
Levantamento do ICL Notícias e da newsletter Noites Húngaras aponta que Lídia Maria Figueiredo Mazelli passou a ocupar cargos de direção em empresas ligadas ao advogado próximo de Flávio Bolsonaro; ela afirma ser administradora e nega ter sido empregada doméstica
<OUÇA A REPORTAGEM>
Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp
Por Sandra Venancio – Jornal Local
Registros empresariais e trabalhistas levantados pelo ICL Notícias e pela newsletter Noites Húngaras colocaram Lídia Maria Figueiredo Mazelli no centro de uma rede de empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz, apontado como próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL). Segundo o levantamento, Lídia trabalhou no escritório de Tomaz entre março de 2019 e setembro de 2020 e, poucos dias depois do encerramento do vínculo, passou a aparecer em registros empresariais como dirigente de companhias ligadas ao advogado.
Ao longo dos anos seguintes, o nome de Lídia apareceu na administração de empresas de diferentes setores, incluindo aviação, imóveis, comunicação, mineração, investimentos e meios de pagamento. Entre os negócios estão uma empresa relacionada a propriedades em Angra dos Reis, a Ícaro Aviation, que opera um hangar para jatos executivos em Brasília, e a RioPag, companhia contratada para processar pagamentos de casas de apostas credenciadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).
Mudança de função aparece nos registros empresariais
Segundo o levantamento publicado pelo ICL, Lídia manteve vínculo formal com o escritório Willer Tomaz Advogados de 25 de março de 2019 a 1º de setembro de 2020.
Quatro dias depois, em 5 de setembro, ela já aparecia como dirigente da Jet Line Locação e Serviços Aéreos. Na mesma época, também passou a ocupar cargo de direção na WT Administração de Imóveis e Bens.
O nome de Lídia posteriormente apareceu em outras empresas, entre elas Difusora Comunicação, Embrasis, Jota Comunicação, Rádio Caxias, Carbon Cer, Alcazar, RioPag, Friponor, Capital Pretium, Neoverde e Ícaro Aviation.
A reportagem do ICL também identificou registros nos quais Lídia aparece como diretora ou presidente de empresas relacionadas ao grupo empresarial de Tomaz.
A própria Lídia, porém, contestou a interpretação dada aos registros. Em manifestação divulgada após a reportagem, afirmou ser bacharel em Administração, formada em 2002, e disse ter trabalhado com carteira assinada desde 2010 em empresas de serviços, escritórios de advocacia e companhias de consultoria e aviação.
Segundo ela, os cargos empresariais não eram apenas formais.
“Não fui dirigente ‘no papel’”, afirmou Lídia em sua manifestação, acrescentando que assinou atos de gestão e exerceu efetivamente as funções.
Mansão em Angra dos Reis
Entre os negócios relacionados ao nome de Lídia está a WT Administração de Imóveis e Bens, empresa que aparece em registros ligados a propriedades na Ilha Comprida, em Angra dos Reis.
Uma das propriedades esteve no centro de uma disputa judicial envolvendo uma empresa ligada ao jogador Richarlison. Segundo o material publicado pelo ICL, Lídia assinou documentos relacionados ao imóvel na condição de dirigente da WT.
Flávio Bolsonaro também apareceu no contexto da disputa. Segundo reportagem anteriormente publicada pelo Metrópoles, o senador foi arrolado como testemunha no processo. O ICL também reproduziu o relato de Antônio Marcos da Silva, que afirmou ter apresentado Willer Tomaz a Flávio durante uma visita ao imóvel.
A assessoria de Tomaz nega que Flávio tenha qualquer participação na aquisição ou propriedade da mansão.
“Flávio Bolsonaro não participou da aquisição e não tem qualquer participação no imóvel”, afirmou a assessoria do advogado.
As decisões judiciais relacionadas à posse do imóvel, segundo a defesa de Tomaz, foram favoráveis ao advogado e já transitaram em julgado.
Ilha avaliada em R$ 17 milhões
A rede empresarial também alcança a Friponor Brasil Turismo, empresa que, segundo o levantamento, possui relação com a Ilha do José André, em Angra dos Reis.
A propriedade, com aproximadamente 56 mil metros quadrados, chegou a ser anunciada por R$ 17 milhões em site especializado em imóveis de luxo.
Lídia aparece como presidente da empresa a partir de novembro de 2023. Em 2025, assinou pedido dirigido ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para obter informações sobre a possibilidade de implantação de empreendimento turístico na área.
