Investigação amplia apuração sobre possível uso de emendas e permite que investigadores federais analisem arquivos digitais e cadeia de custódia de materiais apreendidos pela Polícia Civil em sete endereços ligados à produtora
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A Polícia Federal terá acesso aos dados brutos e aos registros da cadeia de custódia dos materiais apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação envolvendo a produtora do filme “Dark Horse”, obra baseada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A autorização foi concedida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), após pedido da PF para acessar integralmente os elementos recolhidos durante uma operação realizada em junho.
A decisão amplia a capacidade dos investigadores federais de reexaminar o material. Além dos documentos e relatórios produzidos pela Polícia Civil, a PF poderá receber os arquivos originais obtidos durante a extração forense de celulares, computadores e outras mídias, além dos registros utilizados para comprovar a integridade da cadeia de custódia. Segundo informações divulgadas pelo UOL, o ministro aceitou o pedido da corporação na íntegra.
A importância dos chamados dados brutos está justamente na possibilidade de uma nova análise independente. A PF poderá verificar não apenas aquilo que já foi selecionado e interpretado pelos investigadores paulistas, mas também informações que eventualmente não tenham sido utilizadas na primeira etapa da investigação. A cadeia de custódia, por sua vez, permite conferir como os materiais foram coletados, armazenados, transportados e submetidos à perícia.
O dinheiro público no centro da investigação
A frente conduzida por Dino no STF investiga uma possível destinação irregular de emendas parlamentares para o Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à produtora. Segundo a Agência Brasil, a apuração envolve R$ 2 milhões destinados ao instituto por meio de emendas indicadas pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP). O caso chegou ao Supremo após representação da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP).
A investigação é diferente de outra frente relacionada ao financiamento privado de “Dark Horse”. O UOL informou que a apuração sobre as emendas parlamentares não tem relação direta, neste momento, com os pagamentos atribuídos a Daniel Vorcaro, ex-banqueiro ligado ao Banco Master.
Mesmo assim, as duas frentes se encontram no mesmo projeto cinematográfico. O filme tornou-se alvo de questionamentos depois de informações sobre a tentativa de captação de recursos junto a Vorcaro para concluir a produção. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) confirmou que procurou o empresário, mas negou ter oferecido qualquer vantagem indevida ou utilizado recursos públicos.
A própria versão sobre a origem do dinheiro passou por mudanças. Em maio, Mário Frias (PL-SP), produtor executivo do filme, inicialmente afirmou que não havia dinheiro de Vorcaro na produção. Posteriormente, apresentou uma nova explicação, dizendo que havia diferença entre a origem formal do investimento e a identidade do investidor.
Sete endereços e diferentes linhas de investigação
A Polícia Civil paulista realizou buscas em sete endereços relacionados à produtora Go Up Entertainment, à empresária Karina Ferreira da Gama, a institutos e a empresas relacionadas. Uma das investigações envolve contratos milionários firmados com a Prefeitura de São Paulo e suspeitas relacionadas à utilização de recursos públicos.
É justamente esse material que agora poderá ser analisado pela Polícia Federal. A decisão de Dino cria uma ponte entre uma investigação conduzida em São Paulo e as apurações que tramitam no STF em Brasília.
Para a investigação, o ponto central será estabelecer se houve conexão entre recursos públicos destinados por emendas parlamentares, entidades relacionadas à produtora e a estrutura financeira utilizada para produzir o filme. Até o momento, essas são suspeitas sob investigação e não conclusões de que tenha ocorrido desvio ou utilização ilegal de recursos.
Mário Frias nega irregularidades e já pediu o arquivamento da investigação. Flávio Bolsonaro também nega ilegalidades relacionadas à negociação com Vorcaro. A defesa dos envolvidos deverá ter acesso aos elementos processuais conforme as regras de sigilo e do devido processo legal.
A autorização de Dino ocorre em um momento em que o filme também está relacionado a uma segunda investigação no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça, envolvendo áudios atribuídos a Flávio Bolsonaro e as negociações com Vorcaro. Essa investigação tramita sob sigilo.
Agora, o que pode mudar o caso não é apenas o conteúdo já conhecido das apreensões, mas aquilo que ainda está nos arquivos originais. A análise dos dados brutos poderá esclarecer a origem de documentos, comunicações e movimentações financeiras eventualmente relacionadas ao projeto — ou, caso não sejam encontradas conexões, ajudar a afastar suspeitas levantadas nas diferentes linhas de investigação.



