Advogado sequestrado relata ‘tribunal do crime’ e tentativa de pedir ajuda a cliente ligado ao PCC em Cubatão

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Vítima afirma que foi mantida em cativeiro em Cubatão e que criminosos queriam fazê-la abandonar ação judicial relacionada a uma empresa pesqueira no Guarujá

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Um advogado sequestrado e mantido em cativeiro em Cubatão, no litoral de São Paulo, relatou às autoridades que foi submetido a um suposto “tribunal do crime” durante o período em que esteve sob poder dos sequestradores. Segundo o profissional, o grupo teria ligação com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e queria obrigá-lo a abandonar uma ação judicial envolvendo uma empresa localizada no Guarujá, além de obter informações sobre um antigo sócio do negócio.

Durante o cativeiro, o advogado, identificado como Rafaell, conseguiu fazer uma ligação para José Armerindo Santos de Carvalho, conhecido como Boqueta, na tentativa de obter ajuda para escapar. Segundo o relato apresentado pelo profissional, Boqueta foi até o local, mas teria se recusado a interceder para impedir que ele fosse morto.

Boqueta morreu na quarta-feira (12), após ser baleado durante uma ação policial realizada no âmbito da Operação Patrocínio Fiel, desencadeada depois do sequestro do advogado. Segundo a Polícia Militar, uma pistola calibre 9 mm foi apreendida com ele.

Apesar de afirmar que Boqueta não o ajudou durante o cativeiro, Rafaell disse que lamentou a morte do antigo cliente. “Não desejava a morte de ninguém, ainda mais dele, porque assim, eu conheci ele sofrendo uma injustiça […] Eu tentei fazer ele mudar de vida, sair do crime, ele não quis. E, infelizmente, ele teve essa consequência do que ele plantou”, afirmou.

Relação profissional

Rafaell defendia Boqueta em processos relacionados a porte ilegal de arma e em ações judiciais contra o Estado. Em um dos casos, o advogado conseguiu um habeas corpus para o cliente e uma indenização de R$ 2 mil.

Depois do sequestro, ao tomar conhecimento de que Boqueta teria se recusado a ajudá-lo, o advogado decidiu encerrar a relação profissional. Ele rompeu o contrato e renunciou à defesa do antigo cliente dias depois do episódio.

Segundo Rafaell, a decisão não representava desejo de vingança. O advogado afirmou que havia tentado convencer Boqueta a abandonar atividades criminosas e mudar de vida.

Disputa empresarial

De acordo com o relato do advogado, o sequestro teria relação com uma ação judicial movida contra uma empresa comandada por Wagner Rodrigues dos Santos, apontado nas investigações como suposto integrante de uma facção criminosa.

Rafaell afirmou que ingressou com a ação para representar clientes que teriam sido “expulsos” da empresa por Wagner. Segundo o advogado, os antigos sócios mantinham uma relação com ele desde a infância.

Ainda conforme a versão apresentada pelo profissional, Wagner teria prometido pagar aos antigos sócios o valor correspondente às participações deles na empresa para que deixassem o negócio. O pagamento, entretanto, não teria ocorrido.

A partir da disputa, o advogado passou a atuar judicialmente em defesa dos interesses dos antigos sócios. Segundo ele, os sequestradores queriam pressioná-lo a abandonar o processo e fornecer o endereço de um dos clientes, que seria ex-sócio de Wagner.

Empresa no Guarujá

O empreendimento está localizado no Guarujá e, segundo o advogado, teria despertado interesse do grupo criminoso por causa da estrutura instalada em área portuária.

O imóvel possui aproximadamente 440 metros quadrados e, conforme o relato apresentado à investigação, conta com três barcos pesqueiros, duas câmaras frigoríficas, três máquinas utilizadas para limpar camarão e uma máquina para fabricação de gelo.

Para o advogado, a localização e os equipamentos representariam um patrimônio de interesse econômico para o grupo. Essa hipótese, porém, depende da apuração policial e da análise das provas reunidas no caso.

Suposto “tribunal do crime”

Rafaell afirmou que, durante o sequestro, foi levado a um local onde teria sido submetido a interrogatórios e ameaças por integrantes do grupo. Segundo o relato, os criminosos discutiam o destino que seria dado ao advogado.

Foi nesse período que ele conseguiu entrar em contato com Boqueta e pedir ajuda. O advogado esperava que o antigo cliente pudesse interceder por ele, mas afirmou que isso não aconteceu.

A existência, a dinâmica e a participação de cada envolvido no chamado “tribunal do crime” ainda são objeto de investigação. As autoridades também apuram quem determinou o sequestro e quais foram as razões para a escolha da vítima.

Operação Patrocínio Fiel

Após o sequestro, a Polícia Militar deflagrou a Operação Patrocínio Fiel para localizar suspeitos e reunir elementos sobre o crime. Durante a ação, Boqueta foi baleado em um confronto com policiais e morreu.

A PM informou que uma pistola calibre 9 mm foi apreendida com ele. As circunstâncias do confronto e a participação de outros suspeitos deverão ser analisadas no curso da investigação.

Investigação

O caso reúne duas linhas que deverão ser esclarecidas pelas autoridades: o sequestro e as ameaças contra o advogado e a disputa envolvendo o controle da empresa pesqueira no Guarujá.

A investigação deverá apontar se houve efetivamente uma relação entre o conflito empresarial, a ação judicial e a atuação de integrantes de uma organização criminosa. Também será necessário identificar quem ordenou o sequestro, quem participou do cativeiro e quais foram as ordens dadas contra a vítima.

A defesa de Wagner Rodrigues dos Santos foi procurada pelo g1, mas não havia sido localizada até a última atualização da reportagem. As acusações contra ele permanecem sob investigação e não representam, por si só, uma condenação.

O caso segue em apuração pelas autoridades policiais, que deverão reunir depoimentos, documentos, informações sobre a empresa e demais elementos para estabelecer a responsabilidade individual dos envolvidos.

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