Entidade ligada à Igreja Universal acumula milhões em verbas no governo Tarcísio e contratos ampliam recursos públicos para entidade ligada à Universal

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ABADS recebeu destinações parlamentares, mantém parcerias com secretarias estaduais e utiliza imóvel municipal sem aluguel; documentos mostram relações que atravessam diferentes áreas do poder público

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A Associação Brasileira de Assistência e Desenvolvimento Social (ABADS), entidade que mantém relação histórica com a Igreja Universal do Reino de Deus, recebeu mais de R$ 6 milhões em emendas parlamentares de deputados estaduais do Republicanos desde 2023 e, paralelamente, mantém instrumentos de parceria com diferentes áreas do governo de São Paulo. Apenas para 2026, a Secretaria Estadual da Educação prevê R$ 3,38 milhões para a instituição. A entidade também possui parcerias com as secretarias da Saúde e de Desenvolvimento Social, projetos financiados pelo Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONDECA) e utiliza gratuitamente, por 40 anos, um imóvel pertencente à Prefeitura de São Paulo.

A relação política ganha relevância porque pelo menos cinco deputados do Republicanos aparecem entre os parlamentares que destinaram recursos à ABADS desde 2023: Edna Macedo, Altair Moraes, Gilmaci Santos, Sebastião Santos e Danilo Campetti. O Republicanos possui uma relação histórica com a Igreja Universal, embora partido e igreja sejam instituições distintas. Entre os parlamentares está Edna Macedo, irmã de Edir Macedo, fundador da Universal.

A própria Igreja Universal registra em seus canais oficiais que sua aproximação com a instituição começou em 1992, quando a então Sociedade Pestalozzi de São Paulo enfrentava dificuldades financeiras. Segundo o relato da igreja, integrantes da Universal passaram a participar da entidade. A antiga Sociedade Pestalozzi posteriormente passou a se chamar Associação Brasileira de Assistência e Desenvolvimento Social.

Dinheiro público em várias frentes

Os mais de R$ 6 milhões em emendas parlamentares não devem ser simplesmente somados aos valores dos convênios firmados pelo governo estadual. Em determinados casos, a própria emenda parlamentar é executada por meio de um convênio ou termo de fomento. Fazer a soma sem identificar a origem de cada recurso poderia contar o mesmo dinheiro duas vezes.

O que os documentos permitem observar é outra questão: a ABADS estabeleceu uma presença recorrente em diferentes estruturas da administração pública paulista.

Na área da Saúde, por exemplo, em dezembro de 2023 foi firmado convênio de R$ 800 mil decorrente de emenda de Edna Macedo. Há ainda outro registro daquele período com R$ 400 mil destinados a custeio, material de consumo e prestação de serviços.

Na Secretaria de Desenvolvimento Social, um termo de fomento assinado em setembro de 2023 destinou R$ 300 mil à execução de atividades socioassistenciais. Outro instrumento daquele ano registrou R$ 200 mil para aquisições diversas da associação.

A destinação de recursos não ficou restrita a 2023. Os documentos analisados mostram recursos reservados por parlamentares do Republicanos em 2024, 2025 e novamente em 2026.

Em junho de 2026, a Secretaria da Saúde firmou novo convênio de R$ 300 mil com a entidade, destinado a custeio, material de consumo e prestação de serviços, com vigência até junho de 2027.

No mesmo mês, um termo aditivo ao Convênio nº 000974/2025 registrou R$ 998.424 para despesas com folha de pagamento e material de consumo no atendimento de pessoas com transtorno do espectro autista. O documento também ampliou de 50 para 74 o número de pacientes previstos.

A ABADS aparece ainda em projetos vinculados ao CONDECA. Entre eles está o “Brinquedoteca e Musicoterapia III”, com valor previsto de R$ 366,2 mil. Outro termo de fomento relacionado a chamada pública do conselho teve sua vigência prorrogada em agosto de 2026.

Educação prevê R$ 3,38 milhões

Uma das maiores parcerias identificadas está na área da Educação. Em dezembro de 2025, a Secretaria Estadual da Educação firmou termo de colaboração de R$ 3.385.107,79 com a ABADS, com vigência durante todo o ano de 2026.

O acordo prevê atendimento de estudantes com deficiências graves que necessitam de apoio permanente e que não puderam ser incluídos em classes comuns da rede regular. A parceria integra o modelo utilizado pelo Estado para atendimento especializado de estudantes com deficiência. A atuação da ABADS junto à Educação paulista, porém, não se resume ao repasse financeiro.

Em maio de 2024, a Diretoria de Ensino Região Centro publicou portaria convocando mais de 70 profissionais da rede estadual para participar do 2º Encontro de Formação para Professores do Atendimento Educacional Especializado.

A formação foi marcada para 14 de maio, das 8h às 14h, justamente na sede da ABADS, na Avenida Morvan Dias de Figueiredo, na Vila Guilherme, zona norte da capital.

A escolha do endereço merece atenção porque a atividade foi organizada no âmbito da própria estrutura educacional do Estado. Não se tratava apenas de uma atividade particular oferecida pela entidade: a Diretoria de Ensino convocou profissionais da rede para participar da formação realizada na sede da associação.

