Mensagens de Vorcaro revelam contato direto com Campos Neto durante gestão no Banco Central

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Um contato direto entre o então presidente do Banco Central e o controlador de uma instituição submetida à supervisão da própria autarquia, incluindo uma tentativa de reunião que inicialmente seria realizada na residência particular de Campos Neto e posteriormente ocorreu na sede do Banco Central. Foto Raphael Ribeiro/BCB/Divulgação

Conversas apreendidas pela Polícia Federal mostram que o então presidente do BC convidou o controlador do Banco Master para reunião em sua residência; encontro acabou transferido para a sede da autoridade monetária

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central, manteve contato direto com o banqueiro durante sua gestão e chegou a propor que uma reunião entre os dois ocorresse em sua residência no condomínio Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, no interior de São Paulo. As conversas, divulgadas originalmente pela coluna de Lauro Jardim, de O Globo, mostram que Vorcaro procurou Campos Neto em novembro de 2023 para apresentar o trabalho desenvolvido pelo banco e suas perspectivas. Depois de tentativas de conciliar as agendas, Campos Neto ofereceu a própria residência como alternativa para o encontro, marcado inicialmente para 22 de dezembro daquele ano.

A reunião, entretanto, não ocorreu na casa do então presidente do Banco Central. No dia marcado, Campos Neto informou a Vorcaro que sua residência havia sido dedetizada e que havia passado mal ao entrar no imóvel. Em seguida, propôs transferir o encontro para a sede do Banco Central, na Avenida Paulista, em São Paulo. As mensagens registram que Vorcaro concordou com a mudança. O histórico da conversa voltou a apresentar registros em março de 2024, quando Campos Neto enviou uma imagem ao banqueiro. O conteúdo da imagem não foi divulgado, e Vorcaro respondeu com aplausos e a mensagem “merecido! Parabéns!”. No dia seguinte, Campos Neto respondeu agradecendo e desejando sucesso ao empresário.

Da rejeição à autorização do Banco Máxima

O contato entre Campos Neto e Vorcaro ganha relevância porque o Banco Central havia tomado, no mesmo ano em que Campos Neto assumiu a presidência da instituição, decisões relacionadas à entrada do empresário no sistema bancário. Em fevereiro de 2019, ainda sob a presidência de Ilan Goldfajn, o Banco Central rejeitou a transferência do controle do Banco Máxima para Vorcaro e outros investidores. Meses depois, já sob o comando de Campos Neto, a autoridade monetária autorizou a operação, em outubro de 2019. O Banco Máxima posteriormente passou a se chamar Banco Master. A sequência de acontecimentos é um dos pontos que precisam ser reconstruídos na cronologia do caso, inclusive para identificar quais documentos, informações financeiras e garantias foram apresentados entre a primeira decisão e a autorização posterior.

A questão ganha dimensão adicional diante da investigação atualmente conduzida pela Polícia Federal sobre o Banco Master e das informações que passaram a ser conhecidas a partir da análise do telefone de Vorcaro. As mensagens reveladas até agora mostram que o banqueiro mantinha contatos com diferentes autoridades, empresários e agentes políticos, e que procurava estabelecer encontros e relações institucionais em torno dos interesses do banco. Em outro conjunto de mensagens, por exemplo, aparecem contatos de Vorcaro com parlamentares e outras figuras públicas, o que demonstra a amplitude das relações que estão sendo examinadas pelos investigadores.

Banco Master cresceu enquanto acumulava questionamentos

Durante os anos seguintes, o Banco Master ampliou suas operações e sua captação de recursos, enquanto órgãos de controle e participantes do mercado passaram a acompanhar a situação da instituição. Entre os instrumentos utilizados pelo banco estavam os Certificados de Depósito Bancário, os CDBs, muitos deles oferecendo remunerações elevadas aos investidores e contando com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos dentro das regras aplicáveis.

A investigação atual tornou relevante reconstruir cronologicamente quais alertas chegaram ao Banco Central, quais informações estavam disponíveis para seus dirigentes e quais providências foram adotadas em cada momento. A questão não é apenas identificar quando o banco apresentou problemas, mas estabelecer uma linha do tempo entre crescimento da instituição, decisões regulatórias, alertas de mercado, atuação do Banco Central e contatos mantidos por seus dirigentes com os controladores do banco.

A regulamentação dos precatórios

Outro episódio da gestão Campos Neto que passou a integrar a discussão sobre o Banco Master envolve as regras prudenciais relacionadas a precatórios e pré-precatórios. A partir de 2023, o Banco Central alterou normas que tratavam da exposição das instituições financeiras a esses ativos.

Como o Master mantinha exposição a precatórios, a reconstrução do caso exige verificar os efeitos concretos das mudanças regulatórias sobre o balanço da instituição e quais avaliações técnicas foram produzidas pelo Banco Central naquele período. A existência de uma alteração normativa e o fato de o Master possuir determinados ativos não são, isoladamente, evidência de que a regra tenha sido criada para beneficiar o banco. A questão relevante é documentar os efeitos econômicos da regulamentação e as decisões tomadas pela autoridade monetária.

O depoimento sobre R$ 32 bilhões

Outro ponto citado nas investigações é o depoimento de Paulo Sérgio Neves de Souza à Polícia Federal sobre uma suposta fraude de R$ 32 bilhões identificada em uma due diligence realizada pelo BTG Pactual no Banco Master em novembro de 2024. Segundo o relato atribuído a Paulo Sérgio, uma apresentação sobre o assunto teria ocorrido em 3 de dezembro daquele ano, com participação de Roberto Campos Neto.

Esse relato precisa ser confrontado com documentos, registros da reunião e depoimentos dos demais participantes. A principal pergunta é cronológica: quais informações chegaram ao conhecimento dos dirigentes do Banco Central, em que momento chegaram e quais providências foram adotadas depois disso? A resposta depende da documentação produzida pelos órgãos envolvidos e dos elementos reunidos pela Polícia Federal.

O que as mensagens acrescentam à investigação

As conversas entre Campos Neto e Vorcaro, isoladamente, não demonstram favorecimento ao Banco Master nem participação de Campos Neto em eventuais irregularidades atribuídas à instituição. O que elas documentam é outra coisa: um contato direto entre o então presidente do Banco Central e o controlador de uma instituição submetida à supervisão da própria autarquia, incluindo uma tentativa de reunião que inicialmente seria realizada na residência particular de Campos Neto e posteriormente ocorreu na sede do Banco Central.

A partir desse ponto, a investigação pode avançar sobre documentos e decisões: quando Vorcaro procurou Campos Neto, quais assuntos foram tratados nas reuniões, quais decisões do Banco Central ocorreram antes e depois desses encontros, quais alertas chegaram à autoridade monetária e quais providências foram adotadas. O conjunto dessas informações permite reconstruir a relação institucional entre o regulador e o controlador do Master sem transformar a existência das mensagens em uma conclusão antecipada sobre responsabilidade criminal.

O caso também ganha dimensão porque a Polícia Federal vem analisando outras conversas extraídas do celular de Vorcaro envolvendo autoridades, empresários e políticos. As mensagens encontradas no aparelho passaram a formar um dos principais elementos para reconstruir a rede de relações mantida pelo banqueiro antes da intervenção no Banco Master.

A pergunta central agora é documental: qual foi exatamente o conteúdo das reuniões entre Roberto Campos Neto e Daniel Vorcaro e quais decisões do Banco Central sobre o Banco Master ocorreram na sequência desses contatos? É essa cronologia que pode estabelecer, com documentos e registros oficiais, o alcance efetivo da relação entre o regulador e o banco que posteriormente entrou no centro de uma das maiores investigações financeiras em andamento no país.

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