69 parlamentares eleitos respondem a processos ou são investigados por crimes

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A eleição também não interrompe automaticamente as investigações. Os processos continuam seguindo os procedimentos previstos pela Justiça, inclusive quando o investigado ou réu passa a exercer mandato parlamentar. Foto Marcelo Camargo/Agencia Brasil

Levantamento aponta 33 réus e 36 investigados entre deputados e senadores eleitos em 2026; maioria dos casos envolve suspeitas relacionadas a dinheiro público

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

Ao menos 69 parlamentares eleitos para a Câmara dos Deputados e o Senado nas eleições de 2026 respondem a processos criminais ou são alvo de investigações em andamento, segundo levantamento publicado pelo UOL nesta quinta-feira (8). O grupo é formado por 33 réus em ações penais e 36 investigados em inquéritos criminais, que ainda não foram denunciados formalmente pela Justiça. O levantamento considera processos relacionados a crimes como peculato, corrupção, desvio de dinheiro público, fraude em licitações, crimes ambientais e violência doméstica.

Os números mostram que, entre os parlamentares eleitos, aproximadamente um em cada nove está na condição de réu ou investigado em um processo criminal. A maior parte dos casos relacionados aos 33 réus envolve suspeitas de crimes contra a administração pública. Segundo o levantamento, pelo menos 20 dos réus respondem por acusações envolvendo peculato, corrupção, desvio de verbas ou fraude em licitações. Muitos dos processos tiveram origem em períodos anteriores à eleição de 2026, quando os políticos exerciam cargos como prefeitos, deputados estaduais ou secretários municipais.

Dinheiro público aparece na maior parte dos processos

Um dos casos citados é o do deputado federal Isnaldo Bulhões (MDB-AL), reeleito para a Câmara e líder do MDB. Ele é réu em uma ação por peculato relacionada a suposto desvio de recursos da Assembleia Legislativa de Alagoas. Segundo a acusação, teriam sido utilizados documentos, notas e recibos fictícios para justificar despesas. Os fatos investigados são de 2014 e o valor apontado pelo Ministério Público é de R$ 242 mil. Um dos envolvidos no caso firmou acordo de não persecução penal e confessou os crimes.

Outro caso é o do empresário Felipe Show (União-AP), eleito deputado federal pelo Amapá. Ele responde a três ações na Justiça estadual. Em uma delas, o Ministério Público o acusa de corrupção e de ter obtido, sem licitação, uma permissão para exploração do transporte coletivo em Macapá.

Felipe Show também ficou preso durante cinco dias em 2018, no curso de uma investigação sobre suposto desvio de R$ 9 milhões da Assembleia Legislativa do Amapá. De acordo com o Ministério Público, ele seria um dos envolvidos em um esquema de troca de cheques por dinheiro em espécie. Na eleição deste ano, foi o deputado federal mais votado da história do Amapá, com cerca de 34,6 mil votos.

Emendas parlamentares chegam ao STF

As investigações envolvendo emendas parlamentares também aparecem entre os processos que atingem parlamentares eleitos.

O deputado Júnior Betão (PL-AC) foi condenado em primeira instância por peculato no caso conhecido como Operação Sanguessuga, também chamada de máfia das ambulâncias. O processo trata de emendas destinadas a convênios do Ministério da Saúde entre 2003 e 2006. A decisão ainda é objeto de recurso, que chegou ao Supremo Tribunal Federal.

No caso da senadora eleita Bia Kicis (PL-DF), a Justiça Eleitoral investiga, por determinação do STF, se uma emenda parlamentar de R$ 250 mil foi utilizada para financiar propaganda eleitoral.

Também são investigados no Supremo, em diferentes operações relacionadas a suspeitas de desvios de emendas, os deputados Elmar Nascimento (União-BA), Yury do Paredão (MDB-CE), Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) e Juscelino Filho (União-MA), todos reeleitos.

A defesa de Félix Mendonça afirmou ao UOL que, depois de mais de 12 meses de investigação, não teria surgido evidência de participação do deputado nos supostos desvios. Segundo a defesa, o parlamentar aguarda acesso ao relatório policial em que seu nome foi mencionado para apresentar os esclarecimentos.

Mario Frias é investigado por suspeita envolvendo R$ 2 milhões

O deputado Mario Frias (PL-SP) também aparece no levantamento. A Polícia Federal investiga a destinação de aproximadamente R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil.

