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sexta-feira, maio 15, 2026
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Funcionários relatam comida estragada, revistas íntimas e atrasos salariais em produção de filme sobre Bolsonaro

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Relatório do SATED/SP reúne denúncias de figurantes e técnicos contra a produção de “Dark Horse”, obra cercada de questionamentos após revelação de aportes milionários ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro

Uma das hipóteses em análise é que parte do dinheiro supostamente transferido para um fundo no Texas tenha sido utilizado para custear a permanência do deputado federal Eduardo Bolsonaro nos EUA Foto Divulgação Dark House

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A superprodução Dark Horse, cinebiografia inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, passou a enfrentar uma nova frente de desgaste após denúncias trabalhistas envolvendo alimentação estragada, revistas consideradas abusivas, atrasos de pagamento e condições precárias durante as filmagens realizadas em São Paulo.

As denúncias constam em relatório produzido pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo (SATED/SP), que compilou 15 ocorrências formais encaminhadas por figurantes, artistas e técnicos envolvidos na produção do longa.

O caso ganhou repercussão nacional após revelações sobre um suposto aporte de R$ 61 milhões associado ao banqueiro Daniel Vorcaro, investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. Conversas divulgadas entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro aumentaram os questionamentos sobre o financiamento da obra e sua dimensão política em ano pré-eleitoral.

Segundo o relatório do SATED/SP, trabalhadores relataram diferença de tratamento entre integrantes estrangeiros do elenco principal e figurantes brasileiros. Enquanto atores e equipe internacional recebiam refeições completas em sistema self-service, os figurantes brasileiros teriam recebido apenas kits com pão com frios, maçã, paçoca e suco durante jornadas superiores a oito horas.

O documento também registra denúncias de fornecimento de alimentos estragados em outubro de 2025. Parte dos relatos foi encaminhada ao sindicato por meio de mensagens de WhatsApp.

Outras reclamações mencionam cachês abaixo dos valores praticados no mercado audiovisual, atrasos salariais, contratação informal via grupos de WhatsApp e pagamentos realizados em dinheiro, sem emissão de nota fiscal.

Figurantes também denunciaram cobrança de R$ 10 pelo transporte até os locais de filmagem. Segundo os relatos, o valor era pago em espécie ou descontado diretamente das diárias recebidas pelos trabalhadores.

O relatório ainda aponta denúncias de assédio moral e episódios de agressão física dentro do set de gravação. Um dos figurantes afirmou ao sindicato ter registrado boletim de ocorrência e realizado exame de corpo de delito após uma suposta agressão.

Entre os relatos mais graves estão acusações de revistas pessoais consideradas invasivas. Segundo os trabalhadores, seguranças realizavam abordagens com toques em partes íntimas e nos seios dos figurantes durante procedimentos de entrada nas locações.

O SATED/SP também questionou a utilização de equipe técnica estrangeira sem recolhimento de taxas sindicais obrigatórias previstas na Lei nº 6.533/78, que regulamenta as profissões artísticas e técnicas do audiovisual brasileiro.

De acordo com o sindicato, não foram identificados registros de pagamentos ao SATED/SP nem ao Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual (SINDICINE) referentes à contratação desses profissionais, além da ausência de contratos enviados para emissão dos vistos sindicais obrigatórios.

O sindicato afirmou, entretanto, que o relatório não representa acusação formal contra a produção e que os fatos devem ser apurados pelas autoridades competentes, assegurando contraditório e ampla defesa.

A GOUP Entertainment, responsável pela produção, não respondeu aos questionamentos do G1 sobre as denúncias trabalhistas.

As revelações ocorrem em meio à crescente pressão sobre o financiamento do filme. Reportagem divulgada pelo The Intercept Brasil apontou que Daniel Vorcaro teria transferido R$ 61 milhões para a produção entre fevereiro e maio de 2025, supostamente por meio de um fundo sediado nos Estados Unidos ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro.

Em áudios revelados pela investigação, Flávio Bolsonaro demonstra preocupação com atrasos em pagamentos ligados ao filme.

“Tá num momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela pra trás, tá todo mundo tenso”, afirmou o senador em uma das mensagens divulgadas.

Posteriormente, Flávio confirmou ter buscado investidores privados para o projeto, mas negou qualquer irregularidade ou relação ilícita com Vorcaro. Já a GOUP Entertainment divulgou nota afirmando que não recebeu “um único centavo” do banqueiro, do Banco Master ou de empresas ligadas ao grupo financeiro.

O orçamento atribuído ao longa também provocou forte repercussão nos bastidores do audiovisual brasileiro. Os valores ligados à produção superam largamente filmes nacionais recentes de reconhecimento internacional, incluindo O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, cuja produção custou cerca de R$ 28 milhões segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Dirigido por Cyrus Nowrasteh e escrito em parceria com Mark Nowrasteh, a partir de argumento do deputado Mário Frias, Dark Horse é descrito pelos produtores como um thriller político inspirado na campanha presidencial de 2018 e no atentado sofrido por Jair Bolsonaro durante aquele processo eleitoral.

Nos bastidores do setor cultural, produtores independentes e sindicatos avaliam que o caso expõe não apenas possíveis irregularidades trabalhistas, mas também uma crescente disputa política e econômica em torno do audiovisual brasileiro em ano eleitoral.

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