Novos elos entre Grupo Maya e entorno de Vorcaro ampliam investigação sobre cemitérios de São Paulo

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Dino também delimitou a investigação para impedir que a Polícia Federal conduzisse diretamente medidas contra o ministro André Mendonça. Segundo a decisão, eventual investigação que envolva ministro do STF deve seguir o procedimento próprio da Corte. Foto STF/Divulgação

Documentos da Junta Comercial apontam sobreposição de empresas, dirigentes e endereço entre concessionária e empresa de planos funerários ligada a uma holding investigada no caso Banco Master

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

Uma nova conexão empresarial identificada em documentos da Junta Comercial de São Paulo ampliou o mapa de relações entre o Grupo Maya, concessionária responsável por cinco cemitérios municipais de São Paulo, e empresas ligadas ao entorno empresarial de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A apuração da Agência Pública e da newsletter Noites Húngaras aponta que a Maya Plano Funeral, empresa que funciona no mesmo endereço da concessionária e compartilha dirigentes com o Grupo Maya, tem entre suas sócias a AFC Holding SP Ltda., subsidiária da AFC Holding, empresa que aparece na teia societária investigada no caso Master.

O novo elo surge poucos dias depois de o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar que a Polícia Federal investigue as relações financeiras e societárias entre o Banco Master e concessionárias responsáveis por cemitérios de São Paulo. Na mesma decisão, Dino determinou que o Grupo Maya fosse incluído nas análises prioritárias e acionou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para levantar informações sobre fundos e empresas relacionados ao setor.

A investigação ganhou força depois que vieram a público dois financiamentos concedidos pelo Banco Master às empresas que controlavam a concessionária Cemitérios e Crematórios SP, ligada ao Grupo Maya. Os contratos somavam R$ 78 milhões e tinham como garantia a totalidade das ações da concessionária. Segundo a decisão de Dino, a estrutura contratual atribuía ao credor poderes sobre determinadas decisões societárias enquanto as obrigações permanecessem em aberto.

A ponte entre a concessionária e o grupo investigado

Segundo a apuração publicada nesta quinta-feira (24), a principal conexão empresarial identificada passa pela Maya Plano Funeral. A empresa está registrada no mesmo endereço do Grupo Maya, na Rua Fidêncio Ramos, na Vila Olímpia, e utiliza endereço eletrônico associado ao domínio da concessionária. Também há sobreposição entre administradores das duas estruturas.

Renato Medrado Geo, sócio da RMG Construções e Empreendimentos e presidente do Grupo Maya desde 2023, aparece também como administrador da Maya Plano Funeral. Alexandre Humberto Caramatti Manata, ligado à Conata Engenharia e ex-presidente da concessionária, também integra a administração da empresa de planos funerários. Wesley Bambirra, CEO da Infracon Engenharia, integra o conselho de administração do Grupo Maya.

A Maya Plano Funeral tem entre suas sócias a AFC Holding SP Ltda., subsidiária da AFC Holding. Segundo a apuração jornalística, a holding aparece em investigações relacionadas a negócios e ativos associados à família Vorcaro. O advogado Thiago Assumpção Henriques é apontado como administrador de estruturas empresariais que conectam essas empresas.

A existência desses vínculos societários, administrativos ou de endereço não comprova, por si só, participação em qualquer crime. O que muda é o número de conexões que passam a poder ser verificadas pelos órgãos de investigação.

Um antigo sócio de Vorcaro

Outro elemento identificado na apuração é a relação empresarial entre Daniel Vorcaro e Rodrigo Medrado Geo, irmão de Renato Medrado Geo.

Rodrigo, que também aparece ligado à estrutura da concessionária, foi sócio de Vorcaro na Itaminas, empresa do setor de mineração. Segundo a Agência Pública e a newsletter Noites Húngaras, Vorcaro adquiriu 50% da companhia em 2014 e posteriormente vendeu sua participação aos antigos sócios por R$ 700 milhões, pouco antes de ser preso pela primeira vez, em novembro de 2025.

