Nova tática do partido de oposição foi recebida como cortina de fumaça e tentativa de obstrução na comissão especial; governistas defendem o texto maduro da escala 5×2

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O Partido Liberal (PL), principal legenda de oposição ao governo federal, mudou radicalmente de discurso às vésperas da votação da proposta que põe fim à escala 6×1 na Câmara dos Deputados. O partido anunciou que passará a defender oficialmente a implementação da jornada 4×3 — na qual o funcionário cumpre quatro dias de trabalho e tem três de descanso.
A guinada surpreendeu o Congresso e foi imediatamente recebida por governistas e parlamentares de esquerda como uma manobra política para tumultuar a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC), constranger o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e, na prática, protelar a aprovação de uma reforma trabalhista viável.
A nova estratégia foi anunciada em plenário pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ). De acordo com o parlamentar, a legenda pretende apresentar um destaque de preferência para tentar colocar em votação a proposta original da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), favorável à escala 4×3, atropelando o texto em discussão na comissão especial.
Atualmente, o relatório da PEC 221/19, apresentado pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA), aponta para um consenso em direção à escala 5×2, reduzindo gradualmente a jornada máxima para 40 horas semanais e garantindo a manutenção integral dos salários.
Oposição nega oportunismo
Em discurso na tribuna, Sóstenes defendeu a posição do PL e atacou a articulação governista, classificando a pressa do Palácio do Planalto como uma jogada “eleitoreira” para o ano que vem.
Nos bastidores, no entanto, líderes partidários avaliam que o PL construiu uma “armadilha regulatória”. Após passar meses combatendo o fim da escala 6×1 com argumentos de que a medida quebraria o comércio, a sigla tenta reverter o desgaste público posando como defensora de uma medida ainda mais radical — sabendo que a escala 4×3 encontra maior resistência técnica e dificilmente alcançaria os 308 votos necessários em plenário. O objetivo final seria atrasar o avanço de um relatório que já está maduro e pacificado.
PT acusa oposição de demagogia e sabotagem
A bancada governista reagiu com dureza ao anúncio. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), classificou o movimento como pura “demagogia” e lembrou que, em votações recentes, a maioria da bancada da oposição se posicionou contra avanços na pauta trabalhista.
“O povo brasileiro não acredita em tanta mentira. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está fazendo escola com vocês”, ironizou Uczai, citando que apenas uma semana antes, dezenas de parlamentares do PL haviam apoiado emendas para esticar prazos de transição da escala para até dez anos. “Ora, o povo não é trouxa, o povo não é bobo. Nós queremos o fim da jornada 6×1 com a adoção da 5×2, para que os trabalhadores possam descansar e ficar com suas famílias. Essa é a proposta do presidente Lula.”
A crítica foi endossada pelo ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, que chamou a tática de “pirotecnia com a inteligência da classe trabalhadora”, e por movimentos sociais ligados à pauta, como o fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), Rick Azevedo.
“Gente? Óbvio que queríamos escala 4X3. Mas o texto não passou pelas comissões justamente por impedimento do PL. Agora, não temos um texto/relatório maduro pra essa matéria ser aprovada no plenário. O PL está apenas fazendo narrativa e tentando obstrução para a pauta não ser votada”, declarou Rick Azevedo.
Próximos passos na Comissão Especial
A comissão especial foi convocada para discutir e votar o parecer final do relator Leo Prates nesta quarta-feira (27), após o andamento ter sido travado por um pedido de vista na sessão anterior.
Para a articulação política do governo Lula, garantir a aprovação do fim da escala 6×1 no modelo 5×2 ainda neste semestre é uma meta estratégica vital. Com a proximidade do recesso parlamentar de julho e o subsequente esvaziamento do Congresso devido às campanhas das eleições municipais de outubro, os governistas correm contra o relógio para evitar que a proposta seja empurrada para o próximo ano legislativo.




