Planilhas do bicheiro Adilsinho apontam supostos pagamentos de mais de R$ 10 milhões a aliados da família Bolsonaro

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O material coloca novamente sob investigação as relações entre crime organizado, financiamento político e grupos que exerceram influência sobre o governo do Rio de Janeiro. Divulgação/ Eliane Carvalho/ Governo do Rio de Janeiro

Documentos apreendidos pela Polícia Federal com o bicheiro Adilsinho relacionam 61 pessoas e indicam mais de R$ 29 milhões em supostos repasses a agentes políticos; entre os nomes aparecem Cláudio Castro, Rodrigo Bacellar, Hélio Lopes, Alexandre Ramagem e Gutemberg Fonseca

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Planilhas apreendidas pela Polícia Federal (PF) com o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, apontam supostos pagamentos superiores a R$ 10 milhões a políticos e aliados próximos da família Bolsonaro no Rio de Janeiro. Os documentos fazem parte de uma investigação sobre a atuação do crime organizado na política fluminense e foram analisados novamente em 2026 no âmbito da Operação Unha e Carne. A apuração foi revelada nesta sexta-feira (18) pelo Núcleo Investigativo do ICL Notícias.

Segundo a reportagem, as planilhas foram apreendidas em novembro de 2022, durante uma fase da Operação Smoke Free, que investigava o comércio ilegal de cigarros no Rio de Janeiro. O material permaneceu nos autos e passou a ser analisado no contexto das investigações atuais sobre a penetração de organizações criminosas na política fluminense.

Os documentos relacionam 61 pessoas, em sua maioria políticos e partidos. Em alguns casos, os nomes aparecem acompanhados de codinomes, o que obrigou os investigadores a tentar estabelecer a identidade dos possíveis destinatários.

De acordo com o relatório policial reproduzido pelo ICL Notícias, os valores atribuídos aos agentes políticos ultrapassam R$ 29 milhões. A investigação, contudo, não estabelece, segundo a reportagem, em que datas todos os pagamentos teriam ocorrido nem conclui que a simples anotação corresponda automaticamente a um pagamento efetivamente realizado.

Entre os nomes associados a supostos pagamentos estão:

  • Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio de Janeiro: R$ 3,63 milhões;
  • Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio: R$ 5,43 milhões, associado ao codinome “Barba”;
  • Hélio Lopes (PL), deputado federal: R$ 323,2 mil;
  • Alexandre Ramagem (PL), ex-deputado federal e ex-diretor da Abin: R$ 91,8 mil;
  • Gutemberg Fonseca (PL), ex-secretário do governo Cláudio Castro e candidato a deputado federal: R$ 727,9 mil.

Somados, os valores atribuídos a esses cinco nomes chegam a aproximadamente R$ 10,2 milhões.

A planilha, porém, é tratada pela investigação como elemento que precisa ser confrontado com outras bases de dados. Um relatório da PF citado pelo ICL afirma que o material deve ser comparado com informações bancárias, fiscais e eleitorais e com as prestações de contas apresentadas à Justiça Eleitoral.

PF vê possível estrutura de cooptação política

Em um dos relatórios, os investigadores afirmam que as anotações podem indicar uma estrutura de aproximação entre o grupo de Adilsinho e agentes públicos. Segundo a PF, a documentação sugere que a organização teria alcançado diferentes níveis do poder público no Rio de Janeiro, incluindo autoridades municipais, estaduais e federais. O relatório menciona nominalmente o ex-governador Cláudio Castro e o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar. A corporação descreve as planilhas como um possível mapa de circulação de recursos destinados ao financiamento político, formal ou informal, por uma estrutura relacionada à organização criminosa investigada.

A conclusão, entretanto, ainda integra uma investigação. A existência de um nome em uma planilha apreendida não comprova isoladamente o recebimento do valor indicado.

Codinome “Barba” é atribuído a Rodrigo Bacellar

Um dos casos que exigiu maior investigação foi o de Rodrigo Bacellar. O nome do ex-presidente da Alerj não aparece diretamente na planilha, segundo o material divulgado. Os investigadores encontraram o codinome “Barba” e buscaram estabelecer quem seria o destinatário. Em relatório, a PF afirma que, diante dos elementos reunidos até aquele momento, havia evidências para considerar que “Barba” seria Rodrigo Bacellar. A defesa do político nega.

