Após anos de dificuldade de acesso da família, Maria das Graças assume a representação legal do irmão; mudança pode permitir novos pedidos sobre tratamento, documentos e acompanhamento de Adélio
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A Justiça de Mato Grosso do Sul transferiu para a família a curatela de Adélio Bispo de Oliveira, condenado a medida de segurança após o ataque contra Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.
A decisão coloca a irmã, Maria das Graças Ramos de Oliveira, em uma posição que a família buscava havia anos. Com a curatela, ela passa a ter legitimidade para representar o irmão nos atos da vida civil e poderá atuar judicialmente em questões relacionadas ao tratamento psiquiátrico e às condições em que Adélio permanece internado no sistema penitenciário federal.
A mudança, porém, não significa que Adélio será automaticamente libertado ou retirado da Penitenciária Federal de Campo Grande. A eventual transferência para uma unidade de saúde depende de decisões específicas da Justiça e de avaliações médicas. Uma equipe especializada também foi autorizada a realizar nova avaliação do estado de saúde de Adélio e apresentar alternativas para seu tratamento.
Mas a decisão produz uma mudança importante em um caso que permanece cercado de dúvidas e questionamentos públicos.
Família passou anos sem acesso regular
Maria das Graças tentou obter a curatela do irmão anteriormente. Em 2023, o pedido não havia sido acolhido pela Justiça. Desde então, ela continuou buscando uma maneira de acompanhar mais de perto a situação de Adélio. O histórico de contato entre os dois é marcado por dificuldades.
Segundo relato publicado pelo jornalista Joaquim de Carvalho, Maria das Graças conseguiu realizar apenas uma visita presencial ao irmão em quase oito anos. Em outra ocasião, o presídio informou que Adélio teria recusado uma visita da irmã e apresentou um documento atribuído a ele. O episódio chegou a ser questionado pela defesa da família.
Agora, com a curatela, a família passa a ter uma posição jurídica diferente. A irmã poderá reivindicar formalmente providências relacionadas ao tratamento e acompanhar decisões que envolvam os interesses pessoais e civis de Adélio, dentro dos limites estabelecidos pela decisão judicial.
A questão do tratamento psiquiátrico
Adélio foi considerado inimputável pela Justiça em razão de transtorno mental e permanece submetido a medida de segurança. O debate atual não é simplesmente sobre colocá-lo em liberdade. A discussão envolve onde e em quais condições ele deve cumprir a medida de segurança. A família defende que ele possa deixar a penitenciária federal e receber tratamento em uma unidade psiquiátrica do Sistema Único de Saúde.
A Justiça, entretanto, ainda precisará avaliar se houve alteração nas condições que justificaram sua permanência no sistema penitenciário e se existe risco para o próprio Adélio ou para terceiros. A nova avaliação médica poderá ser importante nesse processo.
O que a nova curatela pode mudar?
A transferência da curatela não reabre automaticamente a investigação criminal sobre a facada. Também não significa que a irmã tenha recebido acesso irrestrito aos documentos sigilosos da Polícia Federal.
Mas a mudança cria uma possibilidade que não existia da mesma forma anteriormente: a família passa a acompanhar formalmente a situação de Adélio e poderá formular pedidos judiciais relacionados à sua saúde, tratamento e representação legal. Isso pode levar a novos questionamentos sobre documentos médicos, avaliações psiquiátricas e condições de internação.
Durante anos, grande parte das informações sobre Adélio chegou ao público por meio de autoridades, decisões judiciais, investigadores, advogados e reportagens. Agora, a família passa a ocupar um papel formal dentro desse processo.
O que ainda não foi esclarecido?
A Polícia Federal realizou duas grandes investigações sobre o ataque. A conclusão oficial foi de que Adélio agiu sozinho, sem participação de mandante ou organização criminosa no planejamento e execução do atentado. A PF voltou a afirmar essa conclusão em 2024. Isso é um fato que precisa constar da matéria. Mas também é fato que algumas questões relacionadas ao entorno do caso geraram novas investigações. Uma delas envolve o financiamento da defesa de Adélio.
Em 2023, a PF investigou possíveis vínculos entre um dos advogados que atuaram na defesa de Adélio e pessoas investigadas por ligação com o PCC. O advogado negou que os pagamentos tivessem relação com a facção e afirmou que os repasses diziam respeito à defesa de outros clientes.
Em 2024, porém, a PF concluiu novamente que não havia sido comprovada uma conexão entre o crime organizado e o ataque contra Bolsonaro. A investigação não encontrou prova de que o PCC tivesse financiado o atentado. Essa distinção é fundamental.
Uma coisa é investigar a origem do dinheiro utilizado na defesa. Outra, completamente diferente, é provar que uma organização criminosa financiou ou ordenou o atentado. Até agora, segundo a conclusão oficial da PF, essa segunda hipótese não foi comprovada.
A pergunta sobre o dinheiro da defesa continua relevante
Mesmo sem comprovação de que o PCC tenha financiado o atentado, a origem dos recursos utilizados na defesa de Adélio é um capítulo que merece ser acompanhado.
- Quem pagou?
- Quanto foi pago?
- Qual foi a origem dos recursos?
- Por que uma pessoa que não tinha recursos suficientes para bancar uma defesa complexa recebeu apoio financeiro?
- Essas perguntas não provam, por si só, a existência de um mandante.
- Mas são perguntas legítimas para uma investigação jornalística.
- E se Adélio voltar a falar?
Existe ainda um elemento potencialmente relevante Quem contratou os primeiros advogados?
Adélio está submetido a medida de segurança e sua condição psiquiátrica é justamente uma das razões pelas quais qualquer declaração dele precisa ser analisada com cautela.
Essa é a principal questão que surge agora. A mudança não prova que houve uma conspiração. Também não prova que a facada tenha sido encenada.
Até o momento, não há evidência pública confiável que permita afirmar que o ataque contra Bolsonaro foi falso.
A conclusão oficial das investigações continua sendo que Adélio foi o autor do ataque e agiu sozinho. Mas a transferência da curatela para a família abre uma nova etapa para o acompanhamento de Adélio. E essa nova etapa poderá permitir que a família questione formalmente decisões, peça avaliações, acompanhe o tratamento e busque informações que durante anos ficaram distantes de seu alcance.