A ABADS também mantém uma escola de educação especial. Em julho de 2026, a Diretoria Regional de Ensino homologou o Plano Escolar 2026 da unidade.

Imóvel público cedido por 40 anos

A mesma sede utilizada pela ABADS para suas atividades e para a formação de profissionais da rede estadual está instalada em área pertencente à Prefeitura de São Paulo.

O município concedeu à associação o direito de utilizar gratuitamente o imóvel por 40 anos. A concessão prevê contrapartidas relacionadas ao atendimento de pessoas com transtorno do espectro autista e deficiência intelectual encaminhadas pela rede municipal de Saúde. Um termo de ajuste de contrapartida assinado em 2024 detalha as obrigações relacionadas ao uso da área.

Na prática, portanto, a relação entre a entidade e o poder público envolve duas dimensões diferentes. De um lado estão os recursos financeiros transferidos por meio de emendas, convênios e termos de fomento. De outro está um patrimônio municipal cujo uso foi concedido sem cobrança de aluguel, mediante a prestação de serviços à população.

O benefício econômico da cessão do imóvel não deve ser confundido com os valores das emendas e convênios. São instrumentos jurídicos distintos, com contrapartidas próprias.

A conexão com a Universal

A ABADS é uma instituição criada originalmente em 1952 como Sociedade Pestalozzi de São Paulo. A aproximação com a Igreja Universal do Reino de Deus ocorreu décadas depois.

A própria Universal afirma que, em 1992, integrantes da igreja se mobilizaram diante das dificuldades financeiras enfrentadas pela instituição e passaram a participar de sua estrutura.

Atualmente, a ABADS aparece entre os projetos sociais divulgados pela própria Igreja Universal.

Essa ligação ganha relevância na análise das emendas porque cinco parlamentares do Republicanos aparecem entre os autores de destinações para a instituição desde 2023. O partido tem vínculos históricos com integrantes da Universal, embora a existência desses vínculos políticos e religiosos não seja, isoladamente, prova de irregularidade na aplicação de recursos públicos.

O caso de Edna Macedo possui uma característica adicional: a deputada é irmã de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal.

Isso não significa que as emendas destinadas por ela à ABADS sejam ilegais ou que a entidade tenha recebido recursos de forma irregular. Mas a relação familiar e institucional torna pertinente verificar os critérios utilizados para a escolha da associação e comparar as destinações com aquelas recebidas por outras instituições que oferecem serviços semelhantes.

O que precisa ser fiscalizado

A questão central não é se uma entidade que atende pessoas com deficiência deve receber dinheiro público. Instituições especializadas podem receber recursos públicos quando cumprem requisitos legais, oferecem serviços de interesse público e são submetidas aos mecanismos de controle.

O ponto que merece investigação é se os critérios utilizados para selecionar a ABADS foram objetivos, transparentes e compatíveis com aqueles aplicados às demais organizações.

Também é necessário verificar quanto cada parlamentar destinou à entidade, qual secretaria executou cada emenda, qual foi o objeto de cada instrumento, quanto foi efetivamente pago e quais resultados foram entregues.

Outro aspecto importante é saber quem fiscalizou a aplicação dos recursos e se os relatórios de execução comprovaram o cumprimento das metas.

A recorrência das destinações também merece ser analisada. Quando uma mesma instituição recebe recursos de vários parlamentares e mantém simultaneamente diferentes parcerias com o Executivo, a fiscalização precisa considerar o conjunto das relações, e não apenas cada contrato isoladamente.

É igualmente necessário separar os recursos públicos destinados à ABADS por meio de emendas parlamentares dos valores provenientes de contratos ou termos de colaboração firmados diretamente pelas secretarias. Sem essa distinção, não é possível dimensionar corretamente o volume efetivamente recebido pela entidade.

Uma rede que atravessa governos e poderes

Os documentos apontam para uma rede institucional que envolve Legislativo, Executivo estadual e Prefeitura de São Paulo.

No Legislativo, deputados do Republicanos indicam recursos para a entidade. No Executivo estadual, Saúde, Educação e Desenvolvimento Social mantêm instrumentos de parceria. No âmbito municipal, a ABADS utiliza um imóvel público gratuitamente por quatro décadas, mediante contrapartidas.

Identificar se existe apenas uma convergência legítima entre uma entidade especializada e diferentes órgãos públicos ou se há algum padrão de favorecimento que não seja explicado exclusivamente pela qualidade e pela demanda dos serviços prestados.

Comparar a ABADS com organizações semelhantes: quantas receberam emendas dos mesmos deputados, quais valores foram destinados, quais instituições possuem convênios equivalentes com o Estado e quais critérios técnicos foram utilizados para selecionar cada uma.

Esse cruzamento também pode revelar se a concentração de recursos no Republicanos é proporcional à representação do partido na Assembleia Legislativa ou se a entidade recebe uma quantidade desproporcional de recursos de parlamentares ligados ao mesmo grupo político.

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