A apuração examina a possibilidade de os recursos terem sido utilizados na produção de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro no qual Frias atua como produtor-executivo. O instituto era presidido por Karina Gama, que também estaria relacionada à produtora responsável pelo filme.

Ney Santos é réu em processo por organização criminosa

Entre os parlamentares eleitos também está Ney Santos (Republicanos-SP), ex-prefeito de Embu das Artes. Ele é réu por organização criminosa e alvo de suspeitas relacionadas a suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) acusa o ex-prefeito de comandar uma organização criminosa e de lavagem de dinheiro. No ano passado, ele também recebeu condenação por posse de arma de fogo com numeração raspada.

A existência de uma acusação ou de uma investigação, entretanto, não significa que o parlamentar tenha sido condenado definitivamente pelos crimes investigados.

Juarez Costa responde por corrupção e lavagem de dinheiro

O deputado eleito Juarez Costa (Republicanos-MT) é réu na Operação Sorrelfa pelos crimes de corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

Segundo a acusação, quando era prefeito de Sinop (MT), ele teria recebido benefícios, entre eles um Porsche Cayenne e apartamentos em Balneário Camboriú, em troca de favorecer a venda de um imóvel público.

O UOL também informou que ex-executivos da empresa de saneamento Aegea afirmaram, em delações, que Juarez Costa teria recebido R$ 30 milhões e uma BMW para favorecer negócios da empresa. Trata-se de uma acusação atribuída aos colaboradores, não de uma condenação definitiva.

Outros parlamentares respondem a ações

O levantamento também identifica parlamentares eleitos que respondem a processos por diferentes tipos de crime.

Entre os réus acusados de fraude em licitação estão Wilson Santiago (Republicanos-PB), Junior Lourenço (MDB-MA), Jadyel Alencar (Republicanos-PI), Elmo Vaz (Avante-BA), João Maia (PP-RN) e Felipe Show (União-AP).

O deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), reeleito, responde a processo relacionado a violência doméstica.

Já Sidney Leite (PSD-AM) responde a processo relacionado a suspeita de desvio de recursos da Manaus Previdência. Ele foi secretário municipal de Manaus e nega irregularidades. Ao UOL, afirmou estar com a “consciência tranquila” em relação ao processo.

Os 36 investigados ainda estão em inquéritos e, segundo o levantamento, não foram formalmente denunciados pela Justiça. Já os 33 réus respondem a ações penais nas quais a acusação foi recebida e o processo está em andamento.

Há ainda casos de parlamentares condenados em primeira instância, como Júnior Betão. Uma condenação que ainda pode ser contestada por recursos não equivale a uma condenação definitiva.

A Constituição estabelece que a suspensão dos direitos políticos decorrente de condenação criminal ocorre, em regra, depois do trânsito em julgado, quando não há mais possibilidade de recurso. A Lei da Ficha Limpa, entretanto, estabelece hipóteses de inelegibilidade decorrentes de condenações por órgãos colegiados, mesmo quando ainda existem recursos.

Essa diferença jurídica explica por que uma pessoa pode disputar uma eleição mesmo respondendo a processo ou sendo investigada.

Eleição não encerra os processos

A eleição também não interrompe automaticamente as investigações. Os processos continuam seguindo os procedimentos previstos pela Justiça, inclusive quando o investigado ou réu passa a exercer mandato parlamentar.

Nos casos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, a condição de parlamentar pode ter reflexos sobre a competência judicial em razão das regras de foro por prerrogativa de função. Isso não significa absolvição nem condenação, mas altera o tribunal responsável por determinados processos conforme as circunstâncias jurídicas de cada caso.

O levantamento do UOL ressalta que os parlamentares foram procurados para apresentar suas versões. Nos casos em que não houve resposta até a publicação, o veículo informou que o espaço permanece aberto para manifestações.

O que os números mostram

O levantamento apresenta um retrato dos parlamentares eleitos que chegam ao Congresso Nacional em 2027 enfrentando diferentes situações judiciais:

SituaçãoNúmero
Réus em ações penais33
Investigados em inquéritos36
Total de parlamentares citados69
Réus com acusações relacionadas a dinheiro públicopelo menos 20

Os números não significam que os 69 parlamentares tenham cometido crimes. Eles indicam que existem processos penais ou investigações criminais em andamento envolvendo esses eleitos.

A distinção é especialmente relevante porque a presunção de inocência continua valendo durante o processo. A responsabilidade criminal somente é definida de forma definitiva após o julgamento e o encerramento das possibilidades de recurso.

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