Negociações para colaboração premiada do ex-controlador do Banco Master seguem travadas entre defesa, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República

<OUÇA A REPORTAGEM>
A proposta de colaboração premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro enfrenta resistência dentro da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR), que avaliam que os anexos entregues até o momento não apresentam fatos novos nem provas suficientes para justificar a celebração de um acordo. A negociação ocorre desde março, após a segunda prisão preventiva do empresário no âmbito das investigações da Operação Compliance Zero.
Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, investigadores da Polícia Federal consideram que o material apresentado pela defesa carece de elementos inéditos capazes de ampliar as apurações já realizadas. A avaliação predominante é que, sem documentação robusta e informações que possam ser corroboradas por provas independentes, a proposta tem poucas chances de prosperar.
Nos bastidores da investigação, há ainda a percepção de que a estratégia poderia estar sendo utilizada para prolongar as negociações e evitar a transferência de Vorcaro para um presídio comum. Integrantes da PF entendem que o empresário ainda não demonstrou disposição efetiva para colaborar com as investigações em andamento.
A defesa de Vorcaro, liderada pelo criminalista Sérgio Leonardo, rejeita essa interpretação. Advogados ligados ao caso sustentam que os novos anexos entregues recentemente contêm informações inéditas e relevantes para as investigações. Segundo eles, haveria resistência por parte de investigadores em avançar com as tratativas, apesar do conteúdo apresentado.
As negociações ganharam caráter de urgência devido ao calendário político. Integrantes da investigação avaliam que uma eventual colaboração premiada precisaria avançar até julho para evitar impactos sobre o ambiente eleitoral de 2026.
Entre os temas mencionados nos anexos estariam referências ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), que nega irregularidades, além de informações relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Também aparecem referências ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Conforme revelado anteriormente por investigações jornalísticas, mensagens atribuídas ao parlamentar indicariam pedidos de recursos a Vorcaro para viabilizar a produção cinematográfica. Flávio Bolsonaro já confirmou encontro com o banqueiro em São Paulo, mas afirmou que a conversa tratou exclusivamente do projeto audiovisual.
INVESTIGAÇÃO
A primeira versão da proposta de colaboração foi rejeitada em maio. Após a negativa, a defesa apresentou novos anexos que passaram a ser analisados por integrantes da PF e da PGR. Mesmo assim, investigadores avaliam que o conteúdo não acrescenta informações substancialmente diferentes das já obtidas ao longo das oito fases da Operação Compliance Zero.
Na Procuradoria-Geral da República, a posição é de cautela. Procuradores analisam se o material possui capacidade de produzir novas linhas de investigação e se pode ser confirmado por documentos, registros bancários ou outros meios independentes de prova.
Outro fator que preocupa os investigadores é a possibilidade de Vorcaro já não possuir acesso a parte dos documentos considerados estratégicos para comprovar determinadas alegações. Desde a liquidação do Banco Master, parte da documentação passou para controle de administradores responsáveis pelo processo de intervenção.
Uma nova reunião entre representantes da defesa, da Polícia Federal e da PGR deve ocorrer nos próximos dias. Os órgãos avaliam se solicitarão complementações ou se encerrarão a atual rodada de negociações.
Qualquer eventual acordo dependerá ainda da homologação do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal. Integrantes da investigação afirmam que o magistrado já sinalizou que uma colaboração somente será aceita caso apresente fatos inéditos e efetiva contribuição para o avanço das apurações.
Se a proposta for rejeitada novamente, os conteúdos apresentados não poderão ser utilizados pela acusação. O impasse mantém indefinido o futuro das negociações e aumenta a pressão sobre a defesa para apresentar provas capazes de convencer investigadores, procuradores e o Supremo Tribunal Federal da utilidade da colaboração premiada.




