Morte de “Sicário” na carceragem da PF deixa rastros em arquivos de Vorcaro e relatos da família

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Já os relatos da irmã sobre ameaças, os arquivos do iCloud e as mensagens envolvendo pessoas ligadas aos Vorcaro constituem outra frente. Foto Divulgação Instagram

Documentos liberados no caso Master mostram 17 perícias, 166 imagens de quatro câmeras e as últimas horas de Luiz Phillipi Mourão na carceragem da Polícia Federal; investigação concluiu que ele se enforcou sozinho, mas familiares continuam relatando ameaças e questionamentos sobre o caso.

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A liberação de documentos sigilosos do caso Banco Master trouxe novos elementos sobre a morte de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, dentro da carceragem da Polícia Federal em Minas Gerais, em março de 2026. O material analisado em reportagem de Leandro Demori e divulgado no contexto da retirada do sigilo pelo Supremo Tribunal Federal reúne 17 laudos periciais e 166 frames captados por quatro câmeras de segurança da PF. A conclusão da investigação é que Mourão praticou suicídio sem a participação de terceiros.

A sequência registrada pelas câmeras

  • Mourão chegou à Superintendência da Polícia Federal às 8h34 do dia 4 de março, depois de ser preso durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, investigação que apura irregularidades relacionadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.
  • Os registros mostram a entrada do preso na unidade, a revista pessoal e os procedimentos adotados pelos agentes. Segundo a documentação, foram retirados objetos de sua roupa e verificadas as condições em que ele permaneceria na carceragem.
  • As imagens também mostram que Mourão utilizou o telefone celular de um agente para tentar entrar em contato com familiares. De acordo com os laudos, ele tentou falar 18 vezes com a mãe e a irmã nas horas que antecederam sua morte.
  • Pouco antes do meio-dia, ele recebeu os advogados Hermes Vilchez Guerrero e Robson Lucas da Silva.
  • Às 15h21, Mourão pediu para ir ao banheiro.
  • Às 15h39, foi encontrado por um agente.
  • Ele recebeu atendimento de emergência e foi encaminhado ao Hospital João XXIII. Permaneceu internado até 6 de março, quando foi constatada a morte encefálica.

O que dizem as perícias

O conjunto pericial é um dos pontos centrais dos documentos agora públicos. Segundo a perícia, as câmeras da unidade possuíam três pontos cegos. Nenhum deles, porém, abrangia a área onde ocorreu o enforcamento. Um dos laudos concluiu que Mourão “agiu sozinho em seu próprio enforcamento” e que não foram identificadas cenas que comprovassem instigação, induzimento ou auxílio material de terceiros. A investigação analisou também o local, as roupas utilizadas por Mourão, os equipamentos e celulares dos agentes que tiveram contato com ele, além de exames toxicológicos e necroscópicos. O relatório reuniu, ao todo, 17 laudos e outros elementos de investigação. Também foram ouvidas pessoas que estavam na unidade no período, incluindo agentes federais, profissionais que participaram do atendimento médico e outros presos.

A camisa e o enforcamento

A documentação indica que Mourão utilizou a própria camisa para se enforcar. A reconstrução feita pelos investigadores considera a sequência registrada pelas câmeras e os exames realizados posteriormente. A análise das imagens é particularmente importante porque elimina, segundo a PF, a possibilidade de que outra pessoa tenha se aproximado fisicamente dele no momento decisivo.

A conclusão também foi considerada suficiente pelo ministro André Mendonça para afastar a hipótese de omissão dos policiais responsáveis pela custódia. Em decisão posterior, o ministro registrou que não havia nos elementos reunidos qualquer indicação de aproximação física, entrega de instrumento, orientação, estímulo, ameaça, manipulação do ambiente ou outro comportamento externo relacionado ao suicídio.

Antes da morte, 18 tentativas de contato

Um dos elementos que chama atenção na reconstrução é a quantidade de tentativas de contato feitas por Mourão. Segundo os documentos, ele tentou falar 18 vezes com a mãe e a irmã depois de chegar à PF. Esse comportamento ocorreu antes da conversa com os advogados e poucas horas antes do enforcamento. As tentativas de contato passaram a fazer parte da reconstrução das últimas horas do preso. Os documentos não permitem, por si só, concluir qual era o conteúdo ou a intenção de cada ligação que não foi completada. A informação relevante para a investigação é a sequência temporal registrada pelas câmeras e pelos registros da unidade.

