
Rede conservadora criada nos Estados Unidos por J.D. Vance e Chris Buskirk é acusada por Renan Santos de atuar nos bastidores da campanha de Flávio Bolsonaro; documentos e relatos citados por veículos de imprensa apontam aproximação de empresários brasileiros, atuação dentro do QG do candidato e interesse em terras raras, mas não há, até o momento, comprovação pública de repasse estrangeiro para a campanha
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Por Sandra Venancio – Jornal Local
A presença de uma rede política e empresarial conservadora dos Estados Unidos passou a ser investigada no contexto das eleições brasileiras de 2026 depois que Renan Santos (Missão), candidato à Presidência da República, acusou a Rockbridge Network de ter se aproximado da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e de empresários brasileiros interessados em negócios relacionados às terras raras. A denúncia provocou uma reação institucional: o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou ao Supremo Tribunal Federal uma notícia de fato pedindo investigação sobre eventual financiamento estrangeiro da candidatura. Até o momento, porém, não há comprovação pública de que a Rockbridge tenha transferido dinheiro para a campanha de Flávio.
A acusação de Renan foi feita publicamente em setembro. Segundo reportagem da Folha/UOL, o candidato afirmou que a Rockbridge teria entrado na campanha de Flávio e que empresários estrangeiros estariam interessados na exploração de terras raras brasileiras. Renan também citou o empresário Tallis Gomes como possível elo entre o grupo americano e o entorno do candidato do PL. Gomes confirmou que é membro da Rockbridge, mas negou exercer função de direção ou representação e afirmou não integrar a campanha de Flávio nem ter doado ou arrecadado recursos para candidatos.
Uma rede criada para construir poder político
A Rockbridge não nasceu como uma estrutura eleitoral brasileira. A organização foi criada em 2019 por J.D. Vance, hoje vice-presidente dos Estados Unidos, e pelo empresário e estrategista conservador Chris Buskirk. Uma investigação da Reuters publicada em 2024 descreveu a Rockbridge como uma rede de financiamento e infraestrutura política voltada à direita americana, com orçamento estimado entre US$ 70 milhões e US$ 80 milhões naquele ano e entre 150 e 200 integrantes. A rede reúne investidores, empresários e organizações voltadas para mobilização de eleitores, mídia, pesquisas e ativismo político.
A estrutura chama atenção porque não funciona apenas como um grupo tradicional de doadores. Segundo documentos analisados pela Reuters, organizações associadas à rede atuavam em mobilização de eleitores em estados decisivos, recrutamento político de religiosos, produção de conteúdo jornalístico e pesquisas eleitorais. A Reuters também informou que a Rockbridge mantinha uma relação informal com Vance mesmo depois de ele deixar de exercer função formal no grupo.
A dimensão empresarial também faz parte do ecossistema. A Reuters relatou que a Rockbridge participou da formação da 1789 Capital, empresa de venture capital associada a Buskirk, Rebekah Mercer e Omeed Malik, voltada a investimentos em empresas consideradas alinhadas ao conservadorismo. O grupo, portanto, opera na interseção entre dinheiro, política, mídia, mobilização eleitoral e negócios.
O que está sendo investigado no Brasil
A parte mais sensível da história começou quando investigações jornalísticas passaram a apontar a presença de pessoas ligadas à Rockbridge no entorno da campanha de Flávio Bolsonaro. A organização pode estar infiltrada na grande imprensa, nas igrejas e no Supremo Tribunal Federal, com ministros evangélicos.
O site Amado Mundo publicou em setembro que Pedro Sang, apresentado como “Pedro da Rockbridge”, estaria atuando dentro do comitê de campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo e teria participado da montagem do QG do candidato. A mesma apuração afirmou ter localizado um documento com a identidade visual da campanha de Flávio relacionado a uma proposta envolvendo uma cadeia de fornecimento de terras raras brasileiras para os Estados Unidos.
A reportagem também relacionou o episódio a Tallis Gomes. Gomes reconheceu sua participação como membro da Rockbridge, mas afirmou que não possui função de gestão, direção ou representação da organização. Também negou participação na campanha de Flávio e qualquer intermediação de recursos eleitorais.
André Marinho (Novo), candidato ao governo do Rio de Janeiro, também apareceu no episódio por causa de uma apresentação sobre terras raras utilizada na notícia de fato apresentada ao STF. Marinho confirmou ter elaborado o estudo, mas afirmou que o material era um exercício pessoal e hipotético, não solicitado por campanha, autoridade ou organização estrangeira. Disse ainda que não o apresentou à campanha de Flávio nem a autoridades americanas.
A questão central, portanto, não é simplesmente saber se brasileiros participaram de encontros ou se são membros da Rockbridge. O ponto jurídico seria descobrir se uma organização estrangeira forneceu dinheiro, serviços, estrutura, publicidade ou qualquer benefício economicamente mensurável a uma candidatura brasileira.
Terras raras colocam política e negócios no mesmo tabuleiro
É justamente nesse ponto que a denúncia de Renan Santos ganha uma dimensão empresarial. O candidato afirmou que empresários ligados à Rockbridge teriam interesse econômico nas terras raras brasileiras e que essa seria uma das razões para a aproximação com a campanha de Flávio.
A existência de interesse internacional pelas chamadas terras raras é uma questão econômica independente da acusação eleitoral. O que ainda precisa ser comprovado é se houve alguma negociação concreta conectando esse interesse empresarial à campanha presidencial.
