Polícia Civil investiga ataques com drones equipados com explosivos, cursos clandestinos de operação e estruturas construídas em comunidades para dificultar o monitoramento aéreo.
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A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a expansão do uso de drones pelo crime organizado, incluindo a utilização dos equipamentos para monitoramento de territórios e lançamento de explosivos contra grupos rivais. Imagens obtidas durante as investigações mostram dezenas de pessoas reunidas em uma quadra para participar de um curso de operação de drones que, segundo os investigadores, teria sido oferecido por traficantes no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio.
Drones usados em ataques
A investigação aponta que criminosos passaram a adaptar drones para transportar e lançar granadas. Na semana passada, um equipamento teria sido utilizado para atacar integrantes de uma facção rival na comunidade do Canal, em Vargem Grande. A granada atingiu um trailer, mas não houve feridos.
Segundo a Polícia Militar, dois homens suspeitos de participação no ataque foram presos. Com eles, os agentes apreenderam o drone utilizado na ação, outras granadas de fabricação caseira e dinheiro.
Ainda de acordo com a PM, o equipamento teria sido lançado de um apartamento de cobertura alugado no Recreio dos Bandeirantes. A distância entre o ponto de decolagem e o local do ataque era de aproximadamente dois quilômetros.
Curso clandestino
A Polícia Civil também encontrou imagens que indicam a realização de treinamentos para novos operadores. O curso teria ocorrido há cerca de duas semanas em uma área do Complexo da Penha.
Para os investigadores, a capacitação demonstra que o emprego dos drones pelo crime organizado pode estar deixando de ser uma atividade restrita a poucos operadores e passando a ser disseminado entre integrantes das facções.
A investigação aponta que os equipamentos são utilizados não apenas em ataques, mas também para observar a movimentação policial e monitorar territórios.
Segundo Marcos Motta, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant), “o drone não é usado só pela facção”. Para ele, a tecnologia proporciona uma vantagem estratégica aos criminosos ao permitir observação aérea.
Risco para a aviação
O avanço dos drones também preocupa as autoridades aeronáuticas. Equipamentos já foram identificados nas proximidades de rotas utilizadas por helicópteros e aeronaves que chegam e deixam o Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Oeste.
Uma colisão entre drone e aeronave pode provocar danos graves e comprometer o controle da aeronave, segundo avaliação de piloto ouvida pela reportagem que originou as informações.
A utilização de drones no espaço aéreo é regulamentada e existem restrições para operações próximas a aeroportos e helipontos. Dependendo da operação, também são exigidas autorizações específicas.
Comunidades cobertas para impedir monitoramento
A inteligência da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil, identificou outra estratégia utilizada por criminosos para dificultar o monitoramento aéreo.
Imagens comparativas mostram que trechos do Complexo do Alemão receberam coberturas sobre ruas, vielas e áreas abertas. Os investigadores compararam imagens de satélite de novembro de 2025 com registros aéreos de fevereiro de 2026 e identificaram alterações realizadas em pouco mais de dois meses.
Em determinados pontos, estacionamentos receberam coberturas de alvenaria e outras áreas tiveram estruturas construídas sobre as lajes.
Segundo a Polícia Civil, os telhados podem ter sido instalados para dificultar ataques realizados com drones, mas também acabam prejudicando o monitoramento das comunidades pelas forças de segurança.
“Eu acredito que o emprego principal desses telhados que vêm sendo colocados em algumas comunidades seja evitar o lançamento de artefatos explosivos por facções rivais. Mas, obviamente, isso traz um prejuízo muito grande para o monitoramento feito pela polícia”, afirmou Marcos Motta.
Número de ocorrências aumenta
A Polícia Civil investiga atualmente 18 ocorrências envolvendo o lançamento de bombas por drones. A corporação, entretanto, suspeita que o número real de casos seja maior.
Dados do Disque-Denúncia também indicam crescimento dos relatos. O primeiro registro envolvendo um drone equipado com granada ocorreu em 2023. Em 2024, foram quatro denúncias.
Em 2025, foram registrados 73 relatos relacionados a traficantes e outros 14 envolvendo milicianos.
O cenário revela uma mudança na utilização da tecnologia pelo crime organizado. Um equipamento comercial que pode ser adquirido legalmente passou a ser utilizado, segundo as investigações, como ferramenta de vigilância, reconhecimento territorial e ataque.
Para as forças de segurança, o desafio agora é impedir que os drones sejam incorporados de maneira permanente à estrutura operacional das organizações criminosas, ao mesmo tempo em que é necessário proteger as rotas aéreas e impedir riscos para moradores e passageiros.
A investigação continua para identificar os responsáveis pelos treinamentos, os financiadores dos equipamentos e a dimensão da rede de operadores que estaria sendo formada nas comunidades do Rio de Janeiro.