A primeira investigação precisou dos vídeos

A importância das imagens já havia aparecido meses antes da divulgação dos documentos. Em abril, o Instituto Médico Legal de Minas Gerais havia solicitado acesso às imagens da carceragem para concluir o laudo relacionado à morte. Naquele momento, a investigação já havia ouvido 11 pessoas e realizado perícias nas roupas, no local e no celular disponibilizado a Mourão para comunicação com familiares e advogados. O IML também realizou exames toxicológicos. Uma perícia nas roupas não encontrou substâncias químicas que pudessem ter induzido o preso ao suicídio, segundo informações divulgadas na época. A investigação avançou posteriormente com a incorporação das imagens e dos demais laudos.

A versão da família

A conclusão pericial sobre a morte não encerrou todos os questionamentos que envolvem a família Mourão. A irmã de “Sicário”, Joana Machado de Moraes Mourão, relatou à PF ter recebido ameaças depois da morte do irmão. Segundo documentos analisados pela investigação, ela afirmou que ela e a mãe teriam recebido ameaças de morte acompanhadas por vídeos e imagens de homens armados com fuzis.

Joana também afirmou ter acessado arquivos armazenados na conta iCloud utilizada pelo irmão e alegou possuir informações que poderiam comprometer pessoas ligadas a Daniel Vorcaro. Essas declarações aparecem nos documentos da investigação como relatos da familiar e não como fatos definitivamente comprovados.

Em mensagens registradas pela PF, Joana relatou o impacto provocado pela morte do irmão e dificuldades financeiras enfrentadas posteriormente. “A dor e a ausência dele são insuportáveis”, afirmou em uma das mensagens reproduzidas nos documentos.

O relato da irmã, entretanto, pertence a uma frente diferente da investigação sobre a causa da morte. Não há, nos elementos periciais divulgados, conclusão de que as ameaças relatadas tenham provocado ou contribuído diretamente para o suicídio.

Quem era “Sicário” na investigação do Master

A PF apontava Mourão como integrante da chamada “Turma”, grupo que, segundo os investigadores, atuaria na obtenção de informações sigilosas e no monitoramento de pessoas consideradas adversárias de Daniel Vorcaro. A investigação afirma que integrantes do grupo tinham acesso a informações provenientes de sistemas oficiais e buscavam dados sobre investigações envolvendo Vorcaro e o Banco Master. Essa posição atribuída a Mourão explica a relevância que sua morte ganhou dentro da investigação. Ele foi preso justamente quando a PF aprofundava a apuração sobre a estrutura que, segundo a corporação, atuava em torno do banqueiro. A morte ocorreu antes que ele pudesse prestar um depoimento formal prolongado aos investigadores.

O que os documentos não mostram

A análise dos documentos também impõe limites à narrativa. As imagens divulgadas não constituem uma gravação contínua publicada integralmente. O que foi tornado público são frames das câmeras de segurança, acompanhados pelos laudos e demais documentos periciais.

A investigação afirma que toda a dinâmica relevante do suicídio foi registrada e que os pontos cegos existentes na unidade não interferiram na área em que Mourão se enforcou. Também não foi identificada, segundo a perícia, presença de terceiro ou qualquer ação externa que tenha auxiliado diretamente o suicídio. Isso é diferente de afirmar que todas as circunstâncias envolvendo Mourão, sua família e as relações mantidas por ele antes da prisão estejam esclarecidas.

Uma estrutura que, segundo a PF, ia muito além de ameaças

Relatório da Polícia Federal enviado ao ministro André Mendonça descreve “A Turma” como uma estrutura paralela de vigilância, coerção e obtenção de informações. Segundo a investigação, Vorcaro pagaria aproximadamente R$ 1 milhão por mês para manter o grupo.

A pergunta que permanece

Os laudos esclarecem a mecânica da morte, mas não necessariamente explicam tudo o que aconteceu ao redor dela. A documentação pericial sustenta a conclusão de suicídio. A investigação não encontrou participação direta de terceiros no ato. Ao mesmo tempo, permanecem sob análise os relatos da família, o conteúdo digital atribuído a Mourão, as informações que ele teria armazenado e as relações mantidas com pessoas investigadas no caso Master.

O conjunto de documentos divulgado pelo STF permite, portanto, separar duas questões que chegaram a ser tratadas como se fossem uma só: como Mourão morreu e o que estava acontecendo ao redor dele antes e depois da prisão.

Sobre a primeira questão, a conclusão oficial é objetiva: suicídio, sem participação de terceiros.

Sobre a segunda, a investigação continua envolvendo arquivos digitais, mensagens, relações financeiras, ameaças relatadas por familiares e a estrutura que a Polícia Federal atribui ao grupo ligado a Daniel Vorcaro.

A liberação dos laudos e das imagens não encerra esse segundo capítulo. Ela apenas torna pública, com muito mais detalhes, a reconstrução das últimas horas de um dos personagens centrais da investigação do Banco Master.

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