Deputado Rui Falcão pede investigação sobre possível interferência estrangeira nas eleições brasileiras de 2026

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Mulher de Cerimedo sofreu uma tentativa de assassinato, possivelmente orquestrada por Cerimedo/Foto reprodução vídeo/Agencia Brasil

Deputado apresenta novos elementos às autoridades e quer que equipamentos apreendidos na Bolívia sejam cruzados com investigações sobre a atuação de Fernando Cerimedo no Brasil

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O deputado federal Rui Falcão (PT-SP) apresentou nesta segunda-feira (31) novos elementos às autoridades brasileiras e pediu o aprofundamento das investigações sobre a possível atuação de estruturas estrangeiras de desinformação e automação de contas nas eleições brasileiras de 2026. A iniciativa envolve o argentino Fernando Andrés Cerimedo, que já foi investigado pela Polícia Federal por sua atuação na disseminação de alegações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro após as eleições de 2022.

Entre os elementos apresentados está uma campanha digital contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que, segundo a representação, alcançou aproximadamente 475 mil visualizações. O conteúdo teria partido do portal argentino La Derecha Diario, associado a Cerimedo, e posteriormente circulado nas redes sociais no Brasil e na Argentina.

A representação sustenta que o caso precisa ser analisado para verificar se estruturas estrangeiras estão sendo utilizadas para interferir no debate político e eleitoral brasileiro, especialmente por meio de automação de contas, distribuição coordenada de conteúdo e amplificação artificial de mensagens.

Campanha sobre imigração é citada na representação

Um dos episódios mencionados envolve conteúdos sobre a chegada de imigrantes marroquinos ao Brasil. Segundo a petição, as publicações passaram a sustentar a existência de uma suposta “invasão” em Santa Catarina e associaram o fenômeno às políticas migratórias do governo Lula. O material teria sido publicado inicialmente no La Derecha Diario e posteriormente ampliado nas redes sociais.

Para Rui Falcão, o alcance da campanha e sua origem justificam a realização de uma investigação técnica para identificar quem produziu o conteúdo, quem financiou sua distribuição e se houve utilização de ferramentas automatizadas para ampliar artificialmente sua circulação. O alcance de uma publicação, isoladamente, entretanto, não comprova a utilização de robôs ou uma operação coordenada. Essa conexão dependerá de análise técnica dos dados das plataformas e de outros elementos que possam ser obtidos pelas autoridades.

Depoimento de ex-companheira de Cerimedo entra na apuração

Outro elemento apresentado pelo deputado é o relato de Nadia Beller, apontada como ex-companheira de Fernando Cerimedo. Segundo a representação, Beller afirmou que o argentino mantinha estruturas de automação de contas em Buenos Aires e na Bolívia. Ela também teria relatado que esse aparato foi utilizado durante as eleições brasileiras de 2022. As declarações ainda precisam ser verificadas pelas autoridades. A investigação deverá confrontar o depoimento com equipamentos, arquivos, registros financeiros, dados digitais e outros elementos eventualmente apreendidos.

A principal questão é determinar se as estruturas mencionadas existiam, quem as operava, qual era sua finalidade e se houve utilização delas para ações direcionadas ao eleitorado brasileiro.

Cerimedo teria manifestado apoio a Flávio Bolsonaro

A representação também apresenta um relato segundo o qual Cerimedo teria afirmado que iria “lutar” pela candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República em 2026. A informação é apresentada por Rui Falcão como um dos motivos para aprofundar a investigação sobre eventual atuação de estruturas estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.

A existência dessa declaração, caso confirmada, não comprovaria por si só a participação de Cerimedo em uma operação ilegal. O ponto que as autoridades deverão esclarecer é se eventual atuação política foi acompanhada de prestação de serviços, financiamento, contratação, automação de contas ou outras atividades destinadas a influenciar o processo eleitoral brasileiro.

O caso de 2022 volta ao centro da investigação

Fernando Cerimedo ganhou notoriedade no Brasil depois das eleições presidenciais de 2022, quando realizou uma transmissão pela internet na qual apresentou um suposto relatório destinado a questionar a segurança das urnas eletrônicas. As alegações apresentadas naquela ocasião foram contestadas e não produziram evidências capazes de comprovar fraude no sistema eletrônico de votação. A Polícia Federal posteriormente indiciou Cerimedo no contexto das investigações relacionadas à tentativa de golpe de Estado. Apesar disso, ele não foi incluído na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República no processo principal da trama golpista.

A nova iniciativa de Rui Falcão pretende justamente verificar se os equipamentos apreendidos posteriormente na Bolívia podem fornecer elementos adicionais sobre a atuação do argentino.

Equipamentos apreendidos na Bolívia são alvo de pedido de cooperação

O deputado solicitou que o Brasil amplie a cooperação jurídica com a Bolívia para ter acesso aos equipamentos e demais materiais apreendidos durante as investigações contra Cerimedo naquele país. Entre os objetos estaria uma estrutura descrita por autoridades bolivianas como uma “granja de bots”, expressão utilizada para identificar sistemas capazes de operar grande quantidade de contas ou distribuir mensagens em escala. A perícia desses equipamentos poderá ser fundamental para determinar se a estrutura tinha alguma relação com o Brasil.