Esse vínculo societário anterior não demonstra relação irregular com a concessão dos cemitérios. Ele, porém, passa a integrar o conjunto de relações empresariais que pode ser analisado no contexto da investigação determinada por Dino.

O caminho dos R$ 78 milhões

O financiamento concedido pelo Banco Master é outro ponto central da apuração.

As três empresas acionistas da concessionária, Conata Engenharia, Infracon Engenharia e RMG Construções e Empreendimentos, deram as ações que possuíam na concessionária como garantia dos dois financiamentos, que totalizaram R$ 78 milhões. De acordo com informações mencionadas na decisão de Dino, os contratos estabeleciam direitos ao credor sobre determinadas decisões da empresa enquanto os débitos permanecessem em aberto.

Os créditos também passaram por estruturas do conglomerado Master, incluindo a Master Holding, sediada nas Ilhas Cayman, antes de serem envolvidos em negociações relacionadas ao Banco de Brasília (BRB), segundo os elementos descritos na decisão judicial.

É justamente essa engenharia financeira que entrou no radar da investigação: qual foi a finalidade econômica dos financiamentos, quem efetivamente controlava os créditos, quais direitos foram adquiridos pelo credor e qual era o benefício econômico esperado com a operação?

São perguntas que precisam ser respondidas pelos documentos bancários, contratos e registros societários.

Cinco cemitérios sob concessão

O Grupo Maya administra os cemitérios Campo Grande, Lageado, Lapa, Parelheiros e Saudade, dentro do modelo de concessão dos cemitérios públicos paulistanos implantado em 2023.

A privatização dos cemitérios da capital também já foi alvo de questionamentos sobre preços e fiscalização. O STF determinou anteriormente medidas relacionadas aos valores cobrados pelos serviços funerários, enquanto a Prefeitura e os órgãos municipais responsáveis pela regulação afirmam acompanhar a situação econômico-financeira das concessionárias e fiscalizar os contratos.

A Prefeitura de São Paulo afirmou que relações societárias, financeiras ou bancárias mantidas pelas concessionárias com instituições privadas não configuram, isoladamente, irregularidade contratual e que a capacidade econômico-financeira das empresas é acompanhada pela administração municipal.

O caso chegou à Polícia Federal

Em 17 de setembro, Flávio Dino determinou que a Polícia Federal apurasse as relações entre o Banco Master e as concessionárias de cemitérios de São Paulo. A decisão incluiu o Grupo Maya no escopo de análise e determinou que a CVM levantasse informações sobre fundos e empresas relacionados às concessionárias.

Dino também delimitou a investigação para impedir que a Polícia Federal conduzisse diretamente medidas contra o ministro André Mendonça. Segundo a decisão, eventual investigação que envolva ministro do STF deve seguir o procedimento próprio da Corte.

A questão ganhou dimensão política depois de reportagens revelarem que Daniel Vorcaro se reuniu com Mendonça em março de 2025, quando o STF analisava medidas relacionadas às tarifas e à fiscalização dos cemitérios. No dia seguinte ao encontro, Mendonça pediu vista do processo. Posteriormente, ao devolver os autos, votou contra as medidas cautelares estabelecidas por Dino, segundo reportagem do UOL. A coincidência temporal foi registrada por Dino na decisão, mas não constitui, por si só, prova de que a reunião tenha influenciado o voto do ministro.

O novo levantamento sobre a Maya acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça: além dos financiamentos já conhecidos, existem sobreposições societárias, administrativas e empresariais que aproximam a concessionária de estruturas relacionadas ao entorno de Vorcaro.

A investigação da PF deverá esclarecer se essas conexões representam apenas relações empresariais legítimas ou se fazem parte de uma estrutura financeira mais ampla relacionada às operações do Banco Master. Até que as diligências sejam concluídas, nenhuma das conexões identificadas permite atribuir responsabilidade criminal aos empresários ou às empresas mencionadas.

Procurados pela imprensa, os empresários e empresas citados na apuração, além do ministro André Mendonça e da defesa de Daniel Vorcaro, não apresentaram manifestação até a publicação das reportagens consultadas. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.

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