Câmeras corporais registraram Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, com as mãos visíveis antes dos disparos; defesa da família recorreu da absolvição dos dois agentes acusados pela morte
<OUÇA A REPORTAGEM>
Novas imagens das câmeras corporais utilizadas por policiais militares durante uma operação em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, mostram Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, com as mãos visíveis e aparentemente rendido no momento em que foi baleado pelos agentes, em julho de 2025. Os soldados Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, apontados como autores dos disparos, foram absolvidos pelo Tribunal do Júri no dia 30 de julho de 2026. A defesa da família recorreu da decisão, alegando que o veredito contrariou as provas produzidas no processo.
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As novas gravações, obtidas pela TV Globo e pelo g1, mostram desde a aproximação dos policiais até os momentos posteriores aos disparos. As imagens registram os quatro homens que estavam no imóvel sendo abordados e recebendo ordens dos policiais. Em determinado momento, Igor aparece com as duas mãos visíveis, sem que as gravações apresentem, naquele instante, uma reação armada ou movimento brusco antes dos tiros.
A sequência ocorreu durante uma ação da Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam), do 16º Batalhão da Polícia Militar. Segundo a versão apresentada inicialmente pelos policiais, a equipe fazia patrulhamento para combater o tráfico de drogas quando suspeitos armados teriam fugido e entrado em uma residência. As câmeras, entretanto, registraram uma dinâmica que passou a ser questionada durante a investigação. Depois que os policiais entraram no imóvel e localizaram os suspeitos, os agentes deram ordens para que eles mostrassem as mãos. Os homens se renderam.
Em uma das gravações, é possível ouvir os policiais dizendo: “Perdeu, perdeu, perdeu”. A sequência mostra os agentes perguntando repetidamente se havia alguém armado. Os suspeitos negam.
Antes dos disparos contra Igor, um dos policiais atira duas vezes contra uma parede do imóvel. Na sequência, os homens que estavam no quarto permanecem no chão. Pouco depois, Renato Torquatto da Cruz entra no cômodo e questiona Igor sobre antecedentes criminais e se ele estaria armado. O jovem responde que não.
O policial determina que Igor se levante. É nesse momento que a gravação registra o primeiro disparo contra o rapaz. Em seguida, Robson Noguchi de Lima também atira. As imagens mostram Igor com as mãos visíveis no momento dos disparos. Outro ângulo das câmeras corporais permite observar com maior nitidez a posição do jovem e a sequência dos tiros.
Segundo a investigação do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), as imagens foram interpretadas como indicativo de que Igor havia sido rendido antes de ser baleado. O material também registra momentos posteriores aos tiros em que os policiais conversam em voz baixa entre si. Os cochichos aparecem em pelo menos três momentos. Em uma das gravações, um dos policiais faz referência à câmera corporal.
A Polícia Militar informou que os agentes não sabiam que estavam sendo filmados naquele momento. Os policiais utilizavam um modelo de câmera cujo acionamento é manual, mas o sistema pode ativar automaticamente outros equipamentos próximos quando uma das câmeras é ligada. O coronel Emerson Massera, então responsável pela comunicação da Polícia Militar, afirmou que a ação havia começado de forma legítima, mas classificou como ilegal o momento em que os disparos foram feitos contra Igor.
“A ação começou completamente legítima. (…) Num determinado momento, esse homem já estava rendido quando os policiais efetivaram os disparos, sem nada que os justificasse”, afirmou.
RELATO DOS POLICIAIS É QUESTIONADO PELAS IMAGENS
Após a ocorrência, um superior hierárquico chegou ao local e pediu aos policiais que explicassem como a abordagem havia ocorrido. Na conversa, os agentes afirmaram que os suspeitos haviam movimentado as mãos e que um deles teria tentado sacar alguma coisa.
“Na hora que eles abaixaram ali a gente [atirou]. Até teve um que meio que sacou e…”, relatou um dos policiais.
O superior perguntou:
“Daí vocês viram isso na mão dele?”
Os policiais responderam que teriam visto “um cabo de madeira”.
A versão registrada nessa conversa, porém, passou a ser confrontada com as imagens das câmeras corporais. As gravações não mostram Igor sacando uma arma antes dos disparos e registram o jovem com as mãos visíveis. Também não aparece, nas imagens fornecidas no material da investigação, uma arma sendo apreendida com Igor ou com os outros homens abordados. Após os tiros, os policiais repetem frases indicando que Igor estaria armado. Em seguida, um novo disparo é feito contra uma parede.
Até o encerramento das imagens das quatro câmeras corporais, segundo o material apresentado na investigação, não há registro da apreensão de uma arma com os homens abordados.
