Assessor de Nikolas recebeu R$ 105 mil de empresas ligadas a empresário conectado à família Vorcaro

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A conexão com o setor mineral também aparece em uma investigação da Polícia Federal sobre a chamada Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025. Montagem Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados e Banco Master/Divulgação

Thiago Rodrigues de Faria recebeu pagamentos enquanto ocupava cargo no gabinete do deputado; meses antes, Nikolas havia apresentado o advogado a Daniel Vorcaro para tratar de um ativo minerário

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O advogado Thiago Rodrigues de Faria recebeu R$ 105 mil de duas empresas administradas pelo empresário Fernando Alves Vieira enquanto ocupava cargo de coordenador da assessoria jurídica do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Os pagamentos, registrados em 18 notas fiscais entre setembro de 2024 e dezembro de 2025, foram revelados pelo ICL Notícias. Vieira aparece como sócio em empresas que mantêm conexões societárias com integrantes da família de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A acusação de que Vieira teria atuado como “laranja” da família Vorcaro foi apresentada pelo liquidante do Banco Master em uma ação civil nos Estados Unidos. Vieira nega a acusação.

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Faria foi nomeado para o gabinete de Nikolas em março de 2023 e recebia, segundo dados da Câmara dos Deputados citados pelo ICL, cerca de R$ 17,2 mil mensais como coordenador da assessoria jurídica. Em agosto de 2024, abriu a empresa Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia, em Nova Lima (MG). Vinte e dois dias depois, em setembro, emitiu a primeira nota fiscal para a Eagle & Shark Participações, Negócios e Serviços, administrada por Fernando Vieira.

Entre setembro de 2024 e dezembro de 2025, a Eagle & Shark pagou R$ 50.340 ao advogado em 17 notas fiscais. Os valores mensais eram de R$ 2.824 até março de 2025 e passaram para R$ 3.036 a partir daquele mês. Em dezembro de 2025, uma segunda empresa de Vieira, a Health Enterprises Participações e Serviços, conhecida como 2V Life, realizou um pagamento único de R$ 55 mil a Faria. Somados, os pagamentos chegaram a R$ 105.340.

O advogado apresentado a Vorcaro

A relação entre Nikolas, Faria e Daniel Vorcaro já havia aparecido em outra investigação jornalística. Em 30 de março de 2025, Nikolas enviou uma mensagem de áudio a Vorcaro pedindo ajuda para o advogado, a quem chamou de “meu advogado” e “irmão meu”. Segundo o áudio publicado pelo ICL, o deputado afirmou que Faria tinha um ativo minerário que já havia passado por análise técnica e que existia uma pendência relacionada ao negócio. Nikolas ofereceu-se para fazer a ponte entre os dois.

Depois do áudio, Nikolas enviou a Vorcaro o contato de Faria. O banqueiro respondeu que o advogado deveria procurá-lo. O episódio ocorreu em março de 2025, enquanto Faria ainda integrava formalmente o gabinete parlamentar.

A existência do contato entre os três é documentada pelo áudio divulgado pelo ICL. O conteúdo, porém, não demonstra por si só que houve irregularidade na atuação profissional do advogado ou que o deputado tenha recebido qualquer benefício financeiro relacionado ao negócio.

As conexões empresariais

Segundo o levantamento publicado pelo ICL, a Eagle & Shark possui entre seus sócios a Adaptar Gestão Participações. Essa empresa aparece relacionada à Santa Lúcia Empreendimentos Imobiliários, que tem Natália Vorcaro como sócia. Natália é irmã de Daniel Vorcaro e esposa de Fabiano Zettel.

A Santa Lúcia também aparece relacionada à Multimax Participações, presidida por Natália e que tem Henrique Vorcaro, pai de Daniel, como sócio e diretor, segundo a reportagem.

A segunda empresa que pagou Faria, a 2V Life, também possui conexões empresariais que chegam a outras pessoas relacionadas ao grupo econômico e empresarial que aparece nas investigações envolvendo os Vorcaro.

Essas relações societárias, entretanto, não significam automaticamente que todos os envolvidos tenham participado das mesmas operações ou que os pagamentos ao advogado tenham origem irregular. A identificação de vínculos empresariais é um ponto de apuração, não uma prova de crime.

A acusação contra Fernando Vieira

O nome de Fernando Alves Vieira aparece ainda em uma ação civil nos Estados Unidos relacionada ao Banco Master. Segundo o ICL, o liquidante da instituição afirmou no processo que Vieira teria atuado como “laranja” de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel.

Vieira nega a acusação. Segundo a reportagem, ele não foi incluído entre os indiciados no primeiro inquérito da Polícia Federal sobre o caso Master, concluído em agosto de 2026.

Esse ponto é relevante para a apuração porque o vínculo entre Faria e Vieira começou antes da prisão de Daniel Vorcaro e continuou depois da liquidação do Banco Master. A cronologia, contudo, não permite concluir que os pagamentos ao advogado tenham relação com as investigações do banco.

O negócio de minério

A conexão com o setor mineral também aparece em uma investigação da Polícia Federal sobre a chamada Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025.

Segundo documentos citados pelo ICL e pelo jornal Estado de Minas, a empresa de Faria teria firmado contrato com a Gmais Ambiental relacionado à negociação de uma área de mineração. O negócio envolveria uma possível venda de direitos minerários e valores estimados entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões.

De acordo com trecho do inquérito reproduzido pelo ICL, os investigadores registraram que o negócio previa remuneração para parceiros envolvidos na operação, entre eles a empresa de Faria. A reportagem também relaciona a operação à Topázio Imperial, empresa detentora de direitos minerários associados à área investigada.

É justamente nesse contexto que o áudio de março de 2025 ganha relevância documental: antes da Operação Rejeito, Nikolas apresentou Faria a Vorcaro como seu advogado e pediu que o banqueiro avaliasse a possibilidade de ajudar na questão envolvendo o ativo minerário.

Faria confirmou ao ICL que recebeu os valores de Fernando Vieira e afirmou que o exercício da advocacia paralelamente ao cargo de assessor parlamentar não seria ilegal. Disse também que Nikolas não tinha conhecimento de todos os seus clientes e negou que ele e o deputado tenham pedido a Vorcaro para “destravar” o ativo minerário.

O advogado afirmou que estava tentando vender o ativo para empresários e que, segundo sua versão, comentar o negócio com Nikolas resultou no contato com Vorcaro. Também declarou que não tinha conhecimento de eventual atuação de Vieira como “laranja” da família Vorcaro.

Fernando Vieira foi procurado por meio das empresas Eagle & Shark e 2V Life, segundo o ICL, mas não respondeu aos questionamentos. O espaço permanece aberto para manifestação.

A pergunta que permanece

O conjunto de documentos estabelece uma sequência objetiva: Faria era assessor jurídico de Nikolas; abriu sua sociedade de advocacia; passou a receber pagamentos de empresas de Fernando Vieira; Nikolas posteriormente apresentou Faria a Daniel Vorcaro para tratar de um ativo minerário; e as empresas pagadoras possuem vínculos societários que chegam a integrantes da família Vorcaro.

O que esses documentos ainda não demonstram é se existe uma relação financeira ou operacional entre esses fatos além dos vínculos profissionais e societários identificados. Também não está demonstrado que Nikolas soubesse dos negócios entre Faria e Vieira ou que tenha recebido qualquer vantagem.

É essa diferença entre conexão documentada e irregularidade comprovada que precisa ser preservada enquanto as investigações sobre o Banco Master e os negócios envolvendo o grupo Vorcaro continuam.

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