
Desdobramento da Carbono Oculto mira estruturas financeiras que teriam movimentado R$ 11,6 bilhões e aponta operações de R$ 370 milhões e R$ 100 milhões
<OUÇA A REPORTAGEM>
Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp
Por Sandra Venancio – Jornal Local
Uma operação deflagrada nesta quinta-feira (24) cumpriu mandados de busca e apreensão em sete estados para aprofundar uma investigação sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado à aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país. Em Paulínia, na Região Metropolitana de Campinas, foi cumprido um mandado contra uma pessoa jurídica.
Batizada de Operação Crédito Oculto, a ação é um desdobramento da Operação Carbono Oculto e reúne Receita Federal, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, Procuradoria-Geral do Estado, Polícia Militar e Polícia Civil. A operação também contou com apoio de unidades do Gaeco de outros estados.
Segundo a Receita Federal, foram cumpridas 32 medidas judiciais, envolvendo 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas. Os mandados foram executados em São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Estrutura financeira sob investigação
A apuração identificou, segundo os investigadores, uma estrutura formada por empresas, fundos de investimento, holdings, fintechs e companhias apontadas como de fachada. O objetivo seria dificultar a identificação da origem dos recursos e dos beneficiários efetivos de determinadas operações.
De acordo com a Receita e o Gaeco, a estrutura teria sido utilizada inicialmente para ocultar quem efetivamente controlava uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo. Posteriormente, a mesma estrutura teria sido empregada para viabilizar a aquisição de uma grande distribuidora de combustíveis.
A distribuidora citada nas investigações é a Terrana, também conhecida como Tobras Distribuidora de Combustíveis, segundo informações divulgadas nesta quinta-feira.
Operação de R$ 370 milhões
Um dos pontos centrais da investigação envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios relacionados à usina. Segundo os investigadores, uma empresa ligada à estrutura de investimentos teria adquirido os direitos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).
A análise financeira apontou, ainda segundo a investigação, que parte relevante dos recursos utilizados nessa operação teria origem em fundos controlados pelo próprio grupo investigado.
Para os investigadores, o mecanismo teria produzido um fluxo circular de recursos, dando aparência de uma operação regular e dificultando a identificação dos beneficiários finais.
R$ 100 milhões passaram por várias empresas
Outro ponto investigado envolve aproximadamente R$ 100 milhões que teriam sido destinados ao financiamento da aquisição da distribuidora.
Segundo o Ministério Público, o dinheiro teria passado por diferentes contas e empresas, incluindo estruturas de fintechs, antes de chegar à usina. O valor posteriormente teria sido incorporado a um fundo criado para a operação.
A movimentação em curto espaço de tempo é um dos elementos analisados pelos investigadores para identificar a origem dos recursos e os beneficiários efetivos das transações.
Empresa movimentou R$ 11,6 bilhões
A dimensão financeira da investigação chama atenção. Segundo a Receita Federal, uma das empresas financeiras utilizadas na estrutura movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
O valor, porém, corresponde à movimentação financeira identificada no período, e não significa que R$ 11,6 bilhões tenham sido necessariamente desviados ou lavados.
Para os órgãos de investigação, o volume de recursos, associado às demais operações analisadas, reforça os indícios de utilização de estruturas financeiras para ocultação patrimonial e dissimulação da origem dos valores.
Mercado financeiro entra no foco
A nova etapa da investigação também alcança integrantes do mercado financeiro. Entre os alvos citados nas reportagens desta quinta-feira estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, ligado ao Banco Genial, e Antonio Carlos Freixo Junior, da Entre Investimentos.
A Entre Investimentos também aparece em investigações relacionadas ao Banco Master. Segundo o UOL, Freixo é delator no caso envolvendo a instituição financeira de Daniel Vorcaro.
A operação, portanto, amplia o alcance da investigação iniciada com a Carbono Oculto e passa a examinar com maior profundidade o caminho percorrido pelo dinheiro através do mercado financeiro.
Imóveis também estão na mira
Além da aquisição da distribuidora, os investigadores analisam o uso de fundos imobiliários e empresas patrimoniais para manter imóveis de alto valor sob controle econômico dos investigados sem que esses bens aparecessem diretamente em seus nomes.
A suspeita é de que estruturas societárias tenham sido utilizadas para separar a propriedade formal dos ativos de quem efetivamente exerceria o controle econômico sobre eles.
Paulínia entra no mapa da investigação
A presença de um mandado em Paulínia coloca a Região Metropolitana de Campinas dentro do mapa da Operação Crédito Oculto. Até o momento, a informação oficial disponível aponta apenas que a medida foi cumprida contra uma pessoa jurídica. A operação ainda está em andamento e a identificação detalhada do alvo local depende da divulgação oficial dos autos e das informações das autoridades responsáveis.
A investigação busca agora esclarecer a origem dos recursos, o papel de cada empresa e dos envolvidos, além de identificar quem seriam os beneficiários efetivos das operações. As suspeitas ainda estão sob investigação e não representam, por si só, conclusão de responsabilidade criminal dos alvos.


