
Presidente convoca deputados eleitos e influenciadores para ampliar presença digital, reduzir abstenção e apresentar propostas para um eventual novo mandato
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Por Sandra Venancio – Jornal Local
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou uma reformulação da estratégia de campanha para o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Em Brasília, Lula reuniu jovens parlamentares eleitos e nomes com forte presença nas redes sociais para discutir uma nova estratégia de comunicação, com maior utilização de vídeos curtos, linguagem adaptada às plataformas digitais e mobilização de eleitores que não compareceram às urnas.
A reunião ocorreu na quarta-feira (7), na sede da campanha, e contou com a participação da deputada federal eleita Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), de 21 anos, além das deputadas reeleitas Erika Hilton (PSOL-SP) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP), do deputado eleito Pedro Rousseff (PT-MG) e do dirigente e influenciador Jones Manoel (PSOL-PE), Thiago Reis (PT-SP), Guilherme Cortez (PT-SP) e Luna Zaratini (PT-SP) . A Agência Brasil confirmou a composição do encontro.
Ana Elisa passou a integrar a estratégia digital depois de obter 524.219 votos em sua primeira eleição e de construir uma trajetória política principalmente nas redes sociais. Antes da eleição, ela já reunia cerca de 1,9 milhão de seguidores em uma de suas plataformas; depois da votação, ultrapassou 2,4 milhões. A campanha de Lula foi procurá-la justamente pela experiência na comunicação digital.
Erika Hilton também chega ao segundo turno com uma expressiva votação. Reeleita deputada federal por São Paulo, recebeu 1.596.472 votos, tornando-se a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados. Sâmia Bomfim, também do PSOL paulista, recebeu 583.107 votos.
Redes sociais entram no centro da campanha
A mudança ocorre depois de críticas internas à comunicação do primeiro turno. Lula afirmou, durante uma reunião com aliados em Brasília, que aquela havia sido a campanha “menos organizada” de que participou desde 1989. A declaração acabou sendo transmitida por engano pelo canal do PT, tornando pública uma avaliação que originalmente seria feita em reunião fechada.
A campanha também passou a dar mais espaço para vídeos gravados diretamente pelo presidente, inclusive no formato selfie, tradicionalmente utilizado por influenciadores e candidatos que construíram sua comunicação diretamente nas redes.
O próprio Lula publicou vídeos com linguagem mais direta e voltada para o ambiente digital. A mudança ocorre após o primeiro turno mostrar a força eleitoral de candidatos que mantiveram uma presença intensa em plataformas como Instagram e TikTok.
A estratégia defendida por Ana Elisa é adaptar o conteúdo às características de cada plataforma, utilizando vídeos curtos, Reels e TikTok, em vez de concentrar a comunicação em textos longos e peças tradicionais. Ela também defendeu que a campanha apresente propostas para um eventual novo mandato, e não apenas realizações dos governos anteriores.
Abstenção passa a ser um dos principais alvos
Outro ponto discutido pela campanha é a mobilização dos eleitores que não votaram no primeiro turno. A abstenção chegou a aproximadamente 33,4 milhões de eleitores, ou 21,08% do eleitorado, segundo os dados citados pela campanha. A estratégia para o segundo turno inclui tentar convencer parte desse grupo a comparecer às urnas em 25 de outubro.
Sâmia Bomfim defendeu publicamente uma mobilização para reduzir a abstenção. A lógica eleitoral é objetiva: em uma disputa decidida por uma diferença relativamente pequena no primeiro turno, a capacidade de levar novos eleitores às urnas pode alterar o resultado.
O segundo turno, entretanto, não depende apenas de quem deixou de votar. Lula também precisa disputar os votos dos eleitores que escolheram candidatos eliminados no primeiro turno e daqueles que votaram em branco ou nulo.
Por isso, a campanha terá de trabalhar diferentes segmentos do eleitorado, com mensagens específicas para economia, segurança pública, emprego, saúde, programas sociais e condições de trabalho.
Lula pede divulgação do fim da escala 6×1
Durante a reunião com os jovens parlamentares, Lula pediu que os aliados expliquem aos eleitores a proposta de mudança na jornada de trabalho conhecida como fim da escala 6×1.
O presidente também voltou a defender a PEC da Segurança Pública, que amplia a participação da União na área e prevê mudanças na atuação de órgãos federais.
Segundo Lula, a proposta busca ampliar a participação da União na segurança pública e fortalecer a atuação da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Penal.
A escolha desses temas mostra uma tentativa de ampliar o alcance da campanha para além dos programas sociais tradicionalmente associados ao PT. Trabalho e segurança pública aparecem como assuntos que podem atingir eleitores que não necessariamente se identificam com a esquerda.
