Empresário ligado à Refinaria de Manguinhos é alvo da Operação Sem Refino, que investiga estruturas financeiras usadas para ocultação patrimonial e movimentação internacional de recursos

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O advogado e empresário Ricardo Magro, controlador do Grupo Refit e da antiga Refinaria de Manguinhos, voltou a ser alvo da Polícia Federal nesta sexta-feira (15) durante a Operação Sem Refino, que investiga supostas fraudes fiscais, ocultação patrimonial e evasão de recursos ao exterior envolvendo empresas do setor de combustíveis. A ofensiva também atingiu o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.
Agentes da PF cumpriram mandados em endereços ligados ao grupo empresarial em Jundiaí. Segundo a corporação, a investigação mira um conglomerado suspeito de utilizar estruturas societárias complexas para blindagem patrimonial, dissimulação de bens e envio de recursos ao exterior. O grupo é apontado por órgãos fiscais como um dos maiores devedores tributários do país.
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A trajetória empresarial de Ricardo Magro se mistura há anos com disputas judiciais, operações policiais e investigações tributárias envolvendo o mercado de combustíveis. Formado em Direito pela Universidade Paulista, Magro assumiu o comando da Refit em 2008 e passou a protagonizar embates públicos contra órgãos de fiscalização, distribuidoras e concorrentes do setor.
O empresário afirma ser vítima de perseguição institucional promovida por grandes grupos econômicos do mercado de combustíveis. Em entrevistas anteriores, chegou a acusar a Cosan — controladora da operação da Shell no Brasil — e o Instituto Combustível Legal (ICL) de articularem campanhas para retirá-lo do mercado. Também declarou ter sofrido ameaças atribuídas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
O nome de Magro já apareceu em diversas operações federais. Em 2016, ele foi alvo da Operação Recomeço, conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal para investigar supostos desvios de recursos de fundos de pensão ligados à Petrobras e aos Correios. Na ocasião, as investigações apontaram suspeitas de uso irregular de debêntures emitidas pelo Grupo Galileo, do qual Magro era sócio e advogado do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha.
Segundo o Ministério Público Federal, parte dos recursos captados teria sido desviada para contas bancárias ligadas aos investigados. Magro sempre negou irregularidades.
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Nos últimos anos, o grupo Refit também passou a ser citado em investigações sobre a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis. O nome da empresa apareceu em documentos da Operação Carbono Oculto, que apura a presença do PCC em esquemas de distribuição, adulteração e comercialização de combustíveis.
Embora a Refit não tenha sido alvo direto daquela operação, relatórios policiais indicaram fluxos comerciais envolvendo empresas posteriormente associadas ao esquema criminoso investigado. Magro rejeitou qualquer ligação com organizações criminosas e afirmou ter colaborado com autoridades para denunciar irregularidades no setor.
Paralelamente, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) travou sucessivas disputas com a Refinaria de Manguinhos. A agência questionou a efetiva atividade de refino exercida pela empresa, sustentando que haveria indícios de importação de combustíveis praticamente prontos, em vez da realização integral do processo de refino de petróleo.
A refinaria chegou a ser interditada diversas vezes. Em setembro do ano passado, operações da ANP suspenderam atividades da unidade. Após decisões conflitantes entre a Justiça do Rio de Janeiro e o Superior Tribunal de Justiça (STJ), a refinaria foi reaberta e posteriormente interditada novamente.
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As suspeitas sobre o grupo também avançaram para investigações sobre adulteração de combustíveis e sonegação fiscal. Em julho de 2024, o Ministério Público de São Paulo apontou a Refit entre empresas investigadas em esquemas envolvendo manipulação de bombas de combustíveis e evasão tributária.
Mesmo cercada por disputas judiciais e fiscais, a empresa ampliou investimentos em marketing esportivo e licenciamento de marcas internacionais. Em 2025, a Refit anunciou patrocínio à National Football League (NFL). Antes disso, lançou combustíveis associados à marca Ultimate Fighting Championship (UFC), numa estratégia de fortalecimento institucional e expansão comercial.
Investigadores avaliam que o caso da Refit expõe uma disputa estrutural envolvendo tributação no setor de combustíveis, um dos segmentos historicamente mais vulneráveis a fraudes fiscais sofisticadas no Brasil. Nos bastidores, integrantes da investigação apontam que a nova operação pode abrir caminho para apurações sobre relações políticas, proteção institucional e circulação internacional de ativos financeiros ligados ao conglomerado.