SUSSURROS APÓS OS TIROS
Outro aspecto das gravações chamou atenção dos investigadores. Antes dos disparos, os policiais conversam em voz alta, dão ordens e fazem perguntas aos suspeitos. Depois que Igor é baleado, a comunicação entre os agentes muda. Os policiais passam a falar em voz baixa.
As câmeras registram ao menos três momentos de cochichos entre os agentes. Em uma dessas ocasiões, um dos policiais comenta sobre a câmera corporal. A mudança no comportamento dos agentes passou a integrar o conjunto de elementos analisados na investigação.
A gravação também permite acompanhar os procedimentos realizados depois dos tiros. Os policiais colocam luvas e continuam a operação dentro da residência.
O TRIBUNAL DO JÚRI
Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima foram julgados pelo Tribunal do Júri no Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo. O julgamento durou três dias e foi realizado perante um Conselho de Sentença formado por sete jurados.
Ao final, os jurados reconheceram a materialidade e a autoria delitiva atribuídas aos acusados e, posteriormente, responderam afirmativamente ao quesito absolutório. Com isso, os dois policiais foram absolvidos. A decisão provocou reação da defesa da família de Igor.
Os advogados Gabriela Amoras Silva, Jonatha Carvalho Matos e Wilson Zaska, que atuam como assistentes de acusação e representam os familiares, afirmaram que respeitam a soberania das decisões do Tribunal do Júri, mas consideram que a absolvição foi contrária às provas produzidas durante o processo.
“Durante a instrução processual e o julgamento, foram apresentadas provas que demonstram que Igor foi morto quando já estava rendido, impondo a responsabilização dos acusados”, afirmaram.
Segundo os advogados, o recurso já foi apresentado ao Tribunal de Justiça de São Paulo. A defesa busca a revisão da decisão e afirma que pretende obter um novo julgamento.
OUTROS DOIS POLICIAIS RESPONDEM AO PROCESSO
Além de Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus também respondem pelo caso. Eles são apontados como colaboradores dos policiais acusados dos disparos. O processo envolvendo os dois foi desmembrado e ainda não havia data para julgamento no material apresentado. A investigação inicial apontou que os quatro policiais participaram da ocorrência que terminou com a morte de Igor. O caso começou com a denúncia apresentada pelo Ministério Público ao Tribunal de Justiça. Os quatro agentes se tornaram réus após o recebimento da denúncia pela Justiça.
O RECURSO DA FAMÍLIA
A defesa dos familiares sustenta que o conjunto de provas deve ser reavaliado pelo Tribunal de Justiça. Um dos pontos centrais do recurso são justamente as imagens das câmeras corporais, consideradas pela acusação e pela investigação como elementos importantes para reconstruir a dinâmica dos disparos. A defesa afirma que Igor estava rendido e desarmado quando foi atingido.
O Ministério Público foi procurado para informar se também pretende recorrer da absolvição, mas não havia resposta até a última atualização do material fornecido.
A legislação brasileira assegura a soberania das decisões do Tribunal do Júri, mas existem hipóteses legais de recurso. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal decidiu que pode haver novo julgamento quando uma absolvição for considerada manifestamente contrária às provas dos autos, inclusive em situações em que a decisão esteja fundamentada em razões como clemência.
A análise sobre eventual novo julgamento, contudo, depende da apreciação do recurso pelo Tribunal de Justiça.
O QUE AS IMAGENS MOSTRAM
- A sequência registrada pelas câmeras corporais coloca em confronto duas narrativas.
- De um lado, os policiais afirmaram após a ocorrência que Igor teria realizado movimentos que indicariam a presença de uma arma.
- De outro, as gravações mostram o jovem com as mãos visíveis no momento em que é atingido.
- A diferença entre o relato dos agentes e o conteúdo audiovisual tornou-se um dos principais pontos de questionamento no caso.
- As imagens não mostram Igor portando uma arma antes dos disparos e, segundo o material da investigação, também não registram a apreensão de armamento com ele posteriormente.
A Polícia Militar, por meio do coronel Emerson Massera, reconheceu que os disparos realizados contra Igor depois de ele estar rendido não foram justificados. Apesar disso, o Tribunal do Júri absolveu os dois policiais acusados de efetuar os disparos.
Agora, caberá ao Tribunal de Justiça analisar o recurso apresentado pela família e decidir se estão presentes os requisitos para modificar a decisão ou determinar um novo julgamento.
Enquanto o recurso tramita, a morte de Igor permanece no centro de uma discussão que envolve o uso da força policial, o funcionamento das câmeras corporais, a validade das versões apresentadas pelos agentes e os limites da atuação policial diante de uma pessoa já rendida.