Os advogados afirmam que Bacellar jamais utilizou o apelido “Barba” e sustentam que não existe prova concreta de que ele tenha recebido qualquer pagamento de Adilsinho.

Cláudio Castro nega ter recebido dinheiro

O ex-governador Cláudio Castro também aparece na planilha com valor atribuído de R$ 3,63 milhões. A defesa de Castro nega categoricamente que ele tenha recebido qualquer pagamento direto ou indireto de Adilsinho. Segundo a nota divulgada, a simples presença do nome em uma anotação produzida por terceiros não comprovaria recebimento de vantagem indevida.

A defesa também afirmou que despesas de campanha de 2022 relacionadas a serviços gráficos foram regularmente declaradas à Justiça Eleitoral e tiveram as contas aprovadas.

A existência da planilha já havia sido noticiada anteriormente pela imprensa. Em agosto, a Folha de S.Paulo informou que uma lista apreendida pela PF reunia cerca de 70 políticos e quatro partidos, incluindo Cláudio Castro. A defesa do ex-governador afirmou à época que era “mentirosa” qualquer afirmação de que ele teria recebido pagamento, doação ilegal ou vantagem indevida atribuída ao bicheiro.

Hélio Lopes aparece entre os nomes

O deputado federal Hélio Lopes (PL-RJ) aparece na relação com valor de R$ 323,2 mil. Lopes é um antigo aliado de Jair Bolsonaro. Os dois se conheceram quando ainda estavam no Exército, segundo o histórico político citado na reportagem do ICL. Em 2018, Lopes chegou a disputar a eleição utilizando “Hélio Bolsonaro” como nome de urna.

A assessoria do deputado negou o recebimento de recursos provenientes de Adilsinho e afirmou que não reconhece a anotação atribuída ao parlamentar. Segundo a defesa, todas as receitas e despesas de sua campanha de 2022 foram declaradas à Justiça Eleitoral e as contas foram aprovadas. O deputado também afirmou que não havia sido procurado pela PF para prestar esclarecimentos sobre a anotação.

Ramagem também aparece na relação

O ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência e ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL) aparece na planilha com um valor atribuído de R$ 91,8 mil. Ramagem construiu uma relação próxima com a família Bolsonaro desde a campanha presidencial de 2018. Durante o governo Jair Bolsonaro, comandou a Abin. O ex-diretor também foi candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro em 2024 com apoio de Jair e Flávio Bolsonaro. A defesa de Ramagem foi procurada pelo ICL Notícias, mas não apresentou resposta até a publicação da reportagem.

Gutemberg Fonseca aparece com R$ 727,9 mil

Outro nome associado a Flávio Bolsonaro é o de Gutemberg Fonseca, ex-secretário do governo Cláudio Castro. A planilha atribui a ele R$ 727,9 mil. Fonseca negou qualquer relação com Adilsinho. Em declaração reproduzida pelo ICL, afirmou: “Não conheço e nunca estive com Adilsinho. Nunca houve qualquer tipo de pagamento deste senhor para minha campanha.” O nome de Gutemberg já havia aparecido anteriormente em reportagens sobre a lista. Segundo as informações divulgadas, ele também já havia sido citado em outras investigações relacionadas a possíveis relações com integrantes do crime organizado, acusações que ele nega.

Ligação com Flávio Bolsonaro

A relação política entre os nomes que aparecem na planilha e a família Bolsonaro é um dos pontos destacados pela investigação jornalística. Gutemberg Fonseca, por exemplo, ocupou cargos públicos por indicação política atribuída a Flávio Bolsonaro, segundo o levantamento do ICL. A relação entre os dois também ultrapassou a esfera administrativa. Flávio Bolsonaro chegou a se tornar sócio do filho de Gutemberg, Yan Thierry Santos Fonseca, em uma empresa criada para participar de um empreendimento industrial no Rio de Janeiro. O episódio foi revelado anteriormente pela imprensa e envolveu a previsão de remuneração para Flávio por sua atuação como representante comercial.

