
Presidente do Senado afirma que “no momento adequado” falará sobre pedido de R$ 130 milhões para filme sobre Bolsonaro e questiona tentativa de concentrar críticas em Alexandre de Moraes
<OUÇA A REPORTAGEM>
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), elevou na noite de quarta-feira (2) o tom da disputa política em torno das investigações relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco Master. Durante sessão do plenário, Alcolumbre saiu em defesa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e afirmou que poderá voltar ao tema envolvendo o projeto cinematográfico “Dark Horse”, relacionado à cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A declaração foi feita em meio à pressão da oposição contra Moraes e às discussões sobre as mensagens trocadas entre o ministro e Vorcaro.
“Eu vou voltar para a pauta porque senão, terei que responder muitas agressões que, como presidente do Senado, estou recebendo nos últimos dias. Apenas um comentário, no momento adequado eu vou falar, todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado é só o ministro Alexandre de Moraes”, afirmou Alcolumbre durante a sessão.
A declaração coloca novamente o caso Dark Horse no centro da disputa política e pode atingir diretamente o senador Flávio Bolsonaro (PL), que está no cenário da eleição presidencial de 2026. O projeto cinematográfico já havia entrado no radar das investigações em razão dos recursos associados a Daniel Vorcaro e às pessoas envolvidas na produção.
Alcolumbre envia recado à oposição
A fala do presidente do Senado pode ser interpretada como uma resposta à ofensiva de setores da oposição que vêm defendendo maior pressão sobre Alexandre de Moraes e discutindo a possibilidade de abertura de processos contra ministros do STF. Alcolumbre, porém, não anunciou qualquer medida formal contra parlamentares da oposição nem afirmou que pretende abrir uma investigação contra Flávio Bolsonaro.
O recado político foi outro: caso as acusações contra Moraes continuem sendo utilizadas como instrumento de pressão, o presidente do Senado sinalizou que poderá recolocar na agenda pública as relações de políticos com Daniel Vorcaro e os recursos destinados ao projeto Dark Horse. A afirmação precisa ser tratada como uma advertência política, e não como confirmação de qualquer irregularidade envolvendo Flávio Bolsonaro.
Pedido de R$ 130 milhões volta ao debate
O ponto mais contundente da declaração de Alcolumbre foi a referência a um pedido de R$ 130 milhões de Flávio Bolsonaro para a realização do filme sobre o pai. A menção chama atenção porque coloca no mesmo debate duas questões diferentes: de um lado, os contatos de Vorcaro com autoridades, especialmente Alexandre de Moraes; de outro, as relações financeiras e políticas envolvendo o projeto cinematográfico.
Essas distinções são fundamentais para evitar que um pedido de recursos seja apresentado como se fosse, automaticamente, dinheiro efetivamente pago.
Filme Dark Horse pode voltar ao centro da eleição
A possibilidade de o assunto voltar à pauta política tem peso especial porque Flávio Bolsonaro está diretamente relacionado ao universo político do filme e disputa espaço na corrida presidencial. Qualquer nova informação financeira sobre o projeto poderá ter repercussão eleitoral. Por isso, eventual divulgação de documentos, contratos, mensagens ou movimentações financeiras relacionados ao Dark Horse precisará ser acompanhada da identificação precisa de origem, destino, valores e finalidade dos recursos. A existência de vínculo político ou empresarial também não constitui, isoladamente, prova de crime.
Pressão sobre a CPI do Banco Master
A reação de Alcolumbre também reabre uma discussão sobre a tentativa de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Master. A criação de uma CPI depende do cumprimento dos requisitos regimentais e da tramitação definida pelo Congresso. A atuação do presidente do Senado na análise dos requerimentos e na condução da pauta tem, portanto, relevância política. Durante o primeiro semestre, houve pressão de parlamentares pela criação de uma CPI para investigar o caso Master, mas a comissão não avançou.
Agora, com novas informações envolvendo Vorcaro, Mendonça, Flávio Bolsonaro e outros personagens políticos, a ausência de uma investigação parlamentar poderá voltar a ser questionada.
Moraes x Vorcaro: disputa muda de eixo
A discussão ganhou força após a divulgação de informações sobre mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. A oposição passou a questionar a relação entre o ministro e o banqueiro, enquanto aliados do STF defendem que os contatos precisam ser analisados dentro do contexto das investigações. Alcolumbre adotou uma posição clara ao questionar a tentativa de atribuir exclusivamente a Moraes a responsabilidade pelos fatos relacionados a Vorcaro. A declaração também produz um efeito político: desloca parte da discussão para as relações que Vorcaro mantinha com outros personagens do mundo político e empresarial.
STF diante de duas pressões
O Supremo passa a enfrentar uma situação politicamente delicada. De um lado, setores da oposição pressionam por medidas contra Alexandre de Moraes e defendem que as informações envolvendo o ministro sejam investigadas. De outro, parlamentares governistas questionam a atuação de André Mendonça e pedem sua retirada da relatoria do caso Dark Horse.
O risco de uma disputa política substituir a investigação
O episódio apresenta um risco institucional que precisa ser observado: transformar uma investigação sobre possíveis irregularidades financeiras em uma disputa política entre grupos. A apuração precisa seguir o caminho inverso. Primeiro devem ser identificados os documentos, contratos, transferências bancárias, mensagens e decisões administrativas. Depois, devem ser estabelecidas as responsabilidades individuais. Somente então será possível determinar se houve irregularidade, ilícito administrativo, crime ou simplesmente relações políticas e empresariais que, embora controversas, sejam juridicamente legítimas.
Uma eleição sob pressão institucional
A sucessão presidencial transforma o caso em um problema ainda mais sensível. De um lado, Flávio Bolsonaro está inserido diretamente na disputa eleitoral. De outro, Alexandre de Moraes tornou-se um dos principais alvos políticos da oposição. No meio da disputa estão Daniel Vorcaro, o Banco Master, o projeto Dark Horse e uma série de investigações que ainda precisam avançar. O perigo está em qualquer grupo tentar utilizar investigações seletivamente para atingir adversários.
O mesmo critério deve valer para todos: se existem indícios contra Moraes, que sejam investigados; se existem indícios envolvendo Flávio Bolsonaro e André Mendonça, que também sejam investigados; se existem indícios envolvendo outros políticos, empresários ou autoridades, que sejam igualmente apurados.
O papel de Alcolumbre
A declaração do presidente do Senado aumenta a responsabilidade institucional da própria Casa. Alcolumbre precisa explicar, com documentos, a referência aos R$ 130 milhões. Se existem informações relevantes sobre o relacionamento entre Vorcaro e políticos, elas precisam ser apresentadas às autoridades competentes e, respeitados os limites legais de sigilo, ao público. A defesa de Moraes não pode significar blindagem de fatos eventualmente irregulares. Da mesma forma, críticas a Moraes não podem ser utilizadas para impedir investigações sobre outros personagens.
O caso está longe de terminar
A disputa em torno do Banco Master e de Daniel Vorcaro deixou de ser apenas uma investigação financeira. O caso agora envolve ministros do STF, parlamentares, partidos, candidatos à Presidência, instituições financeiras e decisões que podem produzir efeitos políticos antes das eleições.
A tentativa de afastar André Mendonça da relatoria, a cobrança pela abertura dos sigilos, a defesa pública de Moraes por Alcolumbre e a ameaça de recolocar o caso Dark Horse na agenda mostram que a crise entrou em uma nova fase.


