Investigação autorizada pelo STF apura origem, movimentação e destino de recursos ligados ao filme sobre Jair Bolsonaro; novas notas fiscais e atuação legislativa ampliaram o conjunto de fatos sob análise.
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O caso Dark Horse completa 100 dias nesta sexta-feira (21) sem que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenha divulgado integralmente o contrato de financiamento do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, apesar de ter prometido tornar o documento público. Nesse período, a Polícia Federal abriu investigação para apurar a origem, a movimentação e a destinação de recursos associados à produção, enquanto novos documentos ampliaram a apuração sobre a relação do senador com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A investigação formal foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 23 de julho, após manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). A PF pretende verificar, entre outros pontos, se os valores enviados para financiar Dark Horse foram efetivamente utilizados na produção e se houve eventual destinação diferente daquela apresentada pelos envolvidos.
A promessa que ainda não foi cumprida
A origem do caso está em uma reportagem publicada em 13 de maio, que revelou áudios, mensagens e documentos relacionados às negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar o filme.
Nas conversas reveladas, o senador aparece negociando recursos para a produção. A negociação chegou a um valor de até US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação utilizada na época. Documentos apontaram transferências de pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, para uma estrutura financeira ligada à produção.
Inicialmente, Flávio negou ter pedido dinheiro a Vorcaro. Depois da divulgação das gravações, confirmou que havia negociado o financiamento e afirmou que se tratava de uma operação privada para um filme privado, sem irregularidades.
Dois dias depois da revelação, o senador afirmou que estava “100% disposto” a tornar público o contrato de investimento. Também anunciou que havia solicitado uma prestação de contas da produção.
O documento, entretanto, não foi divulgado integralmente ao público.
A situação ganhou novo peso depois que o inquérito foi aberto. A investigação agora poderá verificar, com instrumentos próprios da apuração policial, a origem e o caminho dos recursos, além de confrontar documentos, contratos, transferências e informações apresentadas pelos envolvidos.
O dinheiro do filme onde foi parar?
Um dos pontos centrais da investigação é identificar exatamente quem financiou a produção e qual foi o destino dos recursos.
Segundo os documentos divulgados, parte dos valores foi transferida para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos. A estrutura financeira passou a ser examinada pela PF porque os investigadores querem saber quem efetivamente aportou os recursos e como o dinheiro chegou à produção.
A produtora Go Up apresentou posteriormente uma perícia privada segundo a qual o filme teria custado aproximadamente US$ 13,4 milhões, com cerca de US$ 13,3 milhões em aportes do Havengate. A documentação, porém, não identificou nominalmente os financiadores finais do fundo.
Há, portanto, uma diferença entre os valores que aparecem nas diferentes etapas do caso: a negociação inicialmente mencionada chegava a US$ 24 milhões; as transferências identificadas somavam pelo menos US$ 10,6 milhões; e a perícia apresentada pela produtora apontou US$ 13,3 milhões em aportes ao fundo.
É justamente essa diferença que torna a rastreabilidade financeira um dos pontos relevantes da investigação.
Notas fiscais ampliaram a apuração
Depois da divulgação do caso Dark Horse, também vieram a público três notas fiscais que totalizam R$ 1,5 milhão e foram emitidas pelo escritório ligado a Flávio para empresas associadas ao entorno empresarial de Vorcaro.
Duas notas, de R$ 500 mil cada, foram emitidas em abril de 2025 para a Copenhagen Consultoria e Assessoria e canceladas no mesmo dia. Uma terceira, também de R$ 500 mil, foi emitida para a Contábil Correa e, segundo os documentos analisados, não havia registro de cancelamento.
As empresas tinham ligação societária por meio de Rogério Lourenço Novo, que aparecia como diretor da Contábil Correa e sócio-administrador da Copenhagen.
A Copenhagen havia sido criada em novembro de 2024 com capital social de R$ 40 e posteriormente apareceu em movimentações relacionadas ao Banco Master. Documentos encaminhados à PGR apontaram movimentações de R$ 58 milhões oriundas do banco.
Flávio afirmou que as relações comerciais de seu escritório eram privadas e legais e negou ter prestado serviços à Copenhagen.