O episódio ganhou novo contexto político porque, durante um ato de campanha em Angra dos Reis, Flávio Bolsonaro defendeu mudanças nas regras de licenciamento para empreendimentos como condomínios e resorts na região.
A existência dessa coincidência, por si só, não demonstra relação entre a manifestação política do senador e os interesses empresariais da companhia.
Empresa de pagamentos das bets
Outro ponto da investigação envolve a RioPag, antiga Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia.
A empresa foi contratada pela Loterj para realizar operações de pagamentos, depósitos e saques relacionados às casas de apostas autorizadas pelo governo fluminense. O contrato citado pelo ICL foi estimado em aproximadamente R$ 32 milhões, com duração de cinco anos.
Segundo reportagens citadas pelo levantamento, a contratação ocorreu depois de uma licitação na qual duas empresas participaram. A concorrente Idea Maker acabou desclassificada por uma questão relacionada à forma como apresentou o percentual de repasse previsto no edital.
Com a desclassificação, a Pixs permaneceu na disputa e posteriormente acertou com a Loterj uma taxa de repasse de 26,455%.
A empresa posteriormente transferiu sua sede do Paraná para o Rio de Janeiro e passou a ter Lídia em sua direção.
O caso também é alvo de questionamentos públicos. Segundo reportagem do Metrópoles citada pelo ICL, a Loterj acusa a RioPag de não repassar R$ 20,9 milhões ao Estado. A acusação deve ser tratada como alegação, enquanto eventuais responsabilidades dependem das apurações e decisões competentes.
A relação entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro
A relação entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro é pública. Durante a CPI da Covid, em 2021, o senador se referiu ao advogado como “meu amigo Willer Tomaz”. No ano seguinte, Flávio tentou indicar Tomaz para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça, mas a indicação não avançou.
Segundo reportagem de O Globo, a Polícia Federal identificou viagens internacionais realizadas pelos dois em 2025. Uma delas teria ocorrido para a África do Sul, com participação das famílias e do senador Weverton Rocha.
Tomaz e Flávio negam que sejam sócios ou mantenham negócios em comum.
Ainda segundo reportagens citadas pelo ICL, os dois aparecem na defesa de um mesmo cliente em uma disputa judicial de R$ 159 milhões no Superior Tribunal de Justiça.
Outro elo citado nas reportagens envolve o escritório de advocacia aberto por Flávio em Brasília. Uma profissional entrevistada pela Agência Pública afirmou ter sido indicada por Willer Tomaz para administrar o escritório. O advogado negou a informação.
Operação Sem Desconto
O nome de Willer Tomaz também aparece no contexto da Operação Sem Desconto, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.
Tomaz foi alvo de diligência no âmbito da operação, segundo o material publicado pelo ICL. O advogado nega envolvimento no esquema e afirma que a Procuradoria-Geral da República se manifestou contra a diligência por considerar que não havia ligação dele com as fraudes investigadas.
A existência de uma diligência policial ou de uma investigação não significa, por si só, que uma pessoa tenha cometido crime. Eventuais responsabilidades dependem da investigação, da produção de provas e das decisões judiciais.
A resposta de Lídia
Depois da publicação da reportagem original, Lídia divulgou manifestação contestando a descrição feita sobre sua trajetória profissional. Ela afirma que nunca foi empregada doméstica, que possui formação superior em Administração e que exerceu efetivamente funções de gestão nas empresas.
Também criticou a forma como foi abordada pelos jornalistas e afirmou que a exposição do prédio onde mora e de informações sobre sua família poderia colocar sua segurança em risco.
Willer Tomaz também contestou a reportagem. Sua assessoria afirma que Lídia é administradora de empresas, possui experiência profissional e ocupou cargos de gestão nas companhias do grupo.
A defesa também rejeita qualquer participação de Flávio Bolsonaro na aquisição da mansão de Angra dos Reis e afirma que Tomaz não é investigado por desvios contra aposentados.
O conjunto de registros empresariais, vínculos profissionais, propriedades e relações comerciais descrito nas reportagens coloca sob escrutínio uma rede empresarial que envolve pessoas próximas a figuras políticas e empresas submetidas a contratos e disputas de interesse público. Os vínculos documentados, entretanto, não permitem concluir, isoladamente, que tenha havido ilegalidade ou participação de Flávio Bolsonaro em negócios de Willer Tomaz.