Campanha precisa apresentar o futuro, não apenas o passado
Uma das principais críticas apresentadas por Ana Elisa foi a necessidade de Lula falar sobre o que pretende fazer em um eventual novo mandato. A estratégia representa uma mudança importante. Em vez de concentrar a comunicação apenas nos resultados dos governos anteriores, a campanha precisa apresentar objetivos concretos para os próximos quatro anos.
Entre os temas que já passaram a receber espaço estão a redução da jornada de trabalho, o combate às desigualdades, segurança pública, emprego, educação e programas sociais.
A apresentação de propostas também pode permitir que a campanha responda a uma questão central do segundo turno: o eleitor não estará apenas avaliando o governo Lula, mas escolhendo entre dois projetos para o próximo mandato.
Desafio é transformar presença digital em votos
A convocação de parlamentares e influenciadores para a campanha ocorre depois de uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos entre Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno, conforme os números eleitorais utilizados pela campanha.
A presença nas redes, portanto, passou a ser tratada como uma questão eleitoral, e não apenas como ferramenta de divulgação.
Reportagem do UOL mostrou que a campanha convocou nomes considerados “puxadores de voto” da esquerda para construir uma estratégia conjunta nas redes. Entre os nomes destacados estão Erika Hilton, Ana Elisa e Sâmia Bomfim.
A tarefa desses parlamentares é diferente daquela desempenhada tradicionalmente por cabos eleitorais. Eles já possuem audiência própria, produzem conteúdo diariamente e mantêm comunicação direta com seus seguidores. O desafio da campanha será transformar essa audiência individual em mobilização eleitoral para Lula.
Comunicação tradicional também terá espaço
Apesar da mudança para as redes, a campanha terá uma ferramenta tradicional com peso significativo no segundo turno: o horário eleitoral gratuito.
O Tribunal Superior Eleitoral definiu que Lula e Flávio Bolsonaro terão exatamente o mesmo tempo de propaganda no rádio e na televisão. Serão cinco minutos para cada candidato em cada bloco diário e 12 minutos e 30 segundos em inserções. A propaganda começa nesta sexta-feira (9) e segue até 23 de outubro.
A ordem inicial será de Flávio Bolsonaro, por ter obtido a maior votação no primeiro turno, com alternância entre os candidatos nos programas seguintes.
Isso significa que Lula terá simultaneamente duas frentes de comunicação: a televisão e o rádio, com mensagens produzidas pela campanha, e as redes sociais, onde parlamentares, influenciadores e o próprio presidente poderão produzir conteúdo em formatos mais rápidos.
Críticas internas incluem espaço de Janja e Alckmin
A reformulação também envolve a própria estrutura política da campanha. A ex-senadora Kátia Abreu, coordenadora da campanha de Lula no Tocantins, criticou o espaço ocupado pela primeira-dama Rosângela Silva, a Janja, em comparação com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Segundo Kátia, Alckmin deveria ter maior participação na comunicação, especialmente pela experiência na área econômica.
A discussão mostra que a campanha enfrenta não apenas um problema de comunicação digital, mas também uma disputa interna sobre quais figuras devem aparecer ao lado de Lula e quais mensagens devem ser priorizadas.
O que precisa mudar até 25 de outubro
Com base nas mudanças anunciadas e nas críticas feitas dentro da própria campanha, cinco pontos aparecem como centrais para o segundo turno:
1. Aumentar a presença digital de Lula
A campanha começou a produzir vídeos mais curtos e diretos, com o presidente falando diretamente para a câmera.
2. Reduzir a abstenção
Mais de 33 milhões de eleitores não participaram do primeiro turno. Levar parte desse eleitorado às urnas pode ser decisivo.
3. Buscar os votos dos candidatos eliminados
O segundo turno começa com dois candidatos, mas os votos do primeiro turno foram distribuídos entre várias candidaturas. Lula precisará convencer parte desses eleitores.
4. Apresentar propostas para o próximo mandato
A própria campanha identificou a necessidade de falar mais sobre o futuro, apresentando objetivos concretos para os próximos quatro anos.
5. Ampliar a comunicação sobre segurança e economia
Os temas já entraram na agenda do segundo turno. Lula passou a defender maior participação federal na segurança pública e propostas relacionadas ao trabalho, enquanto Flávio Bolsonaro tem enfatizado redução de impostos, juros e renegociação de dívidas.
A campanha de Lula entra, portanto, no segundo turno tentando corrigir problemas reconhecidos internamente e utilizando uma estratégia que combina televisão, mobilização territorial e redes sociais. A mudança mais visível é a tentativa de aproximar o presidente de uma linguagem digital construída por parlamentares mais jovens e por influenciadores que tiveram desempenho expressivo nas urnas.
A eleição será decidida em 25 de outubro. Até lá, a disputa deixa de ser apenas pela preferência dos eleitores que já escolheram um dos dois candidatos e passa a envolver também aqueles que não votaram, os que escolheram candidatos derrotados e os que ainda podem mudar de posição.