A proximidade temporal é um dos elementos que justificam a apuração: Flávio afirma ter conhecido Vorcaro em dezembro de 2024; os repasses destinados ao filme começaram nos meses seguintes; e as notas fiscais foram emitidas em abril de 2025.
Emendas parlamentares entram no radar
A apuração também passou a considerar a atuação legislativa de Flávio Bolsonaro em temas que poderiam afetar setores nos quais empresas ligadas ao grupo de Vorcaro tinham interesses.
Entre as medidas está a Emenda 157 à Medida Provisória 1.308/2025. O dispositivo buscava restabelecer proteção semelhante à prevista no artigo 58 da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que havia sido vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo o material analisado, a mudança poderia reduzir a exposição jurídica de instituições financeiras que financiassem empreendimentos sujeitos a licenciamento ambiental.
Naquele período, o Banco Master possuía operações em setores afetados pelas regras ambientais. Um dos exemplos citados é um financiamento de R$ 152,9 milhões à empresa 3D Minerals, relacionada a áreas de minerais críticos.
Flávio também apresentou outras duas emendas, identificadas como 162 e 163, relacionadas a regras ambientais e licenciamento.
A existência das emendas não demonstra, por si só, que tenham sido apresentadas em benefício de Vorcaro ou de empresas ligadas a ele. O ponto a ser esclarecido é se existe alguma conexão objetiva entre a atuação parlamentar, os interesses empresariais do grupo e as relações financeiras investigadas.
O que a Polícia Federal está investigando
O inquérito autorizado por André Mendonça tem como objetivo esclarecer a origem e a destinação dos recursos relacionados ao filme.
Entre as questões que podem ser examinadas estão a trajetória das transferências internacionais, os contratos de investimento, os beneficiários dos recursos e a efetiva utilização do dinheiro na produção.
A PF também analisa a possibilidade de parte dos recursos ter sido utilizada para finalidades diferentes da produção cinematográfica, incluindo eventual financiamento de atividades de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. Eduardo e Flávio negam irregularidades.
A própria abertura do inquérito não significa que a Polícia Federal tenha concluído pela existência de crime. Trata-se justamente da etapa destinada a reunir provas e esclarecer as suspeitas.
Quem autorizou e quem fiscaliza
O caso ganhou uma dimensão institucional porque envolve diferentes órgãos.
A Polícia Federal conduz a investigação. A PGR se manifestou favoravelmente à abertura do inquérito. E André Mendonça, ministro do STF, autorizou a investigação e passou a ser o relator do caso.
Há ainda outra frente investigativa relacionada a possíveis emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à produção do filme, sob relatoria do ministro Flávio Dino, também no Supremo.
A concentração de diferentes linhas de investigação no STF aumenta a importância das decisões dos ministros responsáveis por cada procedimento, especialmente porque o caso ocorre durante o período que antecede as eleições de 2026.
Página virada, diz Flávio
Em 20 de agosto, Flávio afirmou que o episódio era uma “página virada” e passou a cobrar explicações de Lula e de seu filho, Lulinha. Segundo informações divulgadas nesta sexta-feira, o senador sustenta que a prestação de contas do filme já foi realizada e nega irregularidades.
Ao mesmo tempo, parlamentares do PT continuam cobrando a divulgação dos documentos relativos ao financiamento. O deputado Rui Falcão (PT-SP), por exemplo, voltou a exigir transparência sobre os recursos destinados à produção.
100 dias depois
Cem dias depois da revelação inicial, algumas perguntas continuam sem resposta pública completa.
Quem foram os financiadores finais dos recursos? Qual foi exatamente o caminho do dinheiro entre os aportes realizados por empresas e fundos e a produção? Quanto efetivamente foi gasto no filme? Por que os valores apresentados nas diferentes etapas da negociação são diferentes? E existe alguma relação entre os negócios privados do escritório de Flávio, as empresas ligadas ao entorno de Vorcaro e sua atuação parlamentar?
A principal questão que permanece sem resposta é justamente aquela que o senador afirmou que esclareceria voluntariamente: qual foi a origem exata dos recursos, quem efetivamente financiou o filme e como cada parcela foi utilizada?



