PF rastreia R$ 2 milhões em emendas de Mario Frias e aponta possível conexão com produção de Dark Horse

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A Polícia Federal, por sua vez, procura esclarecer se houve desvio da finalidade das emendas, utilização de empresas interpostas e circulação de recursos públicos por empresas relacionadas entre si, além de verificar eventual conexão desses valores com despesas da produção de Dark Horse. Foto Divulgação

Investigação aponta uma cadeia de transferências envolvendo Instituto Conhecer Brasil, empresas ligadas a aliados do deputado e a produtora Go Up; polícia apura suspeitas de peculato, fraude e lavagem de dinheiro

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A Polícia Federal investiga se cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) ao Instituto Conhecer Brasil foram desviados de sua finalidade e acabaram, direta ou indiretamente, abastecendo empresas relacionadas à produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A apuração integra a investigação que levou à Operação Make Up, deflagrada em setembro, e envolve suspeitas de peculato, fraude e lavagem de dinheiro.

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Os recursos foram destinados a dois projetos apresentados pelo Instituto Conhecer Brasil, o “Lutando pela Vida” e o “Jovem Empreendedor”. Segundo os elementos analisados pela PF, o instituto recebeu as emendas e posteriormente realizou pagamentos a empresas e pessoas que mantêm vínculos profissionais ou pessoais com integrantes do entorno parlamentar de Frias.

A investigação passou a chamar atenção especialmente pela movimentação posterior dos recursos. O Instituto Conhecer Brasil é presidido por Karina Ferreira da Gama, que também está ligada à produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse. A PF identificou uma série de transferências entre empresas relacionadas a Karina e outros envolvidos no circuito financeiro analisado.

O dinheiro que chegou à produtora

Um dos pontos destacados pela investigação é o pagamento de R$ 645,4 mil feito por Mario Frias diretamente à Go Up Entertainment. Segundo a PF, o valor chamou atenção por ser considerado incompatível com os rendimentos mensais declarados pelo parlamentar, cujo salário como deputado é de aproximadamente R$ 44 mil.

A Go Up também recebeu R$ 2,614 milhões da Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, conhecida como GO 7, entre novembro e dezembro de 2025. A GO 7 também está ligada a Karina Gama.

Outro fluxo investigado envolve a NTT Brasil. A Go Up recebeu R$ 750 mil da empresa, enquanto companhias relacionadas ao mesmo grupo empresarial receberam aproximadamente R$ 700 mil provenientes de emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil para o projeto “Jovem Empreendedor”. A PF chamou atenção para a proximidade dos valores e para a sequência das operações.

Segundo reportagem da UOL baseada nos documentos policiais, a Go Up movimentou cerca de R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período que coincide parcialmente com as gravações do filme, realizadas entre outubro e dezembro daquele ano.

A existência dessas movimentações, porém, não significa, por si só, que todo o dinheiro recebido pela produtora tenha origem pública ou que tenha sido utilizado irregularmente. Essa é justamente uma das questões que a investigação busca esclarecer.

Advogados e ex-integrantes do gabinete entram no radar

O relatório policial também identifica pagamentos realizados pelo Instituto Conhecer Brasil a pessoas e empresas ligadas ao círculo profissional de Mario Frias.

O advogado Fábio Lago Meirelles, que atua para o deputado, é proprietário da LF&P Consulting, empresa que recebeu R$ 80 mil do Instituto Conhecer Brasil em contratos relacionados ao projeto “Jovem Empreendedor”. A PF também identificou transferências de aproximadamente R$ 69 mil feitas pela Complexsys a Meirelles entre outubro de 2024 e abril de 2026.

Outro advogado de Frias, Diego Aguilera Martinez, teve seu escritório remunerado em R$ 151.427,13 pelo instituto. Segundo Martinez, os serviços foram efetivamente prestados e dentro da legalidade. O advogado afirmou que não se deve confundir a atuação profissional de um advogado com a situação do investigado.

A investigação também alcançou Raphael Augusto Azevedo, ex-secretário parlamentar de Frias, que foi alvo de busca e apreensão. O irmão dele, Kayo Henrique Azevedo, aparece como responsável técnico pelo projeto “Jovem Empreendedor”. Já Gardenia Morais, ex-companheira de Kayo e ex-secretária parlamentar de Frias, teria confirmado aos investigadores o repasse de parte de seu salário a Raphael.

Empresa criada após saída do gabinete

Outro ponto levantado pela PF envolve a Agência Loop, aberta por Paula de Oliveira Lima dois dias depois de ela deixar o gabinete de Mario Frias, em abril de 2024. A empresa apresentou ao Instituto Conhecer Brasil uma proposta de R$ 311 mil para o projeto “Jovem Empreendedor”. O nome de Kayo Azevedo também aparece nesse trecho da investigação. Segundo ele, não tinha conhecimento do projeto mencionado no inquérito e não possuía acesso aos documentos relacionados ao caso.

Cota parlamentar também é investigada

A PF não se limitou às emendas parlamentares. Os investigadores identificaram que a Complexsys recebeu pelo menos R$ 154 mil em pagamentos provenientes da cota parlamentar de Mario Frias entre setembro de 2024 e abril de 2026.

No período de outubro de 2024 a outubro de 2025, a empresa movimentou mais de R$ 18 milhões, segundo os dados financeiros analisados pela polícia. Entre as operações está o recebimento de aproximadamente R$ 5 milhões provenientes do Instituto Conhecer Brasil.

A empresa rejeitou as acusações e afirmou que os contratos mantidos com o gabinete do deputado obedecem às exigências legais. Também informou que apresentará os esclarecimentos necessários às autoridades.

Pagamentos pessoais também chamaram atenção

Outro elemento já identificado pela investigação envolve pagamentos feitos pela Go Up em benefício de Mario Frias. Segundo relatório da Polícia Federal divulgado no âmbito da investigação, a produtora teria pago aproximadamente R$ 136,8 mil em faturas do cartão de crédito do deputado, além de cerca de R$ 11,2 mil em hospedagens para Frias durante 2025.

Esses pagamentos são analisados pela PF em conjunto com os demais fluxos financeiros para determinar a natureza das relações entre o parlamentar e a produtora.

Mario Frias nega irregularidades e afirmou que as emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil tinham finalidade social e não estavam relacionadas à produção de Dark Horse. Em manifestação anterior ao STF, o deputado negou ter destinado recursos públicos para financiar o filme.

Após a Operação Make Up, Frias classificou as buscas como uma “cortina de fumaça” em meio ao período eleitoral e negou ilegalidades no exercício do mandato.

Karina Gama também nega irregularidades. Em manifestações públicas, sustentou que ser alvo de investigação não significa acusação ou condenação.

A Polícia Federal, por sua vez, procura esclarecer se houve desvio da finalidade das emendas, utilização de empresas interpostas e circulação de recursos públicos por empresas relacionadas entre si, além de verificar eventual conexão desses valores com despesas da produção de Dark Horse.

A própria existência de transferências entre as empresas não prova isoladamente a prática de crime. O que está sob investigação é se essas operações fizeram parte de uma estrutura destinada a retirar recursos de sua finalidade original e direcioná-los para outras atividades.

A apuração ainda depende da análise dos documentos apreendidos, dados bancários e demais elementos recolhidos pela PF. Eventuais responsabilidades criminais deverão ser definidas pelas autoridades competentes ao final do procedimento.

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