Viagens, imóveis e aeronaves colocam relação de Flávio Bolsonaro com advogado investigado no radar da PF

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O que os documentos e registros permitem afirmar é que existe uma relação pessoal antiga entre o senador e o advogado, acompanhada por uma série de vínculos de convivência e utilização de bens e serviços: viagens internacionais, hospedagens, aeronaves e imóveis. Foto Divulgação redes sociais

Relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz envolve viagens internacionais, imóveis de luxo, aeronaves e atuação profissional; advogado é alvo de investigação da PF sobre suspeitas de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS

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A relação entre o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz, alvo de investigação da Polícia Federal no caso das fraudes contra beneficiários do INSS, passou a ser examinada também a partir de registros de viagens, imóveis, aeronaves e documentos encontrados pelos investigadores. Segundo informações publicadas por O Globo e repercutidas por outros veículos, a PF encontrou registros que indicam que os dois viajaram juntos ao exterior em diferentes ocasiões em 2025.

Um dos episódios ocorreu em janeiro de 2025, quando Flávio Bolsonaro, a mulher e as duas filhas retornaram dos Estados Unidos para Brasília em uma aeronave da Prime You. O voo saiu de Fort Lauderdale, na Flórida, e ocorreu na véspera da posse de Donald Trump.

Naquele período, Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, ainda integrava o quadro societário da Prime You. Segundo as informações divulgadas, Vorcaro permaneceu como sócio da empresa até setembro de 2025.

Willer Tomaz afirmou que contratou os serviços da empresa como cliente e que desconhecia a participação societária de Vorcaro. O advogado também sustenta que não mantém relação pessoal, comercial ou societária com o ex-banqueiro.

A relação entre Tomaz e Flávio, entretanto, não se limita ao episódio do avião. Os dois passaram parte do fim de semana anterior à posse de Trump no Hard Rock Hotel & Casino, na região de Miami.

Segundo a apuração atribuída ao O Globo, investigadores chegaram a outras viagens depois de analisar o celular e a caixa de e-mails do advogado. Fotografias, reservas, registros de voos e documentos relacionados ao aluguel de veículos teriam permitido identificar pelo menos cinco viagens internacionais realizadas pelos dois no primeiro semestre de 2025.

Safári na África do Sul reuniu Flávio, Willer e senador investigado

Em março daquele ano, Flávio Bolsonaro viajou para a África do Sul acompanhado de familiares e amigos. O roteiro incluiu um safári e contou também com a presença do senador Weverton Rocha (PDT-MA), que é investigado no caso das fraudes do INSS.

Uma fotografia localizada no celular de Willer Tomaz mostra os três durante a viagem. Flávio, Weverton e Tomaz aparecem usando camisetas com a inscrição “Big Five”, expressão utilizada em safáris para designar cinco espécies: elefante, leão, leopardo, rinoceronte e búfalo.

Tomaz afirma que as viagens eram particulares, decorriam de sua amizade com Flávio Bolsonaro e foram pagas com recursos próprios.

A relação entre o advogado e Weverton Rocha também está no centro da investigação da PF. Segundo informações divulgadas após a operação, investigadores apontam que empresas relacionadas a Tomaz teriam realizado repasses superiores a R$ 11 milhões à mulher do senador. Tomaz contesta a interpretação dos investigadores e afirma que a relação financeira decorre da atuação profissional da mulher de Weverton como associada de seu escritório.

Portugal e França

Em abril, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz viajaram novamente juntos, desta vez para Portugal. No mês seguinte, os dois voltaram à Europa acompanhados de suas famílias, passando por Portugal e França.

Documentos obtidos pela investigação incluem mensagens e e-mails relacionados à contratação de veículos para os deslocamentos. Uma agência de viagens teria informado uma funcionária do escritório de Tomaz sobre reservas de automóveis para traslados em Lisboa e Nice.

Os registros, segundo a apuração jornalística, são utilizados pelos investigadores para reconstruir a extensão da relação pessoal entre Flávio e o advogado.

Apartamento em São Paulo entra no debate eleitoral

Outro ponto da relação envolve um apartamento na Vila Nova Conceição, em São Paulo. Durante a campanha presidencial de 2026, Flávio Bolsonaro utilizou o imóvel pertencente a Willer Tomaz. Antes de chegar à empresa do advogado, a propriedade havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e citado pela PF em investigações relacionadas ao ex-controlador do Banco Master.

A operação imobiliária também chamou atenção dos investigadores. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Zettel havia comprado o apartamento por R$ 5,5 milhões e posteriormente o vendeu por R$ 3,5 milhões para uma empresa de Tomaz, uma diferença de R$ 2 milhões em relação ao valor de aquisição.

