
Conversas extraídas pela PF indicam que banqueiro prometeu mobilizar aliados pela permanência de Otto Lobo no comando da CVM; dez dias depois, Lobo deu voto de qualidade em processo da Ambipar que afastou obrigação de OPA para fundos administrados pela Trustee
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Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro colocam o atual presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Otto Lobo, entre pessoas que o banqueiro dizia integrar seu círculo de confiança e mostram uma articulação para apoiar a permanência de Lobo no comando da autarquia. A sequência ganha relevância porque, dez dias depois de uma dessas conversas, Lobo participou de uma decisão da CVM sobre ações da Ambipar e utilizou o voto de qualidade para desempatar o julgamento que afastou a obrigação de realização de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) por fundos administrados pela Trustee DTVM.
O que os documentos permitem afirmar são dois fatos distintos: havia uma articulação atribuída ao banqueiro para apoiar Lobo politicamente e, posteriormente, uma decisão da CVM favorável aos recursos apresentados no processo da Ambipar. A eventual existência de conexão entre os episódios é uma questão que depende de investigação.
Segundo mensagens divulgadas a partir do material analisado pela PF, o advogado Ciro Soares conversou com Vorcaro em julho de 2025 sobre a permanência de Lobo na presidência da CVM. Soares teria informado que trabalharia para levar Lobo ao Senado e buscar apoio político. Vorcaro respondeu: “Ótimo ele. Tem que colocar na presidência” e, em seguida: “Vamos fazer acontecer. Vou falar com a minha turma”.
Nas conversas, Soares também mencionou contatos com parlamentares, entre eles os senadores Otto Alencar (PSD-BA) e Jaques Wagner (PT-BA). As mensagens indicam uma tentativa de construir apoio para a permanência de Lobo no comando da autarquia depois da saída de João Pedro Nascimento da presidência da CVM, em julho de 2025. Lobo acabou sendo aprovado pelo Senado em maio de 2026, com 31 votos favoráveis e 13 contrários, e foi nomeado presidente da CVM em junho.
O próprio Otto Lobo nega ter procurado ou recebido apoio de Vorcaro. Em manifestação divulgada após a revelação das mensagens, afirmou que “nunca teve relações ou procurou apoio de Daniel Vorcaro”. Lobo também argumentou que a indicação para cargos na CVM envolve interlocução com senadores responsáveis pelo processo de aprovação.
A decisão sobre a Ambipar ocorreu em 29 de julho de 2025, quando Lobo ainda era presidente em exercício da CVM. O processo envolvia recursos contra decisão da Superintendência de Registro de Valores Mobiliários (SRE), que havia determinado que a Trustee DTVM realizasse uma OPA por aumento de participação. A área técnica havia concluído que a Trustee, em nome de fundos administrados por ela, havia atuado em conjunto com o controlador da Ambipar na aquisição de ações.
Na sessão de 29 de julho, Lobo e o diretor João Accioly votaram pelo provimento dos recursos. A diretora Marina Copola e o então presidente João Pedro Nascimento já haviam se manifestado anteriormente pela manutenção da obrigação de OPA. Com o empate, Lobo exerceu o voto de qualidade e a decisão final afastou a exigência da oferta pública. A própria ata da CVM registra essa sequência.
O voto de Lobo foi acompanhado por Accioly e contrariou a posição anteriormente manifestada por Nascimento e Copola. Em seu voto, Lobo sustentou que não havia elementos suficientes para caracterizar os fundos como pessoas vinculadas ou atuando em conjunto com o controlador da Ambipar. A Procuradoria Federal Especializada junto à CVM, porém, registrou preocupação com a utilização do voto de qualidade e apontou uma possível fragilidade na decisão.
O histórico do processo é anterior à chegada de Lobo à presidência interina. Em março de 2025, a área técnica da CVM havia determinado que a Trustee realizasse a OPA, afirmando ter identificado atuação conjunta com o controlador da Ambipar e ultrapassagem do limite previsto na regulamentação.
A sequência coloca uma pergunta objetiva para a investigação: houve alguma relação entre a articulação política em favor da permanência de Lobo e a posterior decisão regulatória envolvendo fundos administrados pela Trustee? Até o momento, as informações públicas disponíveis não demonstram essa conexão. Também não há, nos documentos oficiais consultados, uma conclusão da CVM ou da Justiça afirmando que o voto de Lobo tenha sido motivado por interesse de Vorcaro.
O episódio ganhou nova dimensão porque a CVM é justamente a autarquia responsável por fiscalizar e regular o mercado de capitais no qual atuava o Banco Master. Em nota, Lobo afirmou que a própria CVM havia adotado medidas contra integrantes do grupo Master, incluindo multas que, segundo ele, somavam aproximadamente R$ 200 milhões, sendo R$ 20 milhões aplicados diretamente a Daniel Vorcaro.
A documentação disponível, portanto, reúne três elementos que precisam ser analisados separadamente: mensagens nas quais Vorcaro demonstra interesse na permanência de Lobo na presidência da CVM; a aprovação posterior de Lobo pelo Senado; e uma decisão da autarquia, enquanto ele exercia a presidência interina, que afastou a obrigação de OPA para fundos administrados pela Trustee. A existência de uma relação causal entre esses acontecimentos permanece como hipótese investigativa, e não como fato comprovado.