Os investigadores poderão procurar arquivos, conversas, credenciais, listas de contas, registros de acesso, conteúdos em português, informações sobre pagamentos e outros dados que indiquem quem utilizava os equipamentos e para qual finalidade.

Investigação mira eventual financiamento brasileiro

Um dos pedidos apresentados por Rui Falcão é para que sejam investigados eventuais financiadores, contratantes ou intermediários brasileiros relacionados às atividades digitais de Cerimedo. A apuração deverá verificar a existência de contratos, pagamentos, propostas comerciais ou outras formas de remuneração feitas por pessoas físicas, empresas, partidos políticos, campanhas eleitorais ou intermediários. Esse ponto pode ser decisivo para estabelecer uma eventual conexão entre uma estrutura operada fora do Brasil e interesses políticos ou eleitorais brasileiros.

A simples existência de contatos entre pessoas de diferentes países não caracteriza crime. Para estabelecer eventual irregularidade eleitoral, seria necessário demonstrar a finalidade da operação, sua participação no processo eleitoral e eventual origem dos recursos utilizados.

Pedido prevê cruzamento com investigação de 2022

Rui Falcão também pede que a Polícia Federal faça um cruzamento técnico entre os dados eventualmente obtidos na Bolívia e as informações já existentes nas investigações relacionadas às eleições de 2022. O objetivo é identificar possíveis coincidências entre pessoas, números de telefone, contas digitais, endereços eletrônicos, arquivos, horários de acesso, operadores e fluxos financeiros.

A comparação poderá ajudar a responder uma pergunta central: a estrutura investigada atualmente na Bolívia é apenas uma operação estrangeira de comunicação política ou possui conexões documentadas com atividades realizadas no Brasil? Caso sejam identificados vínculos entre os equipamentos apreendidos e pessoas ou estruturas já investigadas no Brasil, o material poderá abrir uma nova frente de apuração.

A ponte entre 2022 e 2026

O principal elemento novo apresentado pelo deputado é justamente a tentativa de estabelecer uma ligação entre dois períodos eleitorais. Em 2022, Cerimedo esteve envolvido na divulgação de alegações falsas sobre as urnas brasileiras depois do segundo turno. Em 2026, seu nome voltou ao debate político brasileiro, enquanto autoridades bolivianas passaram a investigar equipamentos que, segundo a descrição apresentada publicamente, poderiam ter sido utilizados para operações automatizadas de comunicação digital. A investigação solicitada por Falcão pretende descobrir se existe uma continuidade operacional entre esses episódios.

Para isso, será necessário identificar operadores, financiadores, contratantes e destinatários das ações, além de determinar se houve planejamento específico para interferir no eleitorado brasileiro.

TSE e Procuradoria Eleitoral também são acionados

A representação pede que os novos elementos sejam encaminhados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à Procuradoria-Geral Eleitoral. A intenção é permitir que as autoridades eleitorais acompanhem uma eventual utilização de estruturas estrangeiras durante o processo eleitoral brasileiro. O tema ganha importância diante do crescimento das campanhas digitais e da utilização de ferramentas automatizadas para produção e distribuição de conteúdo político.

O desafio das autoridades é diferenciar uma atuação política legítima de uma operação coordenada destinada a manipular artificialmente o alcance de informações, financiar propaganda irregular ou interferir na liberdade de escolha dos eleitores.

O que a investigação precisa esclarecer

A partir dos elementos apresentados, algumas perguntas passam a ser centrais para a apuração:

  • Quem operava as estruturas digitais apreendidas na Bolívia?
  • Quem financiava a operação?
  • Havia contratos ou pagamentos provenientes do Brasil?
  • Quais contas e plataformas eram administradas pelos operadores?
  • Existem registros de atuação durante as eleições brasileiras de 2022?
  • A estrutura foi utilizada ou preparada para as eleições de 2026?
  • Há ligação documental com candidatos, partidos, empresas ou intermediários brasileiros?
  • Os equipamentos possuem dados que coincidam com elementos já apreendidos pela Polícia Federal?

Essas respostas serão importantes para determinar se existe apenas uma coincidência entre personagens e estruturas digitais ou uma operação organizada com finalidade eleitoral.

Investigação ainda depende de provas técnicas

Até o momento, os fatos apresentados por Rui Falcão constituem pedidos de investigação e hipóteses que precisam ser verificadas pelas autoridades. O depoimento de uma testemunha, a existência de equipamentos de automação ou a publicação de conteúdos políticos não são, isoladamente, suficientes para demonstrar uma operação ilegal de interferência eleitoral. A eventual comprovação dependerá da análise técnica dos equipamentos, das comunicações, dos dados das plataformas, dos fluxos financeiros e de documentos que possam estabelecer a cadeia de comando e financiamento.

O caso coloca novamente no centro do debate a influência de estruturas digitais estrangeiras sobre eleições brasileiras e a necessidade de transparência sobre quem produz, financia e distribui campanhas políticas nas redes sociais.

A diferença entre propaganda política legítima e uma operação clandestina de manipulação eleitoral estará justamente nos elementos que a investigação conseguir reunir.

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