
Empréstimo de R$ 3,1 milhões foi contratado em 2021 com taxa efetiva de 3,71% ao ano; investigadores analisam auditoria do próprio BRB para verificar se houve flexibilização de regras
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A Polícia Federal passou a investigar as condições do financiamento de R$ 3,1 milhões concedido pelo Banco de Brasília (BRB) ao senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) para a compra de uma mansão de aproximadamente R$ 6 milhões em Brasília. A operação, realizada em 2021, entrou no radar do inquérito que apura as relações entre o BRB e o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
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O principal ponto sob análise é se o financiamento foi concedido dentro das regras normalmente aplicadas pelo BRB ou se houve algum tipo de flexibilização para o senador. Segundo informações da jornalista Bela Megale, de O Globo, a PF está examinando dados produzidos por uma auditoria independente contratada pelo próprio banco. A investigação procura esclarecer as circunstâncias da concessão do crédito e eventual tratamento diferenciado.
A taxa do financiamento
O contrato previa o financiamento de R$ 3,1 milhões por 360 meses. Documentos do negócio registraram taxas entre 3,65% e 4,85% ao ano, e a taxa efetiva reduzida aplicada à operação ficou em 3,71% ao ano, acrescida da correção pelo IPCA. Na época, a taxa de balcão indicada pelo próprio BRB para a operação era de 4,85%.
A diferença entre as taxas já havia provocado questionamentos quando a compra veio a público, em 2021. Naquele momento, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou que a operação era normal e que a taxa estava dentro das condições oferecidas pelo banco. Flávio Bolsonaro também afirmou que não havia recebido vantagem e que tinha condições financeiras para assumir o compromisso.
O MPDFT chegou a abrir, em abril de 2021, um procedimento para verificar se o empréstimo havia sido concedido nas condições normalmente disponíveis aos clientes do banco. Na ocasião, a apuração buscava justamente esclarecer se havia tratamento diferenciado na operação.
Presidente do BRB está preso no caso Master
O financiamento foi concedido quando Paulo Henrique Costa presidia o BRB. Ele comandou o banco de janeiro de 2019 a novembro de 2025. Em abril de 2026, Costa foi preso pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades envolvendo o BRB e o Banco Master.
Segundo as investigações divulgadas até agora, Costa é suspeito de envolvimento em operações relacionadas ao Banco Master e de ocultação de seis imóveis avaliados em mais de R$ 146 milhões. A defesa nega que ele tenha cometido crimes.
A conexão entre esses fatos, entretanto, precisa ser estabelecida pela investigação. A prisão e as acusações contra Costa não demonstram, por si só, que o financiamento concedido a Flávio Bolsonaro tenha sido irregular.
Dívida de 30 anos foi quitada em pouco mais de três
Outro ponto que voltou ao foco dos investigadores é a velocidade com que o financiamento foi amortizado. Embora o contrato previsse 30 anos para o pagamento dos R$ 3,1 milhões, Flávio realizou pagamentos extraordinários ao longo do período e quitou a dívida em pouco mais de três anos.
Segundo documentos citados em requerimento apresentado na Câmara dos Deputados, foram realizadas seis amortizações extraordinárias entre novembro de 2022 e março de 2024. Os pagamentos variaram de aproximadamente R$ 198 mil a R$ 997 mil e, somados, ultrapassaram R$ 3,4 milhões. A última parcela, de R$ 520.277,28, foi registrada em março de 2024.
Na época da compra, Flávio declarou renda mensal de R$ 56 mil e afirmou que tinha capacidade financeira para pagar as prestações, atribuindo seus rendimentos ao salário do Senado e a outras fontes. Em manifestação posterior, também citou atividades como advogado e empresário e a renda profissional de sua mulher.
O que a PF precisa esclarecer
A investigação atual não se limita a saber se a taxa de juros era baixa. O ponto central é verificar como o crédito foi aprovado.
Entre as questões que podem ser esclarecidas estão quais critérios de renda e risco foram utilizados, quais documentos foram apresentados, quem autorizou a operação, quais regras internas estavam vigentes em 2021, se outros clientes em situação semelhante obtinham as mesmas condições e se houve alguma exceção no processo de concessão.
Em 2026, a própria Câmara dos Deputados encaminhou requerimento ao Banco Central questionando se o órgão tinha conhecimento das condições do financiamento e se havia identificado eventual tratamento diferenciado ou favorecimento na operação. O documento também pede informações sobre eventuais auditorias ou procedimentos de supervisão relacionados à concessão de crédito imobiliário pelo BRB entre 2021 e 2024.
O caso ganhou nova dimensão porque o BRB passou a estar no centro das investigações sobre o Banco Master. A auditoria independente realizada na instituição apontou problemas em operações com o banco de Vorcaro, e o relatório foi encaminhado às autoridades. A PF agora analisa também se o financiamento de 2021 apresenta alguma irregularidade própria ou conexão com o conjunto de fatos investigados.
Até o momento, a existência de uma taxa inferior à taxa de balcão e a quitação antecipada do financiamento não comprovam favorecimento ou crime. O que existe é uma investigação para determinar se as condições concedidas ao senador seguiram os critérios aplicados pelo BRB aos demais clientes e se houve alguma interferência no processo de aprovação.


