PF cobra da Ancine dados sobre Dark Horse e aprofunda investigação sobre dinheiro usado no filme de Bolsonaro

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Investigadores querem identificar produtores, empresas, contratos e origem dos recursos; longa recebeu ao menos R$ 61 milhões atribuídos a Daniel Vorcaro e já foi autuado pela Ancine por filmagens realizadas no Brasil sem comunicação prévia

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A Polícia Federal aprofundou a investigação sobre a estrutura jurídica e financeira de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, e solicitou à Agência Nacional do Cinema (Ancine) informações detalhadas sobre a produção. Segundo informações divulgadas pela coluna de Malu Gaspar, em O Globo, os investigadores querem saber quem são os responsáveis formais pelo longa, como a produção foi estruturada, quais empresas participaram do projeto e se houve utilização de recursos públicos, incentivos fiscais ou mecanismos federais de fomento ao audiovisual. A apuração tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça.

O pedido da PF foi formalizado em ofício encaminhado à Ancine e inclui questionamentos sobre a situação jurídica atual do filme, eventual cronograma de execução, registros, comunicação de produção, certificações e outros procedimentos administrativos relacionados à obra. A investigação ocorre depois que documentos e mensagens tornaram público que o empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, teria destinado pelo menos R$ 61 milhões ao projeto. A informação foi inicialmente revelada pelo Intercept Brasil e posteriormente repercutida por outros veículos.

O caminho dos R$ 61 milhões

Um dos pontos centrais da investigação é reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro destinado à produção. Documentos divulgados sobre o caso indicam que pelo menos US$ 10,6 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 61 milhões na cotação considerada, foram transferidos em operações relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”.

As informações também apontam para uma negociação envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, e Daniel Vorcaro. O caso ganhou dimensão política porque Flávio aparece relacionado às tratativas para obtenção dos recursos destinados ao filme sobre seu pai.

O valor chama atenção pela dimensão. Segundo levantamento publicado pela Folha, os R$ 61 milhões atribuídos ao financiamento de “Dark Horse” superam o orçamento de produções brasileiras recentes de grande repercussão internacional, como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”.

Por que a Ancine entrou no centro da investigação

A Ancine já havia iniciado uma apuração administrativa sobre “Dark Horse” antes do avanço da investigação policial. Em julho, a agência autuou a Go Up Entertainment por realizar no Brasil filmagens de uma obra estrangeira sem comunicação prévia à Ancine. A legislação do setor estabelece procedimentos específicos para produções estrangeiras filmadas em território brasileiro.

Segundo informações divulgadas anteriormente, a comunicação obrigatória deveria apresentar documentação relacionada à produção e às atividades realizadas no país. A ausência desses registros tornou a estrutura da produção uma das questões que passaram a ser examinadas pelos órgãos públicos.

O fato de uma produção cinematográfica de grande porte ter sido realizada no Brasil sem a comunicação prévia prevista nas regras da Ancine tornou-se, portanto, uma das peças do quebra-cabeça que agora interessa à PF.

Quem está por trás da produtora

Outro ponto que chamou atenção dos investigadores é a estrutura empresarial associada à produção. A Go Up Entertainment aparece ligada à jornalista Karina Ferreira da Gama. Segundo informações obtidas anteriormente junto à Ancine e divulgadas pela imprensa, a empresa não havia registrado ou lançado anteriormente obras cinematográficas no Brasil ou no exterior.

Karina teria entrado no projeto por intermédio do deputado federal Mário Frias (PL-SP), que é apontado como roteirista do filme. A relação ganha relevância porque Mário Frias também aparece associado a outro ponto que interessa à investigação: o Instituto Conhecer Brasil, entidade que recebeu recursos de emendas parlamentares destinadas pelo deputado para projetos relacionados ao audiovisual.

É justamente a sobreposição dessas relações — produtora, agentes políticos, entidade beneficiária de recursos públicos e financiamento privado de grande volume — que faz com que a PF queira mapear documentalmente quem efetivamente participou da produção.

Isso não permite concluir que houve desvio de dinheiro ou utilização irregular de recursos públicos. A questão é justamente o que a investigação pretende esclarecer.

O filme recebeu dinheiro público?

Essa é uma das perguntas que a Polícia Federal encaminhou à Ancine. Os investigadores querem saber se “Dark Horse” recebeu recursos públicos, incentivos fiscais ou qualquer outro benefício vinculado às políticas federais de incentivo ao audiovisual.

Até o momento, as informações públicas disponíveis não permitem afirmar que os R$ 61 milhões atribuídos a Vorcaro sejam recursos públicos. A informação divulgada é de que o dinheiro teria origem privada.

O interesse da PF é verificar se, paralelamente ao financiamento privado, houve utilização de mecanismos públicos ou algum tipo de benefício estatal na cadeia de produção, distribuição ou comercialização.

A produtora já foi autuada pela Ancine

A investigação também se desenvolve em paralelo ao processo administrativo instaurado pela Ancine. A agência identificou que “Dark Horse”, considerado uma obra estrangeira, teve filmagens realizadas no Brasil sem a comunicação prévia exigida. A infração pode resultar em multa de R$ 2 mil a R$ 100 mil.

A Go Up Entertainment afirmou que pretende colaborar com as investigações e prestar os esclarecimentos necessários, mas também disse que pretende exercer seus direitos constitucionais e legais. O advogado da empresa, Ricardo Sayeg, sustentou que o filme está em uma nova etapa de estruturação comercial e que a Europa Filmes trabalha no planejamento de sua comercialização e distribuição no Brasil.

A existência do processo administrativo não significa que a produtora tenha sido condenada. O procedimento ainda depende da apresentação da defesa e da análise da Ancine.

O tamanho do projeto

“Dark Horse” foi produzido como uma obra internacional, com diálogos em inglês e elenco majoritariamente estrangeiro. Jair Bolsonaro é interpretado pelo ator norte-americano Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”.

A produção pretende alcançar o mercado brasileiro em escala significativa. O planejamento comercial divulgado prevê centenas de salas de cinema e uma estratégia de lançamento compatível com uma produção de grande porte. Esse aspecto também aumenta a importância da investigação financeira.

Quanto maior a estrutura comercial do lançamento, maior é a necessidade de compreender como os recursos foram captados, quem assumiu os riscos financeiros, quais empresas foram contratadas e como foram distribuídos os pagamentos.

A conexão com Flávio Bolsonaro

O aspecto mais sensível para a campanha presidencial de 2026 é a ligação entre o filme e Flávio Bolsonaro (PL). O senador é filho de Jair Bolsonaro e candidato à Presidência. Documentos divulgados sobre o financiamento apontam que ele participou das tratativas envolvendo Vorcaro. A revelação criou uma situação politicamente delicada porque o filme retrata justamente a trajetória política de seu pai e foi financiado com uma quantia muito elevada.

Flávio passou a ser questionado sobre sua relação com Vorcaro e sobre a origem dos recursos. A investigação busca agora transformar as informações já divulgadas em uma cadeia documental capaz de demonstrar, ou afastar, eventuais irregularidades. Uma das questões que permanece em aberto é a finalidade exata de cada transferência.

Outra é saber se os recursos foram integralmente destinados à produção cinematográfica ou se parte deles percorreu outras estruturas financeiras antes de chegar aos responsáveis pelo longa.

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