Campanha de Lula questiona debate da Globo e coordenador chama Flávio de “miliciano”

0
83
Em entrevista ao UOL, Carvalho afirmou que não vê sentido em Lula participar de um debate de primeiro turno com Flávio Bolsonaro (PL), a quem chamou de “miliciano pior que o pai”. Foto Divulgação/Pregorrativas

Marco Aurélio de Carvalho defende ausência do presidente no debate do dia 1º, enquanto Flávio Bolsonaro confirma presença mesmo sem a participação do petista

<OUÇA A REPORTAGEM>

<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp

Por Sandra Venancio – Jornal Local

A participação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no debate presidencial da TV Globo, marcado para quinta-feira (1º), entrou no centro da disputa eleitoral depois que Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha do presidente em São Paulo, declarou ser contrário à presença do candidato no encontro. Em entrevista ao UOL, Carvalho afirmou que não vê sentido em Lula participar de um debate de primeiro turno com Flávio Bolsonaro (PL), a quem chamou de “miliciano pior que o pai”.

A manifestação ocorreu depois de Flávio Bolsonaro confirmar que pretende comparecer ao debate mesmo que Lula não participe. Em declaração divulgada pelo UOL, o candidato do PL afirmou que seu principal adversário é Lula e que pretende usar o encontro para confrontá-lo politicamente.

A estratégia diante do debate

Carvalho argumenta que Lula já participou de sabatinas e entrevistas durante a campanha e que o presidente apresentou seu programa de governo ao eleitorado. Na avaliação do coordenador, essas atividades reduzem a necessidade de uma participação no debate de primeiro turno.

A decisão, entretanto, ocorre em um momento de disputa mais apertada nas pesquisas. Levantamentos recentes mostram diferenças pequenas entre Lula e Flávio em determinados cenários, embora os resultados variem conforme o instituto, a metodologia e o período de realização das entrevistas. A pesquisa Quaest divulgada em 21 de setembro, por exemplo, registrou 37% para Lula e 33% para Flávio no primeiro turno, com margem de erro de dois pontos percentuais.

A própria campanha de Lula vinha discutindo a presença do presidente no debate da Globo. Reportagem da Folha informou que o avanço de Flávio nas pesquisas havia levado aliados do petista a reavaliar a estratégia e defender a participação de Lula no encontro.

A Globo marcou o debate para três dias antes da votação. Segundo informações divulgadas pela Folha, integrantes da campanha de Flávio avaliavam que o encontro poderia favorecer o senador justamente por colocar Lula, candidato à reeleição, diante de questionamentos sobre o governo.

Ataques entre os candidatos

O debate previsto para quinta-feira ocorre depois de uma escalada dos ataques entre Lula e Flávio. Na propaganda eleitoral, Lula passou a relacionar o adversário a episódios envolvendo crime organizado, citando reportagens sobre uma assessora de Flávio que teria negociado, em 2023, a liberação de emendas parlamentares com Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, condenado no caso relacionado ao assassinato de Marielle Franco.

A existência dessas reportagens e das investigações não significa, por si só, que Flávio Bolsonaro tenha participado dos crimes atribuídos a terceiros. O senador contesta as acusações e afirma que os repasses foram legais e baseados em critérios técnicos.

Flávio também enfrenta questionamentos políticos sobre sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Segundo reportagem da Folha, um áudio divulgado em maio registra o senador pedindo dinheiro ao empresário para concluir o filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro. O caso passou a integrar os temas utilizados por adversários para questionar a campanha do candidato do PL.

O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida

Outro assunto que deve permanecer no debate eleitoral é a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Flávio Bolsonaro acusou pessoas ligadas à CNBB de participação em uma articulação com o PT para disseminar informações falsas sobre a padroeira do Brasil. A CNBB rejeitou a acusação.

A questão ganhou dimensão judicial depois que uma publicação do humorista Antonio Tabet, que associava a chamada “família miliciana” a um suposto ataque a Nossa Senhora Aparecida, foi retirada por decisão do ministro André Mendonça, do TSE. Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou a restauração do conteúdo, entendendo que não havia grau suficiente de certeza sobre a ilicitude da publicação para justificar a remoção sem instrução processual adequada.

O episódio acrescentou um componente religioso à disputa presidencial e levou o tema para além da tradicional polarização entre os dois grupos políticos.

O debate como palco da reta final

Flávio Bolsonaro decidiu manter sua participação mesmo sem garantia de que Lula estará no palco. A estratégia permite ao candidato apresentar suas críticas ao governo diante de uma audiência nacional, mas também o coloca diante de perguntas dos demais concorrentes e dos jornalistas.

Lula, por sua vez, enfrenta uma decisão diferente: participar significa abrir espaço para questionamentos sobre seu governo e para confrontos diretos com os adversários; não participar deixa o púlpito reservado ao candidato vazio e permite que os demais concorrentes discutam suas propostas e críticas sem a resposta presencial do presidente.

A discussão sobre a presença de Lula não é inédita. Em 2006, quando buscava a reeleição, o presidente não participou dos debates do primeiro turno. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) também não participou de debates em 1998, quando disputou a reeleição.

A diferença em 2026 está no grau de disputa registrado nas pesquisas. Os levantamentos recentes apresentam cenários próximos entre Lula e Flávio, embora com resultados diferentes conforme instituto e metodologia. Por isso, a decisão sobre o debate ocorre em um ambiente no qual cada exposição pública pode ter peso na comunicação das campanhas, sem que pesquisas isoladas permitam determinar o resultado da eleição.

O encontro da Globo está marcado para 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno. Até lá, a questão central para as duas campanhas será menos a existência do confronto e mais o que cada candidato pretende fazer com o último grande palco televisivo da campanha presidencial.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui