Autoridades brasileiras afirmam não reconhecer Felipe Linares Dell Aquilla como liderança de facções criminosas e questionam classificação divulgada por órgão norte-americano

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A prisão de Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla, conhecido como “Don” ou “Dom”, nos Estados Unidos, provocou questionamentos entre investigadores e setores de inteligência brasileiros após autoridades norte-americanas o identificarem como ex-chefe das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). A detenção foi anunciada pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) na segunda-feira (15), durante uma operação na Carolina do Norte.


De acordo com documentos judiciais consultados pela imprensa, Dell Aquilla possui uma condenação definitiva por extorsão, que resultou em pena de nove anos e sete meses de prisão. O nome dele também consta em processos envolvendo acusações de estelionato, ameaça, lesão corporal e outros crimes. Apesar disso, fontes ligadas à Polícia Federal, Ministérios Públicos de São Paulo e Rio de Janeiro, polícias civis e órgãos de inteligência afirmam não possuir registros que o apontem como integrante relevante ou liderança das duas maiores facções criminosas do país.
Segundo investigadores ouvidos por veículos de comunicação nacionais, a identificação de Dell Aquilla como ex-chefe do PCC e do Comando Vermelho causou surpresa justamente porque nomes com posições de comando nessas organizações costumam ser amplamente conhecidos pelos setores especializados no combate ao crime organizado. As mesmas fontes afirmam que não há registros de passagem dele pelo sistema penitenciário paulista nem informações de inteligência que confirmem vínculo formal com o PCC.
As investigações apontam que Dell Aquilla atuou no setor de entretenimento e teria trabalhado em uma produtora musical cujo proprietário foi alvo de apurações da Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro. Há também registros de investigações financeiras nas quais ele teria mencionado recebimento de recursos provenientes de integrantes das facções criminosas. No entanto, segundo as autoridades consultadas, essa circunstância, por si só, não caracteriza posição de liderança ou filiação formal às organizações.
O mandado de prisão internacional que motivou a inclusão do nome de Dell Aquilla na lista de Difusão Vermelha da Interpol decorre da condenação por extorsão. Paralelamente, ele responde a outros processos judiciais no Brasil.
Um dos casos mais conhecidos envolve uma ação judicial relacionada ao Hotel Botanique, empreendimento de luxo localizado em Campos do Jordão, no interior de São Paulo. Segundo a acusação, em 2018 ele teria realizado uma reserva de hospedagem avaliada em R$ 9,2 mil, utilizado os serviços do estabelecimento e posteriormente contestado a cobrança junto à administradora do cartão de crédito, obtendo o reembolso do valor pago.
CAPTURA NOS ESTADOS UNIDOS
Segundo comunicado divulgado pelo ICE, Dell Aquilla foi preso após uma perseguição policial na cidade de Mooresville, na Carolina do Norte. As autoridades americanas informaram que ele tentava fugir em direção à fronteira com o México quando foi abordado durante uma fiscalização de trânsito.
Ainda de acordo com o órgão, o brasileiro mantinha a esposa em situação de cárcere dentro do veículo. Durante a tentativa de fuga, ocorreu um acidente que resultou em sua captura. Os agentes apreenderam uma arma de fogo, dinheiro em espécie e aparelhos celulares que estavam no automóvel.
As circunstâncias da prisão e as acusações apresentadas pelas autoridades americanas ainda deverão ser analisadas por órgãos brasileiros. Até o momento, não houve manifestação pública da defesa de Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla sobre os fatos.
O caso ocorre poucas semanas após os Estados Unidos classificarem oficialmente o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida foi adotada pelo governo norte-americano apesar das divergências com autoridades brasileiras. O governo federal sustenta que as facções criminosas não se enquadram na definição jurídica de terrorismo prevista na legislação nacional.
Em manifestação anterior sobre o tema, o secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, afirmou que a legislação brasileira exige motivação ligada à discriminação, preconceito ou intolerância para caracterização do crime de terrorismo, critérios que não se aplicariam às atividades das organizações criminosas voltadas ao tráfico de drogas e outros delitos comuns.