O contexto de Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar

A planilha também surge em um momento em que Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar tinham posições importantes no projeto político apoiado pelo grupo Bolsonaro no Rio de Janeiro. Castro chegou ao governo estadual após o impeachment de Wilson Witzel e recebeu apoio político de Flávio Bolsonaro. Bacellar, por sua vez, chegou à presidência da Alerj e posteriormente passou a ser tratado como possível candidato ao governo estadual. Os dois aparecem agora entre os principais nomes associados à planilha de Adilsinho, embora ambos neguem qualquer recebimento de dinheiro.

Mercedes encontrada na casa de Bacellar

Outro elemento citado pela investigação envolve uma Mercedes-Benz encontrada em uma propriedade de Bacellar durante uma operação policial. Segundo as informações divulgadas, os investigadores identificaram que o veículo estava registrado em nome de uma empresa ligada a um dos operadores associados ao esquema de Adilsinho. A defesa de Bacellar afirma que o automóvel havia sido disponibilizado temporariamente por uma concessionária para avaliação e possível aquisição, mas que a negociação não foi concluída. Segundo os advogados, o veículo foi devolvido e posteriormente vendido a outra pessoa. A defesa também afirma que Bacellar desconhecia qualquer relação entre a empresa proprietária do veículo e pessoas investigadas.

Camarote na Sapucaí

A investigação também reuniu registros de presença de políticos em um camarote na Sapucaí ligado a Bernardo Coutinho Loyola, sobrinho de Adilsinho. Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar estiveram no local durante o Carnaval de 2024. Alexandre Ramagem também aparece em registros do camarote acompanhado da esposa. A presença em um espaço frequentado por pessoas investigadas, entretanto, não constitui, isoladamente, prova de participação em atividade criminosa. A PF utiliza os registros dentro de um conjunto maior de elementos para reconstruir as relações entre políticos, empresários e integrantes do grupo investigado.

Adilsinho e a investigação sobre o jogo do bicho

Adilson Oliveira Coutinho Filho é apontado pelas investigações como integrante da nova cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro e como figura central em uma estrutura relacionada ao contrabando de cigarros. Segundo a investigação citada pelo ICL, o grupo teria movimentado cerca de R$ 5 bilhões entre 2015 e 2024. Adilsinho está preso desde fevereiro e é investigado por diferentes crimes, incluindo suspeitas relacionadas à atuação de organizações criminosas.

A Operação Unha e Carne busca justamente investigar a penetração de organizações criminosas em estruturas políticas e econômicas do Rio de Janeiro. Em julho, a PF informou oficialmente que uma das fases da operação investigava uma organização suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavagem de dinheiro, com participação de agentes públicos.

Planilha não encerra a investigação

O principal elemento novo revelado agora é a dimensão da lista. São dezenas de nomes, valores milionários e codinomes que, segundo a PF, precisam ser confrontados com movimentações financeiras, documentos fiscais, registros eleitorais e prestações de contas. A própria Polícia Federal trata o material como elemento de investigação e não como prova isolada suficiente para estabelecer a responsabilidade individual de cada pessoa mencionada. Essa distinção é fundamental porque os citados não foram condenados pelo simples fato de seus nomes aparecerem nas planilhas. Cláudio Castro, Rodrigo Bacellar, Hélio Lopes e Gutemberg Fonseca negam os pagamentos atribuídos a eles; a defesa de Ramagem não havia respondido até a publicação da reportagem do ICL.

A partir de agora, o ponto central da investigação será cruzar os valores registrados nas planilhas com os dados bancários e eleitorais para verificar se houve efetivamente transferência de recursos, qual teria sido a origem do dinheiro, quem seriam os destinatários e se os valores foram declarados ou ocultados.

O material coloca novamente sob investigação as relações entre crime organizado, financiamento político e grupos que exerceram influência sobre o governo do Rio de Janeiro. As conclusões, contudo, dependerão do avanço das diligências e da confirmação independente dos registros encontrados pela PF.

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