
Áurea Tecnologia aparece entre os maiores fornecedores da candidatura; empresa tem atividade no setor audiovisual, enquanto consulta fiscal apontou R$ 612,9 mil em inscrições em dívida ativa
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A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) registrou R$ 3,7 milhões em despesas com a Áurea Tecnologia e Soluções Ltda., empresa constituída em outubro de 2024 e que aparece como uma das principais fornecedoras da candidatura. O contrato, lançado na Justiça Eleitoral como serviço prestado por terceiros, representa cerca de 6,5% dos R$ 57,2 milhões em despesas contratadas pela campanha no levantamento disponível.
A contratação chama atenção pela dimensão do valor em relação ao capital social registrado da empresa. Dados cadastrais disponíveis apontam capital de R$ 1 mil e Matheus Ruas Mendonça como sócio-administrador da Áurea, constituída em 21 de outubro de 2024. A proporção entre o contrato eleitoral e o capital declarado é de 3.700 para 1.

A atividade principal registrada para a empresa é a produção cinematográfica, de vídeos e de programas de televisão. Entre as atividades secundárias estão serviços relacionados a tecnologia da informação, desenvolvimento de programas, web design, hospedagem de dados e portais de internet. A empresa, portanto, possui atividades compatíveis com parte da estrutura digital e audiovisual utilizada em uma campanha eleitoral.
A Áurea também aparece em documento oficial da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Em convênio assinado em maio de 2025, a instituição identificou Matheus Ruas Mendonça como sócio-diretor da empresa. O acordo tinha como objeto a concessão de estágios curriculares supervisionados para estudantes de graduação.
Na prestação de contas da campanha, a Áurea aparece atualmente entre os três maiores fornecedores de Flávio Bolsonaro, atrás da F.A.R.O Propaganda e Publicidade, com R$ 13,1 milhões, e da Paranoá Digital, com R$ 5,03 milhões. Depois da Áurea aparecem a Algoritmo Dados, com R$ 3,6 milhões, e a RMR Consultoria de Inteligência, com R$ 3,4 milhões.
O valor destinado à Áurea também está relacionado à estrutura digital da campanha. Reportagens anteriores identificaram a empresa como responsável pela implantação e operação da chamada TV Celular, canal de programação contínua criado pela candidatura. A prestação eleitoral, entretanto, registra o pagamento de R$ 3,7 milhões na categoria genérica de “serviços prestados por terceiros”.

Outro ponto a ser verificado é a situação fiscal da empresa. Consulta à plataforma Dívida Aberta, da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), realizada em 1º de setembro de 2026, apontou 13 inscrições em situação irregular, somando R$ 612.932,56. O levantamento citado na apuração separa cinco inscrições classificadas como débitos tributários, no valor de R$ 533.425,34, e oito inscrições previdenciárias, que totalizam R$ 79.507,22.

A existência de dívida ativa, porém, não significa automaticamente que a empresa esteja impedida de prestar serviços ou de celebrar contratos eleitorais. A situação fiscal e a regularidade da despesa eleitoral são questões distintas e precisam ser analisadas conforme as regras específicas da legislação eleitoral.
O ponto que a documentação permite levantar é outro: qual foi exatamente o serviço entregue pela Áurea à campanha, como foi calculado o valor de R$ 3,7 milhões, quantos profissionais participaram da operação e quais estruturas, plataformas e tecnologias estavam incluídas no contrato.
Há ainda uma questão financeira a ser esclarecida. O capital social formal da empresa é de R$ 1 mil, enquanto a própria empresa teria informado ao mercado uma operação de porte muito superior. Reportagem da revista Exame publicada em junho de 2026 informou que a Áurea Tech havia faturado R$ 30 milhões em 2025 e projetava superar R$ 90 milhões em 2026. Esses números foram atribuídos pela publicação à própria companhia e não correspondem ao capital social registrado.
Assim, os dados disponíveis mostram, entretanto, uma empresa relativamente recente, com capital social formal de R$ 1 mil, que passou a figurar entre os maiores fornecedores de uma campanha presidencial, com um contrato eleitoral de R$ 3,7 milhões.
A questão central para a prestação de contas é saber se os serviços contratados foram efetivamente executados, se os valores são compatíveis com os serviços prestados e se toda a documentação exigida pela Justiça Eleitoral foi apresentada. Essas informações poderão ser verificadas no processo de prestação de contas da candidatura.


