram encontrados em áreas de mata da Serra da Misericórdia, na região conhecida como Vacaria, e ainda há relatos de pessoas desaparecidas.
“Em 36 anos de favela, passando por várias operações e chacinas, eu nunca vi nada parecido. É algo brutal e desumano num nível que não dá pra explicar”, afirmou o ativista Raull Santiago, que ajudou a remover corpos da mata com outros voluntários.
Os moradores optaram por deixar muitos corpos sem camisa para facilitar o reconhecimento por familiares, expondo tatuagens e marcas corporais. O Instituto Médico-Legal (IML) informou que o atendimento às famílias será feito no prédio do Detran, ao lado do instituto, com acesso restrito à Polícia Civil e ao Ministério Público.
Entidades de direitos humanos e organizações civis exigem uma investigação independente sobre a chacina. Para o Observatório da Segurança do Rio, a ação revela “a falência do modelo de confronto armado como política de segurança pública” e reacende o debate sobre o papel do Estado nas favelas cariocas.
Enquanto o governo classifica a operação como uma “grande ofensiva contra o crime organizado”, os moradores vivem o luto coletivo e a indignação. “Não foi operação, foi execução”, disse uma moradora que preferiu não se identificar.




