Reaproximação entre Planalto e presidente do Senado ocorre após derrota do governo na indicação de Jorge Messias ao STF e em meio à negociação de pautas prioritárias para o segundo semestre
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a se reunir nesta sexta-feira (14) com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), no Palácio da Alvorada, em Brasília. O encontro, realizado pela manhã e sem previsão nas agendas oficiais, foi o terceiro entre os dois em cerca de dez dias e reforça a tentativa de reconstrução da relação entre o governo federal e o comando do Senado. A aproximação ocorre depois de meses de desgaste político e em um momento de negociação de projetos considerados prioritários pelo Palácio do Planalto.
A retomada das conversas ganhou força depois de um jantar realizado em 4 de agosto, na residência do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, que contou também com a participação do ministro Cristiano Zanin. Nos dias seguintes, Lula e Alcolumbre voltaram a conversar diretamente. Na quarta-feira (12), os dois tiveram uma reunião de aproximadamente duas horas, acompanhada pelo ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, e pela líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE).
O movimento tem consequência direta sobre a agenda legislativa. Após a nova aproximação, Alcolumbre encaminhou para tramitação no Senado propostas que estavam entre as prioridades do governo, incluindo a PEC que trata do fim da escala de trabalho 6×1, a PEC da Segurança Pública e o projeto sobre minerais críticos e estratégicos. A proposta do fim da escala 6×1 já havia avançado na Câmara e agora deverá passar pelas comissões do Senado.
A crise após a indicação de Messias
O principal episódio que deteriorou a relação entre Lula e Alcolumbre ocorreu em abril, quando o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. O advogado-geral da União havia sido indicado por Lula para ocupar a vaga aberta com a saída de Luís Roberto Barroso.
A indicação chegou a avançar na Comissão de Constituição e Justiça, onde Messias foi aprovado por 16 votos a 11. No plenário, porém, o resultado foi invertido: 42 senadores votaram contra e 34 a favor. Eram necessários pelo menos 41 votos favoráveis. Segundo a Agência Senado, foi a primeira rejeição de uma indicação presidencial ao STF em 132 anos.
Antes da votação, Alcolumbre afirmou que havia cumprido suas atribuições constitucionais e regimentais na tramitação da indicação. O presidente do Senado também criticou a demora do Executivo em formalizar o nome de Messias: embora a escolha tivesse sido anunciada anteriormente, a mensagem oficial somente chegou ao Senado em abril.
A derrota expôs a força política de Alcolumbre dentro do Senado e evidenciou a dificuldade do governo em controlar a pauta da Casa. Reportagem da Reuters apontou que o episódio representou uma derrota histórica para Lula e mostrou a capacidade de articulação do presidente do Senado contra a indicação do Planalto.
O que está por trás da reaproximação
A reconstrução da relação não ocorre apenas por uma questão institucional. Há interesses políticos dos dois lados envolvidos nas negociações.
Para o governo Lula, recuperar uma interlocução estável com Alcolumbre significa aumentar a possibilidade de avanço de projetos considerados importantes antes do período eleitoral e reduzir o risco de novas derrotas no Senado. Entre os temas que ganharam impulso estão o fim da escala 6×1 e a agenda de segurança pública.
Para Alcolumbre, a aproximação também ocorre em um ambiente de disputa política. O presidente do Senado trabalha para consolidar sua permanência no comando da Casa, enquanto negocia com diferentes grupos partidários. A relação com o Executivo pode ser relevante para essa articulação, mas não significa necessariamente alinhamento automático com o governo.
Há ainda uma dimensão eleitoral. Lula avalia apoiar o governador do Amapá, Clécio Luís (União Brasil), aliado de Alcolumbre, na disputa estadual. Segundo informações publicadas pela imprensa, o assunto já teria sido discutido nas conversas entre os dois líderes.
O cenário, portanto, indica uma reacomodação política baseada em interesses institucionais, legislativos e eleitorais. A reaproximação reduz a tensão entre Planalto e Senado, mas não elimina as divergências que ficaram evidentes após a rejeição de Jorge Messias.