O documento citado pelo Amado Mundo é, nesse sentido, um dos elementos que merecem investigação documental: quem produziu o material, para quem ele foi enviado, quem participou das reuniões relacionadas ao assunto, quais empresas estavam envolvidas e se houve qualquer proposta de contrapartida econômica ou política.
Não é possível, a partir dos elementos públicos disponíveis, afirmar que uma negociação envolvendo terras raras tenha sido usada para financiar a campanha de Flávio. Essa é precisamente uma das questões que uma eventual investigação deverá esclarecer.
A questão do dinheiro estrangeiro
A legislação brasileira é clara sobre esse ponto. O artigo 24 da Lei nº 9.504/1997 proíbe partidos e candidatos de receberem, direta ou indiretamente, doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro provenientes de entidade ou governo estrangeiro. A proibição também alcança publicidade e outros benefícios economicamente mensuráveis.
O TSE reforçou, nas regras para as eleições de 2026, que recursos de origem estrangeira estão entre as fontes proibidas de financiamento eleitoral. O tribunal também determina mecanismos de identificação e fiscalização da origem dos recursos utilizados pelas campanhas.
A partir de 15 de setembro, o TSE passou a disponibilizar os dados da prestação de contas parcial das campanhas de 2026, incluindo arrecadação, despesas e movimentações financeiras registradas até 8 de setembro. Isso permite cruzar doadores, fornecedores, empresas contratadas e valores declarados pelas candidaturas.
É justamente nesse cruzamento que está uma das possibilidades de investigação jornalística: verificar se empresas ou pessoas relacionadas à Rockbridge aparecem como doadoras, fornecedores, prestadores de serviços ou intermediários da campanha. Outra frente é identificar eventuais serviços fornecidos gratuitamente ou abaixo do valor de mercado, situação que poderia produzir benefício econômico mesmo sem uma transferência bancária direta.
Flávio nega influência estrangeira
A campanha de Flávio Bolsonaro não havia se manifestado sobre a acusação quando algumas das primeiras reportagens foram publicadas. Mais recentemente, Flávio negou ter recebido ajuda do governo dos Estados Unidos para sua campanha e rejeitou a ideia de influência externa sobre a eleição brasileira.
A movimentação financeira oficialmente registrada também merece acompanhamento. Segundo levantamento publicado pela Folha em 17 de setembro com base nos dados do TSE, a campanha de Flávio havia declarado R$ 48,4 milhões em arrecadação, contra R$ 41,1 milhões declarados pela campanha de Lula (PT). A maior parte dos recursos de Flávio vinha do próprio PL, incluindo R$ 3,2 milhões registrados como doação de horas de voo.
Esses números, entretanto, não comprovam nem afastam por si só a acusação sobre eventual participação estrangeira. Uma eventual operação irregular poderia, em tese, ocorrer por meio de serviços, contratos, intermediários ou outras formas de benefício que somente uma análise detalhada das contas, contratos e movimentações financeiras poderia identificar.
A investigação que pode revelar o tamanho da operação
O pedido apresentado por Lindbergh Farias ao STF solicita justamente uma apuração sobre eventual vínculo financeiro entre a Rockbridge e a campanha de Flávio. A notícia de fato menciona contatos, viagens e reuniões de empresários brasileiros com integrantes da organização e pede que sejam analisadas contas eleitorais, movimentações financeiras e contratos relacionados à campanha.
A petição também aponta possíveis consequências jurídicas caso sejam comprovados recursos estrangeiros utilizados na eleição, entre elas questões relacionadas à captação ilícita de recursos, caixa dois, lavagem de dinheiro e abuso de poder econômico. Essas consequências são hipóteses jurídicas apresentadas no pedido de investigação, e não conclusões sobre fatos já comprovados.
Há ainda uma segunda possibilidade: caso a investigação não encontre qualquer vínculo financeiro ou operacional irregular, deverá ser esclarecida a origem das informações utilizadas por Renan Santos para fazer as acusações públicas. A própria notícia de fato apresentada ao STF contempla essa possibilidade.
O caso, portanto, está dividido em três níveis. O primeiro é comprovado: a Rockbridge existe, foi criada por J.D. Vance e Chris Buskirk e construiu nos Estados Unidos uma estrutura política financiada por grandes doadores e voltada à mobilização, mídia e influência eleitoral. O segundo também possui elementos documentados: empresários brasileiros afirmam ter vínculos com a rede e há reportagens apontando a presença de Pedro Sang no ambiente da campanha de Flávio. O terceiro ainda é uma suspeita: a existência de financiamento estrangeiro ou de uma troca entre apoio político e interesses econômicos em terras raras.
É nessa terceira etapa que a eleição brasileira de 2026 poderá produzir uma das investigações mais relevantes sobre a influência estrangeira na política nacional. Por enquanto, os fatos disponíveis sustentam a existência de conexões e de uma apuração em andamento, mas não permitem afirmar que a Rockbridge financiou a campanha de Flávio Bolsonaro. A diferença entre conexão, influência, prestação de serviço e financiamento ilegal é exatamente o tipo de detalhe que costuma desaparecer quando a política resolve correr mais rápido que os documentos.
Fontes consultadas: Tribunal Superior Eleitoral, Lei nº 9.504/1997, Reuters, Folha/UOL, CNN Brasil e Amado Mundo.


