
Segundo o comentarista Valdo Cruz, da GloboNews, integrantes da campanha do candidato do PL reconheceram que a estratégia digital do deputado pode ter produzido efeito contrário ao esperado
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Integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) passaram a atribuir ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) parte do desempenho eleitoral desfavorável do candidato no Nordeste, após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), concluída neste domingo (25). A informação foi divulgada pelo comentarista Valdo Cruz, da GloboNews, que relatou ter ouvido integrantes da própria campanha reconhecerem que a série de vídeos produzida pelo parlamentar para mobilizar eleitores nordestinos pode ter sido um erro estratégico.
“A própria campanha do Flávio reconheceu para mim que foi um erro. No início, acharam que foi muito acertado”, afirmou Valdo Cruz, ao comentar a avaliação interna sobre os vídeos. O relato indica uma revisão de estratégia após o resultado das urnas, mas não demonstra, isoladamente, que as publicações tenham determinado o comportamento eleitoral.
A diferença nas urnas
Os números do segundo turno mostram a dimensão da vantagem de Lula no Nordeste. O presidente obteve aproximadamente 24,45 milhões de votos na região, equivalentes a 69,37% dos votos válidos, enquanto Flávio recebeu cerca de 10,8 milhões. A diferença de aproximadamente 13,65 milhões de votos ajudou a compensar o desempenho do candidato petista em regiões onde Flávio teve maior votação, especialmente no Sul, no Centro-Oeste e em parte do Sudeste.
Na comparação entre os turnos, Lula ampliou sua votação nordestina em cerca de 2,95 milhões de votos, enquanto Flávio acrescentou aproximadamente 397 mil. O resultado ocorreu em um contexto de mobilização de lideranças regionais, governadores, prefeitos e parlamentares ligados à campanha petista.
Depois do primeiro turno, a estratégia de Lula também passou a contar com uma atuação mais concentrada de lideranças nordestinas. Camilo Santana participou da articulação política, Rui Costa atuou na organização da agenda e Rafael Fonteles ficou ligado à comunicação. Atos públicos, carreatas e ações para estimular o comparecimento às urnas integraram a mobilização.
O vídeo que provocou controvérsia
Publicado em 20 de outubro, o vídeo “O Nordeste que foi esquecido” reuniu depoimentos de cinco moradores de Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia. Na gravação, os entrevistados relataram dificuldades relacionadas à saúde, ao saneamento e ao custo de vida, em uma produção voltada a criticar a administração federal e influenciar o debate eleitoral na região.
A escolha do município chamou a atenção porque Nikolas havia apresentado anteriormente Luís Eduardo Magalhães como exemplo de desenvolvimento associado ao agronegócio. A cidade está localizada no oeste baiano, uma área marcada pela expansão da produção agrícola. A equipe do deputado confirmou ao Poder360 que as gravações haviam sido feitas no município.
A divulgação de imagens dos bastidores ampliou a controvérsia. Os registros mostraram equipamentos profissionais, iluminação, teleprompter e integrantes da equipe orientando os enquadramentos. Em uma das cenas, um integrante da produção comenta sobre uma antena parabólica que aparecia no cenário: “Essa antena é mais tecnológica, né, não?”. Após a mudança do enquadramento, Nikolas reage: “Putz, melhorou mil por cento”.
Em outro trecho, uma voz da equipe comenta sobre a expressão de uma entrevistada: “Ela faz uma cara de coitada, que chega a dar dó”. As falas provocaram críticas nas redes sociais sobre a construção das imagens e a maneira como os moradores foram apresentados ao público.
O uso de equipamentos profissionais, por si só, não comprova manipulação dos depoimentos. A controvérsia está relacionada à seleção dos cenários, à orientação das cenas e à forma como as imagens foram utilizadas para sustentar uma mensagem política.
Dados regionais e realidade local
Outro ponto questionado foi o uso de indicadores sociais de todo o Nordeste ao final da gravação, embora as entrevistas tenham sido realizadas em um único município. Estatísticas regionais podem demonstrar problemas existentes em uma área ampla, mas não descrevem automaticamente as condições específicas de cada cidade ou comunidade.
Moradores também contestaram a imagem de abandono apresentada no vídeo e mencionaram ações anteriores de acesso à água, energia elétrica e crédito agrícola. Essas manifestações constituem contrapontos à narrativa da produção, mas precisam ser examinadas à luz de dados públicos e das condições efetivamente encontradas em cada localidade.
O deputado federal Pedro Campos (PSB-PE) também questionou informações relacionadas a um dos entrevistados, conhecido como Binha, e mencionou a existência de uma caminhonete e de uma residência em condições diferentes das sugeridas pelas imagens. Essas afirmações foram divulgadas por adversários políticos e não devem ser tratadas como fatos definitivamente comprovados sem documentação independente.
O resultado em Luís Eduardo Magalhães
A votação no próprio município oferece outro dado para a análise. Segundo os números apresentados na apuração sobre o caso, Lula passou de 20.173 votos no primeiro turno para 24.739 no segundo, crescimento de aproximadamente 22,6%. Flávio avançou de 38.496 para 39.688 votos, aumento de cerca de 3,1%.
Apesar do crescimento proporcionalmente maior de Lula, Flávio manteve a liderança no município. O resultado demonstra que o candidato do PL ampliou sua votação, mas em ritmo inferior ao do adversário naquele território.
A comparação não permite concluir que o vídeo tenha provocado o avanço de Lula. Para estabelecer uma relação causal, seria necessário avaliar outros fatores, como a distribuição dos votos por seção eleitoral, a transferência de eleitores de candidatos eliminados no primeiro turno, a abstenção e o alcance efetivo da publicação.
O episódio, entretanto, expõe um desafio das campanhas digitais: uma peça criada para reforçar determinada narrativa pode gerar uma discussão pública diferente da planejada quando os bastidores, a escolha dos cenários e a coerência dos dados passam a ser questionados. No caso de Nikolas, a avaliação atribuída à campanha de Flávio indica que a estratégia está sendo revista depois do resultado eleitoral.


