Mais de 6 mil indígenas de todo o país se mobilizam na capital federal e aguardam presença do presidente para discutir regularização de terras e segurança nas aldeias

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Lideranças indígenas iniciaram nesta semana, em Brasília, a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), com expectativa de reunir mais de 6 mil participantes de todas as regiões do país e pressionar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por avanços na demarcação de terras. O evento ocorre no Eixo Monumental e deve incluir reuniões com autoridades, marchas até a Praça dos Três Poderes e articulações políticas ao longo da semana.
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Coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Kleber Karipuna confirmou que há diálogo com o governo federal para viabilizar a visita de Lula ao acampamento. Segundo ele, a expectativa é obter respostas concretas sobre medidas que ainda podem ser implementadas em 2026. “Para que a gente possa ouvir o que podemos esperar do governo ainda neste ano, em todas as ações e pautas possíveis para o movimento indígena”, afirmou.
Demarcação e pressão política
As lideranças indígenas defendem a aceleração de processos que, segundo a APIB, já contam com respaldo técnico, jurídico e administrativo. Um documento entregue ao governo antes da COP30 lista 107 terras consideradas aptas para regularização. Destas, ao menos 76 estariam prontas para homologação presidencial e outras 34 dependem de portaria do Ministério da Justiça.
Karipuna aponta que, apesar da homologação de 20 terras nos últimos anos — totalizando cerca de 2,2 milhões de hectares — o avanço ainda é insuficiente diante do passivo histórico. A articulação indígena propõe que o país assuma o compromisso de garantir 58 milhões de hectares em até cinco anos, incluindo proteção territorial e posse definitiva.
Violência e vulnerabilidade
Outro eixo central do ATL é o aumento da violência contra comunidades indígenas, especialmente mulheres. A coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpin-Sul), Luana Kayngang, relatou um cenário de crescente vulnerabilidade. “Não tem sido tão fácil esse cenário que a gente vem vivenciando”, disse, ao destacar ataques externos às aldeias.
Representantes regionais também apontaram dificuldades logísticas. Segundo Paulo Tupinambá, coordenador de articulação no Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, as delegações chegaram a Brasília sem apoio financeiro público, custeando o transporte por conta própria — um indicativo das limitações estruturais enfrentadas pelo movimento.
Mobilização e agenda política
Estão previstas duas marchas durante o evento: a primeira ocorreu nesta terça-feira (7), com saída às 9h, e a segunda será na quinta-feira (9), às 14h. Os atos devem reunir lideranças indígenas e parlamentares, entre eles a deputada Célia Xakriabá, além de representantes do Executivo.
Com o lema “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”, o movimento busca pressionar o governo federal em um momento estratégico, em que o país também enfrenta compromissos internacionais relacionados à pauta ambiental e climática.
Posição do governo
Em nota, o Ministério dos Povos Indígenas destacou que a criação da pasta, em 2023, representou uma mudança estrutural na política indigenista brasileira, ao incluir lideranças indígenas em cargos de decisão. Segundo o governo, houve recuperação de políticas públicas e retomada de direitos considerados fragilizados na década anterior.
A gestão federal também ressalta que as homologações realizadas até agora são parte de um processo gradual, que depende de trâmites legais e administrativos. Ainda assim, o ritmo das demarcações permanece como principal ponto de tensão entre o governo e o movimento indígena, que cobra maior celeridade e cumprimento de compromissos assumidos.