O uso do apartamento por Flávio durante a campanha foi levado ao Tribunal Superior Eleitoral sob a alegação de que a utilização deveria ter sido declarada como doação ou despesa eleitoral. O caso ainda depende da análise da Justiça Eleitoral.

Tomaz afirma que não conhece Fabiano Zettel nem Daniel Vorcaro e nega qualquer relação pessoal, empresarial ou societária com os dois. Flávio Bolsonaro, por sua vez, classificou sua amizade com o advogado como legítima e rejeitou a tentativa de relacionar a convivência entre ambos às investigações.

A mansão em Angra dos Reis

Outro imóvel aproxima a relação de Flávio Bolsonaro da estrutura empresarial que administrava bens de luxo vinculados à Prime You. Em fevereiro de 2026, o senador comemorou o aniversário da filha em uma mansão em Angra dos Reis. O imóvel funciona em sistema de propriedade compartilhada e uma das cotas pertence à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa ligada a Willer Tomaz. A Prime You aparece como responsável pela administração da propriedade.

A Prime You teve Daniel Vorcaro como sócio até setembro de 2025. A empresa também atua na administração de aeronaves e outros bens de alto valor.

Tomaz confirmou que emprestou o imóvel a Flávio Bolsonaro e afirmou que a utilização ocorreu exclusivamente por causa da amizade entre os dois, sem pagamento ou contraprestação comercial. Ele também negou que Vorcaro tenha participação na propriedade.

Documentos citados nas reportagens indicam que a empresa de Tomaz adquiriu 25% das cotas da propriedade em 2022.

Aeronaves e estrutura patrimonial

A ligação de Tomaz com a Prime You também aparece em registros relacionados a aeronaves. Segundo informações reunidas em reportagens sobre o caso, bens ligados ao advogado foram administrados pela empresa. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil chegaram a apontar um helicóptero de Tomaz operado pela Prime You.

O advogado contesta a caracterização de que seria sócio da Prime Aviation ou proprietário direto de aeronaves administradas pela companhia. Segundo sua defesa, ele possui participação minoritária em uma estrutura de propriedade compartilhada e a gestão operacional e o registro dos bens ficam a cargo da Prime.

A própria relação empresarial entre Tomaz e a Prime You, portanto, tornou-se um dos pontos examinados nas reportagens que reconstruíram as conexões patrimoniais envolvendo o advogado.

O que a PF investiga

Willer Tomaz foi alvo de busca e apreensão em uma fase da Operação Sem Desconto, investigação da PF que apura suspeitas de desvios e lavagem de dinheiro relacionadas a fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.

Segundo os investigadores, Tomaz teria funcionado como uma espécie de estrutura de apoio financeiro, patrimonial e logístico para pessoas investigadas. A PF cita empresas, imóveis, aeronaves, funcionários e operadores financeiros na reconstrução das relações.

Tomaz nega envolvimento com as fraudes previdenciárias e afirma que não é investigado por participação direta nos descontos fraudulentos contra aposentados. A defesa sustenta que as relações financeiras apontadas pela PF possuem explicações lícitas relacionadas à atividade profissional do escritório.

Uma amizade que vem de antes das investigações

A proximidade entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz é anterior às viagens e aos episódios patrimoniais identificados pelos investigadores. Durante a CPI da Covid, em 2021, Flávio chegou a se referir publicamente ao advogado como “meu amigo Willer Tomaz”. Os dois também aparecem associados em processos judiciais, atuando conjuntamente como advogados.

A PF passou a examinar essa relação em um contexto mais amplo depois que Tomaz entrou no radar da Operação Sem Desconto. A investigação, entretanto, não estabelece, por si só, que a amizade entre os dois tenha relação com qualquer irregularidade cometida por Flávio Bolsonaro.

O que os documentos e registros permitem afirmar é que existe uma relação pessoal antiga entre o senador e o advogado, acompanhada por uma série de vínculos de convivência e utilização de bens e serviços: viagens internacionais, hospedagens, aeronaves e imóveis.

Também é documentada a existência de conexões empresariais de Tomaz com estruturas que tiveram Daniel Vorcaro entre seus sócios, especialmente a Prime You. Tomaz nega ter mantido relação pessoal ou empresarial com Vorcaro e afirma que sua utilização dos serviços e bens administrados pela companhia ocorreu como cliente ou cotista.

A investigação da PF deverá determinar se essas conexões têm apenas natureza privada e empresarial ou se fazem parte de relações financeiras mais amplas sob apuração. Até o momento, os elementos divulgados publicamente não permitem concluir que Flávio Bolsonaro tenha participado das fraudes investigadas no INSS.

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